“La décima” não veio: o que mais nos faltou?

Walter Falceta

Walter Falceta Jr. é paulistano, jornalista, neto de Michelle Antonio Falcetta, pintor e músico do Bom Retiro que aderiu ao Time do Povo em 1910. É membro do Núcleo de Estudos do Corinthians (NECO).

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“La décima” não veio: o que mais nos faltou?

A educação como fator fundamental na formação dos jovens craques do Timão

Foi uma campanha gloriosa, marcada por demonstrações de talento, determinação e capacidade. Assim, acordamos cedo na segunda-feira, aniversário da cidade, para vê-la coroada com “la décima” conquista da Copa São Paulo.

Atuando em nossa velha casa, diante da espetacular Fiel, abrimos logo 2 a 0 no placar. Escrevíamos bem o roteiro do triunfo. De repente, a narrativa se alterou e o Flamengo se tornou protagonista.

Desde já, cabe elogiar o trabalho dos nossos meninos. Não é hora de se crucificar ninguém. No entanto, é hora de aprender com a derrota. Pois é a educação que faz e mantém os nobres vencedores.

Clubes gigantes se sustentam em suas tradições, sobre o conhecimento que é transferido de geração a geração de jogadores.

O nosso Timão é raçudo, empenhado, corajoso porque essa característica nos foi passada na longa linha do tempo, desde os presidentes Battaglia e Magnani, desde os bravos atletas Neco e Ciasca.

Ora, mas nesta segunda-feira quente, de céu bem azul, quem fez falta? Quem poderia ter ensinado a valorosa molecada do Timãozinho?

Matheus Pereira, um dos craques do time, anotou um gol belíssimo, comemorou como Sócrates, mas desperdiçou um pênalti decisivo. Tentou a malfadada cavadinha e foi punido pelos deuses do futebol.

Fica a dúvida. Por que fez esta escolha, se Pato já tinha descido ao inferno depois de lance semelhante, contra o Grêmio, em 2013?

Há quem arrisque: “ele tremeu”. Outro afirma: "foi arrogância do moleque". Um terceiro critica: "como só 5% de seus direitos são do Corinthians, quis se mostrar para o empresário e para o mercado, tentando uma jogada de efeito".

Enfim, debate à parte, talvez tenha faltado ali o conhecimento acerca de Pedro Grané, o Canhão 420, nosso fantástico defensor de 1925 a 1932.

Para Grané, cobrar uma falta ou pênalti era missão que exigia seriedade e responsabilidade. Por isso, jamais pensava em jogada de efeito, firula ou diversão. Com o chute potente e calibrado, enviava o petardo em direção à meta adversária.

Certa vez, como Matheus, teve que enfrentar um ótimo goleiro carioca. O fato ocorreu em um jogo entre seleções estaduais. Antes da cobrança de um pênalti, Jaguaré mirava-o de forma desafiadora, tentando hipnotizá-lo.

Grané não teve dúvidas: desferiu um tiro potentíssimo contra o arco. O destemido Jaguaré, que depois jogaria no Timão, agarrou a bola. Pela ousadia, no entanto, fraturou os dois pulsos.

Em razão da conduta séria, não houve crítica a Grané, que pelo Corinthians balançou as redes adversárias por 51 vezes, e se tornou o maior zagueiro artilheiro de nossa história.

Na final da Copa São Paulo, vimos impacientes o virtuoso atacante Leo Jabá segurar, segurar e segurar a bola, mesmo ouvindo os clamores dos colegas pelo passe.

Ao perder a bola, propiciou o rápido contra-ataque do Flamengo, que resultou no segundo gol dos visitantes. Mas quem poderia ensinar alguma coisa ao jovem sósia do Guerrero?

Mário foi o maior driblador de todos os tempos no futebol brasileiro. Pelo menos é o que asseguram alguns veteranos torcedores nossos que o viram jogar.

Driblou mais e melhor do que Canhoteiro e Garrincha.

