Adeus, Tobogã!

Rafael Castilho

Rafael Castilho é sociólogo, especializado em Política e Relações Internacionais e coordenador do NECO - Núcleo de Estudos do Corinthians. Ele está no Twitter como @Rafael_Castilho.

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Adeus, Tobogã!

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Adeus, Tobogã!

Tobogã começa a ser demolido no Pacaembu

Foto: Reprodução/Instagram

A escavadeira inicia seu trabalho de maneira delicada, mas implacável. Começa aparentemente de forma despretensiosa, mas, sabe-se, permanente.

A máquina vai arranhando desde baixo a estrutura do velho Tobogã. Em cada golpe arranca um talho de concreto. Chega a ser sádico. Desapressado. A escavadeira vai torturando aquele lugar. Não precisa derrubar tudo de uma vez. Cada golpe será definitivo. Será para sempre. Cada tábua, ou cada pedaço de concreto que caia, doía no coração.

Os mais antigos que viveram o Pacaembu na época da famosa Concha Acústica diziam que esse Tobogã era uma aberração. Pode ser! Mas quem nasceu no mesmo tempo histórico que eu, acostumou-se a viver entre as aberrações. São Paulo talvez seja um amontoado de aberrações urbanas. A cidade é marcada por projetos individuais que concorrem entre si, se sobrepondo de maneira desordenada um ao lado do outro.

O curioso é que essas aberrações se resignificam. Viram outra coisa, sendo ainda elas mesmas. Ou mantem-se elas mesmas funcionando depois como outras coisas. De repente a gente se vê fazendo esporte no minhocão. Quando eu era criança meus pais me levavam para aprender a pedalar no estacionamento do supermercado fechado aos domingos. Há quem jogue bola nas alças de acesso das marginais, que empinam pipa ao lado do Aeroporto, que andam de Skate na Praça Roosevelt. No fundo, aprendemos a viver entre os escombros.

E como fomos felizes naquele Tobogã.

O Tobogã era muito louco, porque ao mesmo tempo que estávamos dentro do estádio assistindo ao jogo, parecia também que estávamos observando do lado de fora.

De maneira geral não era a primeira opção do torcedor. Mas quando a gente se dava conta que os ingressos estavam praticamente esgotados, sentíamo-nos premiados com aquele ingresso suado que dava lugar no Tobogã. Parecia que tínhamos ganho na loteria! A gente pegava o ingresso nas mãos escrito em letras grandes TOBOGÃ, segurava com força, dava um beijo no ingresso e gritava VAI CORINTHIANS!!!

Lembro do tempo que a gente comprava ingresso apenas na hora de ir para o estádio. Era uma loucura, mas de alguma maneira funcionava muito bem. Eu devia ter uns quinze ou dezesseis anos. Fui com uns amigos num Corinthians x Juventus que parecia a final do mundial da FIFA. O Corinthians sempre foi assim. Não sei quando foi que as coisas mudaram um pouco. Acho que éramos mais simples. Pois bem, a briga era feia para conseguir um ingresso. Ninguém conseguia chegar perto do guichê. Quem havia levado a gente no estádio era o pai de um amigo, que também era vizinho. Curioso é que todo mundo na família dele era de estatura mais baixa. Eu com quinze anos já era grandão. Só que naquela época eu era totalmente magricelo. Senti-me muito orgulhoso por ter sido eu que me envolvi feito uma enguia em meio à massa de torcedores e reapareci com quatro ingressos de Tobogã. Nos abraçamos. Fui o herói do dia. O Corinthians ganhou. Éramos felizes.

Era engraçado, mas o Tobogã sempre cantava em outro ritmo e em outro tempo para apoiar o Corinthians. Pode ser porque o som do Tobogã chegava depois. Ou o som do resto do estádio também chegava atrasado ao Tobogã. Mas quando o Tobogã estava lotado, não foram poucas vezes que eu vi ele levantar o resto do estádio. Timãããão eeeee ooooooo, Timããão eeeeoooo!!!

