[Rafael Castilho] Muito prazer, nosso nome é Corinthians

Rafael Castilho

Rafael Castilho é sociólogo, especializado em Política e Relações Internacionais e coordenador do NECO - Núcleo de Estudos do Corinthians

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Muito prazer, nosso nome é Corinthians

Muito prazer, nosso nome é Corinthians

O Corinthians nos fez irmãos e por isso carregamos todos o seu nome

Foto: Rodrigo Gazzanel / Agência Corinthians

Por onde quer que eu ande, meu nome é Corinthians. Pelas ruas, tanto faz o meu nome próprio. Mas saibam que isso é um grande motivo de orgulho. Mais legal ainda é perceber que não sou o único. Em todos os lugares onde vou, encontro homônimos. Somos milhões de “Corinthians” espalhados pelo mundo. Basta estender o braço para um aperto de mãos sonoro, estalante, firme e sincero:

- E aí Corinthians, como é que você está?

- Eu tô bem Corinthians, e você?

- Ah Corinthians, sabe como é… na correria! E o Corinthians?

Aí sim, na terceira pessoa, intuitivamente percebemos que quando ouvimos “o Corinthians”, refere-se enfim ao Sport Club Corinthians Paulista, do qual fazemos parte de maneira visceral, orgânica e espiritual.

- Ah, Corinthians… o coringão tá foda. É só alegria. Corinthians, eu vou nessa porque o bagulho está descabelado no trampo.

- Firmeza, Corinthians, eu tenho que ir embora também.

- Valeu, Corinthians. É nois.

- É nois!

E partem cada um numa direção diferente, lutando pelo pão de cada dia, porém felizes por aquele breve e instantâneo encontro. Sem perceberem, disseram “eu te amo” um ao outro.

É uma satisfação incrível. A gente chega à padaria e o rapaz atrás do balcão já fala bem alto pra todo mundo ouvir: “Fala aí, Corinthians”. Você percebe que estão todos te olhando. Alguns sorriem de maneira afetiva, outros apenas baixam lentamente seus olhares:

- Melhor impossível! – você responde.

- Coringão tá foda, né?

- O bagulho ficou louco!

- É nois! Pão na chapa e uma média?

- Acho que hoje eu vou de misto quente. Manda também um suco de laranja. Ah, um café expresso.

E o lanche vem bonito. Deliciosamente recheado. O suco de laranja vem até com aquele chorinho num copo separado. Café bem tirado. Os sorrisos afetivos que se espalhavam pelo local se aproximam de você pra trocar uma ideia sobre as novidades do Mosqueteiro do Parque São Jorge, ou mesmo para contar as histórias dos jogos antigos. Os olhares resignados assim permanecem, apenas nos suportam.

E assim você segue seu dia. Chega na portaria do prédio e logo escuta: “Fala Corinthians, bom dia”. Entra no escritório e o ambiente se divide. Uma parte tem liberdade com você, independente da função que exerça. Pode ser diretor ou faxineiro. Ele sabe que basta chegar à sua mesa e dizer “Corinthians, tudo bem?”, tocar no seu ramal e sem desnecessárias introduções ou apresentações, iniciar a conversa dizendo “Oi Corinthians, deixa eu te falar…”. Com outros não. Faz-se necessário um nível de formalidade maior e atenção aos trâmites, normas e minúcias dos procedimentos. Fazer o quê? A vida é assim…

E quando você descobre que a garota dos seus sonhos tem tudo a ver com você? Que vocês têm mais em comum do que imaginavam?

- Oi Corinthians, tudo bem? – fala ela numa melodia doce e te abre um sorriso lindo.

- Oi Corinthians, meu amor. Você tá cada dia mais linda.

- Ah, Corinthians, para com isso, você diz isso pra mim e pra torcida inteira.

- Que nada, meu amor. Você bem sabe que eu sou Fiel desde que nasci.

- É da Fiel eu sei que você é mesmo.

E os dois riem satisfeitos.