O malabarista Mário, que defendeu nossas cores entre 1951 e 1953, ensinaria a Leo Jabá que o drible se conclui no acerto de um problema matemático em que o espaço e o tempo compõem os valores conhecidos. A incógnita revelada é o movimento do corpo que garante a posse da bola e sua condução.

É, portanto, também Física. Dois corpos não ocupam o mesmo lugar ao mesmo tempo. Driblar é levar a pelota ao lugar onde o adversário não a alcança. Mário era um físico, sem jamais ter entrado em um laboratório.

Ainda que não fosse ligado em esquemas de jogo, ainda que muitos o considerassem individualista, não negava o passe. Na verdade, o ponta-esquerda tinha pouco apetite pelo gol. Preferia servir um companheiro.

Por fim, sabia a hora de se livrar da bola, justamente para auxiliar o esforço ofensivo e impedir um contra-ataque do adversário.

Na segunda de Pacaembu, vimos a dupla destacada para a zaga, Vinícius e Dawhan, atarantada depois da cobrança de dois escanteios, ambos convertidos em gol pelos adversários (um dos lances foi impugnado, erradamente, pelo bandeira).

Quem poderia ensiná-los? Provavelmente, o paraguaio Carlos Gamarra, para muitos o melhor zagueiro que já envergou nosso manto sagrado.

Gamarra não se destacava pela altura ou pela força física. Sua principal virtude era a antecipação. Por isso, raramente cometia uma falta.

O defensor era outro mestre em cálculos. Analisava o movimento do oponente e da bola. Assim, como um jogador de xadrez, previa as ocorrências futuras.

O bom zagueiro não agarra, não xinga, não tromba. O bom zagueiro prevê, antecipa-se, ocupa o espaço. E isso, segundo o próprio Gamarra, é mais fácil de se fazer em cobranças de falta e escanteio, quando se reduz o número de variáveis na ação adversária.

Vissem os garotos as jogadas primorosas do paraguaio, talvez tivessem evitado o erro de marcação. Em vez de observarem a bola, teriam ocupado o espaço futuro, aquele da conclusão da jogada.

Por fim, vimos o goleiro Filipe, que executou boas intervenções durante a competição, como aquela contra o Cruzeiro, depois do equívoco do zagueiro Leo Santos.

Além de encrencar com o arqueiro adversário, atitude que não se viu, por exemplo, na carreira dos grandes Gilmar e Cabeção, resolveu comemorar sua ótima defesa com um gesto típico da torcida são-paulina.

Mereceu, pois, a advertência dura da Fiel. Seu erro atesta que os atletas da base precisam ser adequadamente educados para o corinthianismo. Não basta saber jogar bola. É preciso conhecer a instituição.

Hoje, os empresários e cartolas brasileiros converteram os meninos boleiros em meros produtos de uma vitrine de negócios. Por isso, desprezam a educação para a cultura futebolística.

Quem poderia ensinar o jovem Filipe? Certamente o nosso querido Ronaldo Giovanelli, que estreou bem mocinho no esquadrão mosqueteiro.

Destemido, técnico, empenhado, impressionou a Fiel desde o início. Já em sua estreia, em 1988, defendeu um pênalti cobrado pelo ídolo são-paulino Darío Pereyra.

Ronaldo, além de tudo, conhecia os costumes e as tradições da nação corinthiana, aquela que faz a fama e paga os salários de todos os atletas.

Dessa forma, dentro e fora de campo, sempre foi um corinthianista, respeitando o torcedor e a nossa cultura.

Portanto, menos marra, menos soberba, menos desconhecimento. Para vestir o sagrado manto alvinegro, é preciso merecê-lo. Que os jovens talentos aprendam com os mestres.

Coluna do Walter Falceta

Por Walter Falceta

Walter Falceta Jr. é paulistano, jornalista, neto de Michelle Antonio Falcetta, pintor e músico do Bom Retiro que aderiu ao Time do Povo em 1910. É membro do Núcleo de Estudos do Corinthians (NECO).

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