Cássio seria o culpado?

Rafael Castilho

Rafael Castilho é sociólogo, especializado em Política e Relações Internacionais e coordenador do NECO - Núcleo de Estudos do Corinthians

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Cássio seria o culpado?

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Cássio seria o culpado?

Cássio, esteja conosco!

Foto: Daniel Augusto Jr./Ag. Corinthians

Cássio, lembro-me como se fosse hoje quando você chegou ao Corinthians.

O momento era de otimismo e felicidade.

Aquele ano de 2012 será lembrado para sempre. Outro Corinthians, outro país. Nós mesmos tínhamos um acréscimo de paz e alegria em nossos corações.

Mas o otimismo era substituído pela desconfiança e o medo, quando o tema era essa tal Copa Libertadores. O campeonato havia se tornado um fetiche de consumo dos clubes brasileiros. Só isso importava. Mal se comemorava o Campeonato Brasileiro, tratava-se apenas do acesso à Libertadores.

Nunca concordei muito com isso, mas o fato de o Corinthians nunca ter vencido, certamente aumentava de importância a competição. Para nós era mais um peso, como tantos outros que se colocava em nossas costas. Carregamos a fila do Paulista, do Brasileiro e havia essa chaga da Libertadores.

Todo ano acontecia uma coisa diferente. Perdíamos o técnico, um jogador que era sustentação do elenco, mas na maioria das vezes havia um vilão que na hora do vamos ver fazia a gente sair do sonho e cair num filme de terror.

Tínhamos o Júlio César, formado em casa. Goleiro que todos adoramos. Nunca perdeu nosso respeito, mas faltava alguma coisa. Alguns centímetros de braços, uma capacidade de explosão e até de intimidar.

Aí você chegou. Parecia vindo de uma história em quadrinhos, ou o personagem de um filme. Tinha uma feiura comovente que logo encantou. Sim, a fiel nunca gostou - nem se reconheceu - nas belezas óbvias, nem materiais, nem imateriais.

Com aquele tamanho gigantesco, aqueles braços enormes que pôde abraçar a Fiel Torcida toda de uma vez só.

Sim, sabíamos que havíamos encontrado o nosso goleiro. Mais do que isso, sabíamos que havia chegado um grande ídolo.

É como numa história de amor. No começo não se tem certeza se vai dar certo mesmo, muitas coisas podem ocorrer. Mas a gente sabe que algo grande está em curso.

Lembra o vilão de toda edição da Libertadores? Então, em 2012 era pra ser o Alessandro. Mas de potencial amaldiçoado se tornou o capitão da Libertadores e do Mundial. Deveria ele todo dia de sua vida agradecer por sua existência.

Enquanto aquela bola cruzava o Pacaembu, um filme longo e triste passou nos olhos de todo corinthiano. A gente já sabia tudo o que viria depois. A gente não merecia aquilo. Não era pra ser daquele jeito.

Mas espera lá. O que você estava fazendo? Cássio, você não saiu do gol. Ficou esperando. Estava mais gigante do que nunca. Ah, certamente gelou a espinha do Diego Souza. Esperou mais um pouco. Obrigou o jogador do Vasco a se decidir. Ele chutou. Meu mundo parou. Minha vida passou nos meus olhos. Você defendeu. Meu Deus! Comecei a chorar. Chorava de alegria e nervoso.

Cássio, estava tudo revelado. Você era o escolhido. Havia nos redimido. O resto da história todos conhecem.

Cássio, eu queria te contar, fui ao Japão. Vi a maior atuação de um goleiro na história. A maior atuação que eu vi em jogos do Corinthians de um jogador. E olha que fui em muitos jogos. Eu queria te abraçar um dia só pra te agradecer. Que alegria. Que dia feliz na minha vida. Que felicidade você proporcionou.

E você continuou conosco. Com aquele jeito desengonçado. Com aquela tranquilidade. E depois daquela noite no Japão você ainda venceu mais uma Recopa, dois campeonatos brasileiros e quatro paulistas.

Aí chegamos ao ponto que todos esperam: você pode ou não ser cobrado depois de tudo lindo e fantástico que realizou?

Claro que pode, porque essa é a alma do Corinthians. Veja, é só pra isso que ele existe. O Corinthians é resultado de um sonho e de um projeto de uma coletividade. A diferença principal entre o Corinthians e os demais clubes é sua formação. Ele já se constrói pela participação. A participação é condição necessária e existencial do Corinthians.

É claro que muitas vezes esse esforço coletivo nos faz errar. A torcida também erra. Mas é melhor errar sendo quem somos, porque não existe acerto sem ser desse jeito, sem ser o Corinthians.

Pois bem, vi que você também já disse entender perfeitamente não ser maior que o Corinthians. Que aceita ser cobrado. De fato, deveria ser se fosse somente esse o caso.

