Sábado na máquina do tempo: em nome dos antepassados

Walter Falceta

Walter Falceta Jr. é paulistano, jornalista, neto de Michelle Antonio Falcetta, pintor e músico do Bom Retiro que aderiu ao Time do Povo em 1910. É membro do Núcleo de Estudos do Corinthians (NECO).

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Sábado na máquina do tempo: em nome dos antepassados

Cabeção: ídolo para três gerações

Foto: Arquivo Pessoal

Meu avô calabrês do Bom Retiro trabalhou duro, muitos anos, como pintor de paredes. Meu pai, antes de se tornar contador, maltratou os pulmões como operário em uma fábrica de lentes.

Naqueles anos 1950, ambos descansavam da vida dura acompanhando os jogos do Time do Povo, o nosso querido Corinthians. Era lá a morada da rebelião pacífica, das felicidades possíveis e dos sonhos imigrantes em construção.

Em nossa meta, foram representados muitas vezes pelo Luiz Moraes, o popular Cabeção, um igual, distinto, concentrado, morador aqui desta "leste de meio".

Vovô e papai já subiram à arquibancada de cima, mas certamente estiveram presentes, invisíveis e de mansinho, nesta visita que fizemos para homenagear nosso fantástico arqueiro.

Sei que estavam comigo, emocionados, gratos e fascinados pela proximidade do ídolo.

Cabeção fazia admiradores entre a "gente boa" porque era um trabalhador, discreto, dedicado, que visava contribuir e não aparecer.

Não era um guarda-metas de pantomimas e de arrojos malabarísticos. Não! Era um homem da visão estratégica, do posicionamento seguro e da antecipação.

Inteligente e atento, sabia sempre adiantar-se no espaço, conhecer o destino da bola e interceptá-la antes do avante adversário.

Homem de grupo, sempre dedicado ao coletivo, treinava seu rival na disputa pela titularidade, o fantástico Gylmar dos Santos Neves, tido por muitos como o maior goleiro da história do Brasil.

Era, portanto, como os trabalhadores mais simples, aqueles que entregam a vida ao ofício, à produção, ao desenvolvimento social, mas nascem e morrem anônimos.

O bom deste sábado foi, mais uma vez, reconhecer Cabeção. Por meio dessa modesta celebração promovida pela Barbearia Battaglia, ele derrota o esquecimento, o desprezo e a arrogância dos poderosos que, durante anos, o excluíram da vida do clube.

Cabeção, como bom corinthiano, desde os oito anos de idade em nossas fileiras, não se rende nunca.

Ele venceu cartolas infames, a ingratidão de parte da torcida, as injustiças do técnico Brandão, as mentiras da mídia monopolista (aquela que o carimbou de cego), a morte do único filho, o câncer que fez sofrer duas vezes a querida esposa, as ignorâncias de muitos senhores feudais do Parque São Jorge.

Cabeção esta vivo e conosco, sempre apontando o bom caminho, cidadão pleno, gentil e íntegro.

Revê-lo é sempre um prazer. Mais uma vez, foi como viajar na máquina do tempo, ao período em que raça e dedicação em campo exprimiam o amor pelo manto alvinegro.

Rever Cabeção equivale a reencontrar as raízes, revisitar os valores e princípios que nortearam a vida de meu pai e de meu avô.

É aprender e reaprender o sentido do corinthianismo.

Coluna do Walter Falceta

Por Walter Falceta

Walter Falceta Jr. é paulistano, jornalista, neto de Michelle Antonio Falcetta, pintor e músico do Bom Retiro que aderiu ao Time do Povo em 1910. É membro do Núcleo de Estudos do Corinthians (NECO).

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