As vezes eu ia sozinho ao estádio e escolhia o Tobogã de propósito. Gostava de ficar na última fileira lá em cima, muitas vezes solitário. Tinha-se uma bela visão da cidade. Eu chegava cedo ao estádio, ligava o radinho, pensava na vida. Quando o jogo começava parecia que estava assistindo de um helicóptero. Era mágico. Não tinha celular e nem câmera, então só posso guardar na memória as tardes que passei ali em cima. Era restaurador. Ao mesmo tempo estava com trinta mil pessoas e também estava sozinho, vendo aquilo tudo rolar.

As pessoas perguntam para mim: “Rafael, como você escreve desse jeito? Você consegue traduzir uma série de sentimentos”. Na real, mais do que escrever, aprendi a observar. Devo dizer que devo muito ao Tobogã. Aquela visão que ao mesmo tempo era íntima e distanciada foi um prato cheio para todo tipo de reflexões.

Eu já desmaiei no Tobogã. Num desses jogos que fui sozinho, eu fiquei tão nervoso e emocionado que caí de costas e demorei pra acordar. De lá fui direto para o hospital. Foi assim, o Corinthians tinha passado por uma série de humilhações. Foi um tempo difícil. Estávamos sem ganhar clássicos. Era semifinal do Campeonato Paulista. O São Paulo, confiante de si, quis sair jogando na intermediária. Bola roubada. O Christian na raça veio carregando a bola. Eu lá em cima olhando tudo. Vai Christian, chuta! Ele tocou mais uma vez na bola, ajeitou, chutou com o peito do pé. No Tobogã, alguns lances aconteciam em câmera lenta. Era interessante. Lembro perfeitamente a eternidade que durou o percurso da bola. Vi o Rogério Ceni saltando no canto esquerdo. Meu coração acelerou. Puxei um pouco mais de ar nos pulmões. Vai entrar. Vai! É GOOOOOLLLL!!!! Eu sabia muito bem o que aquele gol significava e que efetivamente significou para o futuro do Corinthians. No Tobogã, havia também aquele lance de provocação com a torcida visitante que ficava num lugar que chamávamos de chiqueirinho. O mundo rodou na minha frente. Eu gritei gol com tanta força. Minha vista escureceu. Perdi domínio sobre meu corpo e a ausência completa de equilíbrio. Caí de costas com o braço em riste. Fui acudido por quem estava ao meu lado. Ao mesmo tempo que recobria a consciência eu era abraçado. Quando voltei a mim todos choravam ao meu lado. Era o Corinthians!

Puxei pela memória e me dei conta que o último jogo que eu vi no Tobogã foi Corinthians x Boca Juniors na final da Libertadores de 2012. Conseguir aquele ingresso foi um dos maiores presentes que poderia ter ganho na vida. A cena dos dois gols ficará para sempre na minha memória porque tudo ocorreu ali na minha frente. O toque de calcanhar do Danilo. O Emerson dominou com as costelas e num golpe mágico conseguiu ajeitar a bola para executar. O mundo quase acabou de tanta felicidade. Depois, nesses lances em câmera lenta, ainda vejo o Sheik percorrendo o campo de ataque do Corinthians, vindo em direção do Tobogã, eu gritava “mata esse jogo, mata esse jogo” e foi gol sim! Estou gritando até hoje. A cena toda permanece viva, colorida em alta resolução.

Como fui feliz naquele Tobogã. Honestamente não consigo entender certas coisas. Esse desapego que vem com a modernidade. A destruição da memória. Esses dias passei novamente no Maracanã e decidi que sem aquela cobertura, realmente o estádio não existe mais. Pra que detonar aquilo tudo? O que melhorou no estádio ou na vida das pessoas sem a geral e sem a cobertura do estádio? Nada! Pra que tudo isso?

Amanhã vou passar na obra e ver se consigo de recordação algum pedaço daquele Tobogã. Quem sabe aquela pedra não se torna um amuleto. Certamente tem muita energia ali.

Saudosa maloca, maloca querida. Dim dim donde nós passemo dias feliz de nossa vida!

Veja mais em: História do Corinthians.

Este texto é de responsabilidade do autor e não reflete, necessariamente, a opinião do Meu Timão.

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Rafael Castilho é sociólogo, especializado em Política e Relações Internacionais e coordenador do NECO - Núcleo de Estudos do Corinthians. Ele está no Twitter como @Rafael_Castilho.

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