Um dilema distintivo

Victor Farinelli

Victor Farinelli é um jornalista brasileiro e corinthiano residente no Chile, colabora como correspondente de meios brasileiros como Opera Mundi, Carta Capital, Revista Fórum e Carta Maior.

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Um dilema distintivo

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Um dilema distintivo

Entre tantos, o nosso é único.

Vejo nos debates entre corinthianos nas redes sociais uma certa disputa de conceitos. Visibilidade e modernização de um lado, identidade e tradição do outro, em conversas às vezes acaloradas sobre nossos símbolos, especialmente o nosso brasão, centro da uma meia polêmica sobre se deve ou não passar por um processo de adaptação aos tais “novos tempos”.

Há pouco menos de um ano atrás, escrevi um artigo sobre a questão da camiseta listrada, e quem recordá-lo (ou der uma pausa nesta leitura pra ver o que lá foi dito, e depois continuar) entenderá onde quero chegar com este texto. De qualquer forma, como democrata corinthiano que sou, vou tentar desenvolver uma ideia além das minhas preferências pessoais. Vejamos se consigo.

Essa onda de redesenho dos distintivos tradicionais começa a ganhar força na Europa, com os casos de Manchester City e Juventus, e chega ao Brasil graças ao Athlético-PR. Não torço pra nenhum desses times e não me pretendo questionar as decisões que tomam, mas tampouco creio pertinente que esses casos alheios, venham de onde venham (e, portanto, sem nenhum menosprezo aos clubes mencionados), sejam o motivo pelo qual se discuta uma mudança tão importante dentro do nosso clube. Nossas mudanças deverm ser impulsadas por processos internos que levantem essa necessidade, algo que não creio que esteja acontecendo agora.

Aliás, o formato que temos atualmente é aquilo que podemos chamar de distintivo, dentro do significado mais exato da palavra. É uma figura que nos distingue de qualquer outro brasão, futebolístico ou não. Assim como a camiseta listrada é única, e que qualquer pessoa, quando vê um pano preto com delgadas listras brancas, mesmo sem símbolo nenhum, sabe que essa disposição das cores simboliza o Corinthians, o nosso escudo também tem esse poder de ser identificável mesmo de longe, ou através do seu original contorno. Talvez por isso tenha sido escolhido, em 2017, como o mais bonito emblema do futebol brasileiro, na opinião isenta de observadores estrangeiros. Conseguir outro desenho que tenha esse poder de reconhecimento não é impossível, mas tampouco é algo fácil, e tardaria anos em se consolidar no imaginário popular.

Não sou totalmente contra a mudança, até porque só poderia me agarrar no já inútil argumento da nostalgia pelo desenho da minha infância, nos longínquos Anos 80. Naquela época, nosso escudo era quase igual, mas bem diferente do de agora. De lá pra cá, muitos detalhes foram alterados, redimensionados, modernizados, até chegar ao visual que temos desde, se não me engano, a retirada das estrelas – se houve alguma mudança depois disso é porque a meia idade já me dificulta perceber algumas coisas.

Claro, nenhuma dessas foi uma verdadeira reconfiguração do distintivo, como alguns parecem desejar, mas foram mudanças enfim, e não há mal nenhum nisso.

Também é verdade que o Corinthians teve não poucas mudanças completas no desenho do seu brasão, o que impede descartar que isso aconteça de novo desta vez. Contudo, as dinâmicas sociais observadas pela história ensinam que essas mudanças merecem certo consenso pra se tornarem definitivas, especialmente em temas desse nível de importância, e envolvendo massas tão apaixonadas quanto a corinthiana. Por isso, penso que esta decisão deveria ser tomada somente se for realizado um debate realmente profundo e democrático entre sócios e torcedores, todos aqueles que vivem e amam o clube, que são finalmente os que se sentem representados pelo nosso emblema.

Se a decisão de alterar o escudo for tomada entre quatro paredes por uma equipe de marketing, pensando somente nos possíveis lucros em vendas de camisetas e merchandising, existe uma grande chance de terminar em rejeição ou em uma mudança efêmera, o que não seria tanto um fiasco, mas sim seria um tipo de derrota.

Sei que é até risível pleitear um processo amplo e democrático pra realizar mudanças dentro de um clube onde a eleição presidencial não chega a ter sequer 4 mil votos, em um universo de mais de 30 milhões de torcedores. Mas quem sabe seja nessa busca pela fórmula prum debate com a torcida que nós vamos encontrar também uma maneira de melhorar a democracia dentro do Corinthians – o que pode incluir também eleições vindouras com maior nível de participação e votação.

Seguindo o ensinamento dos nossos próceres democratas de 1983, o que posso dizer sobre o escudo é: mudemos ou não, mas sempre com democracia, e com a participação ampla das corinthianas e corinthianos no processo. Mesmo que seja pra uma mudança mais conservadora, que seria somente uma nova alteração de detalhes do desenho atual, creio que deveria passar pelo aval da Fiel ante de ser confirmado.

Pessoalmente, prefiro mudança nenhuma, mas falo somente em meu nome, não pelas milhões de opiniões corinthianas que podem ser diferentes. Contudo, espero convencer vocês de que, na hora de decidir sobre algo tão importante, devemos lembrar que identidade e distinção são fatores que contam, e por isso ele se chama “distintivo”.

Veja mais em: História do Corinthians.

Coluna do Victor Farinelli

Por Victor Farinelli

Victor Farinelli é um jornalista brasileiro e corinthiano residente no Chile, colabora como correspondente de meios brasileiros como Opera Mundi, Carta Capital, Revista Fórum e Carta Maior.

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