O diário da invasão -  Cinco anos de um feito histórico

Rafael Castilho

Rafael Castilho é sociólogo, especializado em Política e Relações Internacionais e coordenador do NECO - Núcleo de Estudos do Corinthians

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O diário da invasão -  Cinco anos de um feito histórico

31 mil torcedores no Japão e a maioria estava lá pelo Corinthians naquele dia

Foto: Daniel Augusto Jr. / Agência Corinthians

Os corinthianos vieram aos montes.

Estão espalhados por todas as partes aqui no Japão.

Nas esquinas, no metrô, nas estações de trem, nos restaurantes e nos pontos turísticos.

Todos ostentando como podem o distintivo do Corinthians.

A chegada dos corinthianos à terra do sol nascente foi verdadeiramente impactante.

Quando se encontram pelas ruas das cidades japonesas, a saudação inevitável é um breve "Vai Corinthians".

Mas sem muito estardalhaço. Sem causar nenhum incômodo aos anfitriões que tem recebido os torcedores com tanto carinho e atenção. Aliás, a educação dos "japas" ao tratar os turistas é tamanha que a gente fica até sem jeito.

Ao que parece, a invasão corinthiana no Japão tem causado perturbação apenas no Brasil.

O preconceito social embutido no anticorinthianismo transborda o caráter futebolístico.

Durante esses meses que antecederam a vinda dos corinthianos ao Japão, viu-se todo tipo de manifestação ressentida. Fantasiaram torcedores de presidiários na televisão, disseram que os japoneses seriam assaltados, fizeram piadas e desdenharam da nossa empreitada.

Teve até um jogador - que esqueci o nome - dizendo que quem é acostumado com rodoviária não deveria frequentar os aeroportos.

Realmente, o sucesso do Corinthians é absolutamente insuportável para alguns, pois revela uma espécie de quebra da hierarquia social pré estabelecida. É como se os velhos privilégios estivesses ameaçados pela insubordinação dos pobres.

Recebemos até uma cartilha de "bom comportamento" com instruções básicas para não desestabilizar a ordem local.

Mas o que se vê aqui no Japão é o povo brasileiro encantado com as novidades, saudando os benefícios dos serviços públicos de qualidade e desejosos que isso um dia esteja disponível para a corinthianada - e favelados de todas as agremiações - desprezados historicamente por uma elite burra e insensível.

Existe respeito pela diversidade cultural e pelas regras locais.

Não vi até o momento corinthianos fumando, bebendo ou gritando pelas ruas.

No caminho para o estádio de Toyota, palco da semi-final do Mundial de Clubes, a massa de corinthianos foi caminhando em silêncio. Com alguma angústia por não poder cantar o hino no metrô.

Quando nos aproximamos da estação do estádio, alguns cantavam quase sussurrando os versos de Lauro D'Ávila.

Na chegada ao estádio se via uma massa gigantesca. Muitas bandeiras corinthianas. A predominância absoluta de rostos ocidentais, ou seja, eram brasileiros de todas as partes do globo terrestre que cruzaram o mundo para acompanhar o Corinthians.

Haviam japoneses-brasileiros-corinthianos que literalmente se jogaram no meio da galera. Pareciam não suportar mais a saudade do nosso Coringão.

Uma fila gigantesca para trocar os vouchers dos ingressos revelava a desorganização da FIFA, mas também fazia lembrar os velhos tempos de Pacaembu, em que nos amontoávamos nas bilheterias do estádio para garantir um espaço no Tobogã.

A entrada do Corinthians foi emocionante. Podíamos enfim soltar a nossa voz. Podíamos agora acreditar que o sonho havia se convertido em realidade. Sinceramente choramos. Estávamos vivendo um momento único e especial em nossas vidas.

O choque entre o imaginário e a imaginação.

O nosso Corinthians das vilas paulistanas jogando no outro lado do mundo. A memória afetiva que o Corinthians ocupa na nossa mente, com sentimentos tão domésticos e imagens da nossa infância.

Foi muito louco, essa é a verdade.

É como se a história do Corinthians, com seus grandes feitos do passado, se passasse num filme de ficção cientifica, em paisagem futurística.

O Japão, para mim, se parece com aqueles filmes em que a história acontece centenas de anos à frente. Já o Corinthians me remete a sentimentos do passado que compõem a construção social do nosso povo.

Ta bom! Eu sei que viajei...

Mas foi tudo muito diferente. Catarses acontecem.

Trinta e uma mil pessoas estavam no estádio. Noventa e nove vírgula nove por cento apoiando o Corinthians. Se tirarmos os japoneses que foram ao jogo apenas como fãs do esporte - o que não era muita gente, pois o jogo foi num dia de semana a noite e com um frio dos diabos - dá para ter uma boa margem do tamanho desta invasão.

O Corinthians ganhou. Certas coisas não mudam no tempo nem no espaço. Tivemos que sofrer bastante, até o final.

Na volta do estádio a imagem era impressionante. Dezenas de milhares de corinthianos saindo ao mesmo tempo para garantir a chegada ao trem antes de seu fechamento. Senão, "só amanhã de manhã".

A policia foi acionada. Carregavam uns bastões vermelhos no punho. Ergueram o material que se parecia com um cassetete, mas logo descobrimos que se tratava de sinalizadores iluminados.

Eles orientavam os torcedores para que seguissem o caminho correto. Sorriam e saudavam educadamente as pessoas.

Se violência gera violência, gentileza também gera gentileza.

As pessoas tratam como são tratadas.

A volta foi em paz.

Os jovens e crianças japoneses se juntavam e gritavam bem alto: "poro pó pó pó pó pó pó" e rapidamente aprenderam a dizer para todo mundo ouvir: Vai Corinthians!

O Diário da Invasão.
12 de Dezembro de 2012.

Veja mais em: Títulos do Corinthians e Jogos Históricos.

Coluna do Rafael Castilho

Por Rafael Castilho

Rafael Castilho é sociólogo, especializado em Política e Relações Internacionais e coordenador do NECO - Núcleo de Estudos do Corinthians

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