O clube mais brasileiro

Rafael Castilho

Rafael Castilho é sociólogo, especializado em Política e Relações Internacionais e coordenador do NECO - Núcleo de Estudos do Corinthians

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O clube mais brasileiro

Que venha o verão. Vai, Corinthians!

Foto: Daniel Augusto Jr. / Agência Corinthians

Vem chegando o verão.
E como em tantos verões que vivemos nos últimos anos, o verão vem se aproximando com uma atmosfera corinthiana. O verão chega fazendo do Corinthians campeão brasileiro.

Eu tive a sorte de viver seis verões campeões. Estou chegando ao sétimo.
Olha que nem sempre foi assim. Custou para o verão brasileiro chegar com força.
Lembro que durante um tempo o Campeonato Brasileiro terminava num tenebroso inverno. Um inverno que durava décadas. Oito décadas em que o Corinthians era chamado de clube regional.
Me perdoem a vulgaridade, mas me lembro que nos clássicos em que o estádio era dividido meio à meio (bom, meio à meio já é um pouco de exagero, sempre havia muito mais corinthianos) as torcidas adversárias nos chamavam de "cabaço brasileiro". Alguns hoje acham pesada a brincadeira de que "O Palmeiras não tem Mundial". Isso é pouco! Perguntem aos coringões mais antigos se não temos mesmo que gozar todos os adversários. Meu pai sim sofreu muito. Coitado.
Mas, chamar o Corinthians, mesmo antes de 1990, de time regional, era de uma burrice imensa.
Mesmo antes de conquistar seu primeiro título brasileiro o Corinthians já era o mais nacional dos clubes de futebol.
O Corinthians acolheu todos os povos do Brasil que vinham para essa cidade tentar melhor sorte nessa vida. Assim se fez o clube dos "sofredores". Estes povos que sofriam nos quatro cantos do Brasil (e do mundo) também sofreram muito quando aqui chegaram. O sonho de conquistar uma vida melhor na cidade grande quase sempre se revelava duro e cheio de dificuldades e decepções.
Por uma questão de identidade, essa gente tinha que escolher um clube que falasse de alguma forma, ainda que lúdica, de sua experiência. Era uma questão de reconhecimento. O povo se fez Corinthiano.
Assim foi de fora para dentro dessa cidade, e também de dentro partindo rumo aos diferentes territórios do Brasil.
O Corinthians efetivamente se fez um clube nacional. Quantos homens e mulheres em todos estados do Brasil não se reconheceram corinthianos sem racionalizar muito o porquê? A gente viaja o Brasil e para onde quer que olhemos encontraremos um irmão corinthiano.
Assim o Corinthians se fez o clube mais brasileiro.
Mas, era preciso também vencer o Campeonato Brasileiro. E como demorou. Nada nunca veio fácil para o Corinthians.
Acontece que o verão chegou. O verão vai chegando mesmo antes da hora, invadindo a primavera do mesmo jeito que a Fiel invade os estádios mundo afora. Um sol lindo brilhava no Morumbi invadido e tomado por corinthianos. Apenas no cartório poderiam se dar conta de que o estádio pertencia ao São Paulo, porque eram dezenas de milhares de corinthianos se espremendo em todos os cantos do Morumbi. O Fabinho foi costurando pela direita e tocou para o Tupãzinho. Num golpe de genialidade ele enfiou a bola por entre as pernas do zagueiro São Paulino e devolveu para o Fabinho. Ele chutou, o Zetti rebateu e a bola ficou na pequena área esperando o carrinho com a pequena perna do Tupãzinho que foi com toda a raça do mundo e fez o gol. GOL! Sim, foi gol. Gol do Corinthians! Acabou o tabu. Foi num gol sofrido, como o do Basílio, quinze anos antes. Como viria a ser o gol no Japão, numa noite de inverno em Yokohama, mas numa manhã de verão no Brasil.