Mas quando o amor é pra valer, a coisa fica muito mais séria:

- Ah, Corinthians. É foda porque eu te amo demais.

- Também te amo, Corinthians. E vai ser pra sempre. Por toda minha vida.

Passam uma linda noite juntos e colados, sem se importar com o calor. Se abraçam afetuosamente. Transpiram mais um pouco. Gostam sinceramente um do outro. “Não te troco nessa vida por ninguém porque eu te amo, eu te adoro, meu amor”. Quando enfim estão extasiados e completos, olham um para o outro com um sorriso safado e dizem juntos “Vai Corinthians!”

- Amanhã é aniversário da minha mãe.

- É verdade! Mas tem jogo do Corinthians bem no horário.

- Ah, então tá bom. A gente passa mais cedo pra dar um beijo e deixa um presente pra ela.

- Boa! Fim de semana a gente leva ela pra jantar. Vai ter jogo de novo? É no sábado ou no domingo?

- No domingo. Mas a gente a leva pra comer uma feijoada no sábado, certo?

- Certo.

Mas não é sempre com carinho que nos chamam por “Corinthians”. Tem os “antis” que quando a gente aponta na mesma calçada já dá pra ler o pensamento: “puta que pariu, lá vem o Corinthians, justo hoje. Tá insuportável”. Inevitavelmente você chega perto dele e ouve em tom nervoso:

- Fala Curinthia (sem conseguir disfarçar a fúria que transborda no canto dos lábios e na testa franzida). Tá feliz, né?

Você responde sem querer pisar muito no calo do rapaz: “Opa, sempre. Só alegria”. Vai embora sem prolongar muito a conversa, mas consegue ouvi-lo resmungando em sussurro: “O cara é legal, mas sai pra lá, Corinthians. Deus que me perdoe! Dá vontade de sumir!”.

É como se fizéssemos parte de uma sociedade secreta, mas acontece que somos muito escancarados. Então não dá pra ser sociedade secreta. Estamos mais para uma grande irmandade.

Somos “Os Corinthians”. Dá pra entender porque o apóstrofe do “Corinthian’s team” foi abolido e numa aportuguesação maravilhosa nos fizemos Corinthians, ao mesmo tempo plural, singular e com uma possessividade coletiva.

Temos uma incrível sensação de pertencimento. Temos instrumentos de solidariedade indestrutíveis. Temos um destino compartilhado. Padecemos das mesmas dores e também nos emocionamos nas mesmas alegrias.

Compartilhamos dos mesmos sonhos para o futuro. Sinceramente nos amamos. Gostamos de estar próximos uns dos outros. É uma grande alegria quando nos reunimos nos dias de jogos, seja no estádio ou em casa, fazendo churrasco ou dividindo o mesmo sanduíche. Nosso lanche sempre vai ser dividido em dois, três, quatro ou cinquenta pedaços se necessário. E num milagre divino o lanche vai alcançar a todos.

A gente abre a porta da nossa casa para os outros Corinthians. Recebe a todos com muito amor. E a gente também vai na casa dos outros Corinthians e nos sentimos à vontade. Abrimos a geladeira. Afinal, em todos os cantos da casa está estampado o nosso nome.

Nunca quisemos nada do Corinthians, ficamos suficientemente felizes somente por carregar o seu nome. Mas pare pra pensar, mesmo sem pedir nada, quanta coisa o Corinthians nos deu? Quantos amigos, irmãos e amores? Quanta felicidade carregamos em nossas vidas? O Corinthians nos dá a certeza que somos filhos de Deus.

O Corinthians nos fez irmãos e por isso carregamos todos o seu nome.

Somos milhões de xarás.

Muito prazer, nosso nome é Corinthians!

Veja mais em: Torcida do Corinthians.

Coluna do Rafael Castilho

Por Rafael Castilho

Rafael Castilho é sociólogo, especializado em Política e Relações Internacionais e coordenador do NECO - Núcleo de Estudos do Corinthians

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