A história de um menino que perdemos

Walter Falceta

Walter Falceta Jr. é paulistano, jornalista, neto de Michelle Antonio Falcetta, pintor e músico do Bom Retiro que aderiu ao Time do Povo em 1910. É membro do Núcleo de Estudos do Corinthians (NECO).

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A história de um menino que perdemos

Denys, a mãe e a irmã: paixão familiar pelo Coringão

Foto: Maria Cristina Quirino Portugal

Esta narrativa se inicia em 1979, no Ceará, mais precisamente no município de Lavras da Mangabeira, de onde Francisco Pinto Quirino parte em busca de uma vida melhor. Vem a São Paulo, trabalhar duro para dar conforto e oportunidade à família.

Na barriga da esposa, vem Maria Cristina.

Aqui, o corajoso migrante apaixona-se! Não por ninguém, mas pelo Time do Povo, o Sport Club Corinthians Paulista.

Um amor tão transbordante que agrega toda a família no apoio ao alvinegro de Parque São Jorge.

A filha cresce entusiasmada com os gols de Viola e com as defesas do extraordinário goleiro Ronaldo.

Na noite do réveillon de 2002 para 2003, ela dá à luz um menino bonito, seu terceiro filho, que batiza como Denys Henrique Quirino da Silva.

O garoto vai herdar da mãe o riso fácil, o gosto pelo trabalho e, sobretudo, o fascínio pelo Coringão.

Na época em que moravam na Vila Brasilândia, na região norte, Maria Cristina deu vazão a seus talentos artísticos.

Com guache, pintou um símbolo do Corinthians na parede de um dos quartos, que virou a arquibancada da família.

Foi lá que torceram pelo Campeão dos Campeões e comemoraram inúmeros títulos. O trio mais fanático era composto pela dona da casa, por Denys e pela pequena caçulinha, a sorridente Sabrina Lorayne.

Denys tinha como ídolo o goleiro Cassio, que o cativou em 2012. A vitória sobre o Chelsea, na final do Mundial de Clubes, foi alegremente celebrada pelo clã Quirino.

Em 2019, Denys tinha 16 anos, cursava o primeiro ano do ensino médio e trabalhava duro em uma empresa que limpava sofás, tapetes e cortinas.

Naquela época, morando no bairro do Limão, ele também se preparava para virar sócio da mãe em uma empresa de assistência técnica para aparelhos de refrigeração.

No dia 1º de Dezembro, sem alarde, foi curtir uma festa com os amigos, um baile funk em Paraisópolis, do outro lado da cidade.

Garoto pacífico, estiloso, piadista, nunca quisera nada com a violência. E não soube lidar com ela quando a Polícia Militar resolveu investir duramente contra os jovens.

Eram oito da manhã quando Maria Cristina, já desesperada com o atraso do filho, recebeu uma ligação do Hospital de Campo Limpo. Pediam o comparecimento de um familiar.

Denys foi uma das nove vítimas fatais da desastrosa ação das forças da lei. Além dele, perderam a vida Dennys Guilherme, outro corinthiano fanático, este da Vila Matilde; Gustavo; Gabriel Rogério; Mateus; Bruno Gabriel; Marcos Paulo, Luara Victoria e Eduardo.

Como? Por quê? De uma hora para outra, desabou o mundo da família Quirino.

O projeto da empresa da família foi abortado e cessou a divertida algazarra durante os jogos do Timão.

Restou o choro do Seu Ceará, de Cristina, de Sabrina e dos irmãos Danilo Amílcar e Daniel Yam.

Ainda em Dezembro de 2019, pressionado, o governador João Dória recebeu as mães dos jovens mortos. Prometeu indenizações às famílias e punição para os assassinos.

Um ano depois, nenhuma das promessas foi cumprida.

Neste 1 de Dezembro de 2020, as famílias voltarão a frente do Palácio dos Bandeirantes, sede do governo paulista. Pedirão apenas JUSTIÇA.

“Há muito tempo, só temos o silêncio das autoridades”, lamenta Maria Cristina.

O que resta? O sonho de uma primeira visita da família à Arena de Itaquera. Todos sabem. Na hora do gol, uma alma luminosa virá somar na alegria. Será o reencontro.

Este texto é de responsabilidade do autor e não reflete, necessariamente, a opinião do Meu Timão.

Coluna do Walter Falceta

Por Walter Falceta

Walter Falceta Jr. é paulistano, jornalista, neto de Michelle Antonio Falcetta, pintor e músico do Bom Retiro que aderiu ao Time do Povo em 1910. É membro do Núcleo de Estudos do Corinthians (NECO).

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