E assim aconteceu em tantos verões depois de 1990.
O "cabaço brasileiro" viveu momentos felizes e agora está prestes a se tornar o maior vencedor do Campeonato Brasileiro da história! É, meus amigos. O mundo dá voltas.
Agora eu entendo o porquê passei a gostar tanto dos verões.
No bicampeonato de 98 e 99, com o melhor time da nossa história que venceu os campeonatos brasileiros, os títulos foram conquistados quase na véspera de Natal. Em 2005 lembro do Pacaembu ferver de calor no 7 x 1 contra o Santos. Foi assim em 2011 em que o sol recebeu o Doutor Sócrates para a eternidade. Em 2015, BH fervia nos 3 x 0 do Corinthians em plena casa de quem dizia que seríamos campeões porque "o Campeonato estava manchado". Pois é! Depois vencemos o São Paulo por 6x1.
Ah, o verão. Ele vem chegando outra vez. A terra girou e o Corinthians outra vez será Campeão Brasileiro.
É gostoso ser campeão no fim do ano.
Os corinthianos compram seus rojões. Se sobrar alguma coisa usamos no ano novo.
Por falar em ano novo, na hora de usar uma roupa branca, adivinha qual vamos usar? A camisa número um do Coringão. Também podem ser aquelas camisas comemorativas do Corinthians.
Quando o relógio bate meia-noite a champanhe estoura. Se não tiver campanhe vai de sidra. Se não tiver sidra vai de breja. Se não tiver breja vai de água. O importante é gritar "Vai Corinthians!". Isso vira um eco inimaginável. Você grita "Vai Corinthians!" e consegue ouvir por todos os cantos e todas as vozes, outros tantos gritando "Vai Corinthians!".
No farol, é hora do camelô vender aquele gorro do Papai Noel com as cores do Corinthians. Vende também faixa, cavalinho, bandeira. O camelô vai vendendo, gritando, comemorando. Ergue bem a bandeira pra mostrar a qualidade do produto. Ergue lá em cima. Grita. Não dá pra esconder. O camelô também está fazendo a festa.
Por falar em festa, você já chega na confraternização da empresa com a camisa do Corinthians. "Chegou o corinthiano". No amigo secreto quem quer te ver feliz te dá qualquer coisa com o distintivo do nosso Corinthians. Uma caneca, um copo, um chaveiro, um caderno. Não importa. A gente vê o símbolo do Corinthians e começa a chorar de tanta alegria.
Deus do céu! Como a gente ama o Corinthians!
Ele dá um sentido especial às nossas vidas. Nos acolhe. Nos alivia. É um jeito de a gente vencer também.
Nesse mundo tão individualista, o Corinthians nos dá aquele prazer inigualável de vencer e conquistar coletivamente. E em solidariedade somos muito mais felizes. É um sentido muito especial de pertencimento.
Com amor nos realizamos.
Esse ano foi muito duro. Muito difícil. As notícias boas foram tão raras. Mas o Corinthians vem do céu para alegrar nosso coração.
Algumas mesas no Natal estarão mais fartas. Outras menos.
Mas uma coisa que aprendemos com o Corinthians é que temos uns aos outros.
Quanto menos dependemos das coisas, mais chances temos para ser felizes.
O que faz nossa vida melhor, não é a quantidade de presentes. Isso é besteira.
Temos que aprender a ser simples. Humildes. Gratos ao bom Deus por termos o dom da vida.
Essa lição de simplicidade o Corinthians sempre nos deu. Somos mais corinthianos quando somos mais simples.
Que venha o verão.
Que o giro do planeta nos traga coisas boas.
Que sejamos felizes vivendo em Corinthians.
Que alegria estarmos vivos para celebrar mais uma vez o Corinthians campeão brasileiro!
Vai Corinthians!

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Rafael Castilho é sociólogo, especializado em Política e Relações Internacionais e coordenador do NECO - Núcleo de Estudos do Corinthians

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