ELAS SIM!

Victor Farinelli

Victor Farinelli é um jornalista brasileiro e corinthiano residente no Chile, colabora como correspondente de meios brasileiros como Opera Mundi, Carta Capital, Revista Fórum e Carta Maior.

ver detalhes

ELAS SIM!

Coluna do Victor Farinelli

Opinião de Victor Farinelli

3.2 mil visualizações 86 comentários Comunicar erro

ELAS SIM!

As mulheres corinthianas, lutando por seu espaço, reivindicam o espírito que levou à fundação do Corinthians.

Foto: Movimento Toda Poderosa Corinthiana

Sou a favor do posicionamento político das torcidas, e também do clube. E não quero polemizar com os corinthianos apolíticos, ou com os que têm uma posição política, mas diferente da minha - pelo contrário, com estes quero debater, pra gente fazer a democracia funcionar a partir da participação de todos. Contudo, creio que preciso lembrar que a história do nosso clube está ligada à política desde o seu primeiro minuto de existência.

Não confundir aqui política e partidarismo, porque a política pode ser a simples disputa de ideias e projetos dentro de determinado âmbito da sociedade, e nesse sentido, o Corinthians é um clube que nasceu político, porque foi pensado e criado pra dar voz aos que não tinham lugar em outros espaços.

Pensa que naquela São Paulo onde de 1910, muitos clubes estavam restritos a pouquíssimas pessoas que tinham dinheiro ou um certo status. Por isso aquele punhado de trabalhadores pobres e anônimos precisou criar seu próprio clube de pobres pra poder ser parte de um. Com o tempo, foi aglomerando as paixões de tantos outros trabalhadores pobres, imigrantes, favelados, maloqueiros, vagabundos, que também não tinham voz sozinhos, e que passaram a ter até mesmo uma voz política, reunidos dentro desse clube que expressava todas essas identidades. Assim o Corinthians foi crescendo, até ser esta nação de 30 milhões de trabalhadores, muitos já nem tão pobres.

Não se trata de fazer apologia da pobreza, e sim da luta por direitos e representação. E lembrar que o Corinthians é um produto daqueles que, outrora excluídos, lutaram por ter um lugar, e por isso o clube chegou a ser o que é hoje. Portanto, abrir novos espaços de inclusão é algo que está no nosso DNA.

Por isso, gosto de dizer que tenho um entusiasmo corinthiano quando vejo esse movimento de mulheres brasileiras reivindicando tanta coisa no país, os espaços que sempre lhes foram negados e agora elas querem conquistar na marra, seja na política (por aquilo que elas querem e o que elas não querem), na economia (pela justa igualdade salarial), nas artes (sem ter que se sujeitar a nenhum tipo de assédio), e claro, no futebol também.

De uns tempos pra cá, meu respeito pelas minhas amigas corinthianas tem sido muito maior do que pelo menos amigos corinthianos. Quando, ainda criança, me reconheci como corinthiano, foi como surgir dentro de um universo que sempre foi meu, era só chegar e entrar. Ninguém nunca vai questionar um homem que é torcedor fanático do clube. Ninguém nunca vai questionar um homem que sonha em ser jogador de futebol e faz de tudo por esse sonho.

Não se trata de desmerecer os torcedores e jogadores homens. Sou torcedor do nosso Coringão até hoje e não pretendo sair da arquibancada, onde toda voz que grita forte pra empurrar o time tem que ter o mesmo valor, seja de um homem ou de uma mulher (ao menos pra mim, espero que pra você também).

A questão é admitir algo simples e inquestionável, mas poucas vezes dito: é muito mais difícil pra elas chegarem onde chegaram. Tendo que ouvir piadinha de babaca que acha que futebol não é lugar de mulher, que mulher não deve jogar bola. Sendo discriminadas se decidem jogar mesmo assim, ou proibidas de jogar ou ir num jogo, por um pai, irmão, namorado, marido, aquele ex que é um encosto, etc. Sendo rotuladas como "as marias chuteiras, que só querem dar pros jogadores" e outras insinuações tentando deslegitimar sua paixão pelo clube. Sofrendo agressão, desrespeito, grosseria e maltrato dentro e fora do estádio, e não só por torcedores rivais (em situações como a que nós corinthianos, vergonhosamente, impusemos a algumas palmeirenses, esta semana, no metrô paulistano), porque às vezes os ataques vêm de dentro da nossa própria torcida, de gente que espera que elas se assustem, e não queiram voltar nunca mais.