Então, essa mensagem tem um objetivo principal.

Não se trata somente de te homenagear e olhar para o passado.

Sei que o corinthiano está com medo é do futuro.

Mas nada pode ser mais terrível, nada pode doer mais fundo no peito do que a injustiça!

Uma bola não entra no gol por acaso. A Fiel sabe disso. Nós construímos esse clube. Muita coisa deve ser feita corretamente, muito trabalho, muito planejamento, muitos acertos. Muita coisa tem que acontecer fora do campo.

Dentro do campo é como um Big Bang. Nenhum gol é igual ao outro. Cada gol é como uma impressão digital. Um acidente geológico. Da mesma forma, nenhum gol se toma sozinho.

Dentro do campo são outros 21 jogadores interferindo na partida.

Até a bola chegar no Cássio, muitas coisas aconteceram.

Acontece, que muitas bolas estão estourando na sua meta, Cássio. Muitas.

Tudo estoura ali em você. Ainda que você seja um dos responsáveis, não é justo o que tem ocorrido.

E quais os erros têm sido acumulados para a bola estourar no Cássio? É só dentro de campo?

Evidente que não. As bolas que estouram no Cássio podem, na verdade, desmoronar o Corinthians.

Muitos erros têm sido cometidos. Lembra do esforço coletivo que é o Corinthians? Pois bem, o Corinthians não nasceu pra ter dono. E hoje, o que impera no Corinthians é o patrimonialismo. Cada canto tem um dono.

Quando uma bola encontra as redes muita energia boa paira no ar.

A energia no Parque São Jorge hoje é péssima. O Corinthians está apodrecendo em muitos aspectos.

Em algum momento vibramos com a democracia ressurgindo no Corinthians, com as novas ideias que surgiram, com novas cabeças. O Corinthians chegou até a ser imitado por algumas inovações.

A torcida confiou e se engajou no projeto. Foi sim um momento lindo. Nos mobilizamos por um Corinthians que deixasse para trás a Ditadura Dualib. Que pudesse se modernizar, mas sem se distanciar de sua identidade.

Vivemos vitórias lindas. Momentos especiais. Mas em nenhum momento o corinthianismo deixou de estar atento ao que havia de mais perigoso.

Junto das vitórias e conquistas, despertaram grandes interesses.

A atual gestão trocou o sonho de construir o Corinthians do futuro, de uma gestão profissional, de realizar coisas grandiosas, pelos velhos conchavos políticos. Pelos acordos de subsistência no poder.

A velhacaria ainda controla o Corinthians com mãos podres. O abraço que algumas lideranças do clube deram no Dualib não foi qualquer coisa. Aquilo custou caro, até mesmo espiritualmente. Sucumbimos. Voltamos para trás.

Hoje não há um negócio no Corinthians que não tenha letras bem miúdas. Passamos vergonha todos os dias com processos e protestos. Quando o Corinthians ganha, o torcedor ganha junto, quando perde, perdemos juntos e quando o Corinthians tem seu nome sujo, é como se o nosso nome também estivesse na lama. Sim, porque por onde andamos também nos chamam de Corinthians. Esse também é nosso nome.

Uma centena de atletas contratados. A maioria deles nem sabemos quem são. Dinheiro jorrando pelo esgoto. Há um ano sem técnico e sem padrão de jogo. Não temos um time organizado e competitivo.

Sim, Cássio. A bola vai estourar em você.

Da minha parte, entendo como sinceras as suas palavras. Da minha parte também, digo que não gostaria que fosse embora. Gostaria que ficasse e batesse todos os recordes que lhe faltam aqui no Corinthians.

Não há mal que sempre dure.

A consciência livre dos corinthianos nós levará para um lugar melhor. O sol nascerá.

O associado do Corinthians deverá entender a responsabilidade que lhe cabe. Cada voto representará milhares de corinthianos que não merecem ver o que tem ocorrido. Não! Não merecemos ver o Corinthians ser desrespeitado dessa forma.

Que se coloque o Corinthians em primeiro lugar. Acima de qualquer privilégio. Não pode haver privilégio nem realização maior do que ver o nosso Corinthians brilhar.

Pensem naquele sentimento. Pensem nos primeiros dias vivendo o Corinthians. Naquela sensação de criança. Pense em seus pais.

Pensem que não há amor maior na vida. Que não há coisa mais especial do que se dedicar ao Corinthians.

As eleições estão aí. É hora de mudar.

Cássio, esteja conosco!

Veja mais em: Cássio.

Este texto é de responsabilidade do autor e não reflete, necessariamente, a opinião do Meu Timão.

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Rafael Castilho é sociólogo, especializado em Política e Relações Internacionais e coordenador do NECO - Núcleo de Estudos do Corinthians

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