Essa gente perdeu, porque elas voltaram! O machismo, por mais truculento e chauvinista que seja, não foi suficiente pra fazê-las desistir, e elas continuarão voltando, e ocupando esse espaço com o orgulho de quem lutou por ele, até poder levantar essa bandeira e dizer “nós somos as torcedoras do Corinthians e vocês vão ter que nos respeitar”.

Também estão lutando por apoio dentro de campo. Às vezes, nós corinthianos (e incluo as corinthianas) não damos o devido valor a tudo o que temos. Por exemplo, o nosso timaço de futebol que também está jogando em nome do Corinthians e pelo crescimento do futebol feminino. São duas lutas ao mesmo tempo. O nosso é o melhor time feminino do Brasil e as atuais campeãs da América. Até a semana passada, este time estava INVICTO NA TEMPORADA!! Em 37 jogos, foram 30 vitórias, 6 empates e apenas uma derrota, esta semana, sem contar os 103 gols anotados.

Mesmo com um tropeço recente, estamos na semifinal do Brasileirão feminino, a uma vitória da vaga pra final, e também na decisão do Paulista. O Corinthians feminino é uma máquina de jogar bola, e é importantíssimo enaltecer isso porque essas mulheres merecem muito que a Fiel lote a Fazendinha na semifinal de volta do Brasileirão (contra o Flamengo, no dia 10/10) e na final do Paulista (contra o Santos, no dia 6/10).

Não pense que estou aqui querendo pagar um sapo pras minas. Seria hipocrisia da minha parte se fosse assim. Anos atrás, eu era esse babacóide que fazia piadinhas com as mulheres que falam de futebol, ou jogam futebol, ou frequentam estádios. Não mereço nenhum elogio por ter mudado, ou por ter escrito estas linhas. O espaço que elas ocupam hoje não foi dado por mim, nem por nenhum presidente do clube. O mérito é todo delas.

As heroínas dessa história têm outros nomes, alguns tão difíceis de resgatar nessa história escrita por homens. Comecemos então com a inesquecível Dona Elisa, torcedora tão simbólica do clube que merecia um busto no Parque São Jorge e/ou uma bandeira da nossa torcida. Depois, com a Marlene Matheus, nossa primeira presidenta, e uma das primeiras mulheres a dirigir um grande clube do Brasil. E também a Lelê, a goleira que defendeu três pênaltis e nos deu o título da Libertadores feminina de 2017.

E assim, nome por nome, podemos juntar milhões de histórias. Cada vez mais, elas estão presentes, sempre que o Corinthians joga, nos estádios, nos bares, assistindo em casa, mordendo as unhas, xingando o juiz, gritando os gols com a alma, treinando e entrando em campo com a nossa camiseta, e avançando, normalizando aquilo que antes não era permitido. Talvez felizes pelo que já se conquistou - imaginem que, hoje, até a voz oficial do nosso estádio é uma voz de mulher - mas conscientes de que ainda há muito por lutar.

Elas sim são as vencedoras, as que batalharam para superar as barreiras dentro deste mundinho ainda muito machista que é o Corinthians, e deste país que sempre foi muito machista, chamado Brasil.

Por isso, se você vê uma mulher ou um grupo de mulheres se levantando a favor de uma causa, mesmo que não esteja a favor da mensagem (o que é legítimo), ao menos respeite democraticamente, corinthianamente, o direito delas lutarem por isso, pelos seus direitos e pelo direito de serem respeitadas em todos os âmbitos da sociedade.

Não precisa concordar com o #EleNão, mas é preciso aceitar que #ElasSim!

Veja mais em: Torcida do Corinthians.

Este texto é de responsabilidade do autor e não reflete, necessariamente, a opinião do Meu Timão.

Coluna do Victor Farinelli

Por Victor Farinelli

Victor Farinelli é um jornalista brasileiro e corinthiano residente no Chile, colabora como correspondente de meios brasileiros como Opera Mundi, Carta Capital, Revista Fórum e Carta Maior.

O que você achou do post do Victor Farinelli?