O futebol: afinal, o que vale a pena?

Walter Falceta

Walter Falceta Jr. é paulistano, jornalista, neto de Michelle Antonio Falcetta, pintor e músico do Bom Retiro que aderiu ao Time do Povo em 1910. É membro do Núcleo de Estudos do Corinthians (NECO).

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O futebol: afinal, o que vale a pena?

Rivalidade: melhor quando conduz ao entendimento e à colaboração

Foto: Reprodução / Redes Sociais

Por vezes, a gente se exaspera, reclama, perde a compostura. É o pênalti não marcado, é o impedimento inexistente, é a expulsão injusta.

Há também a birra, o rancor e o ressentimento. E, muitas vezes, o clubismo se torna resultado da mesma intolerância estúpida que promove o machismo, o racismo e a homofobia.

O jogo de bola surgiu justamente para substituir a guerra pela brincadeira. Futebolizamos a humanidade para eliminar o estresse e compartilhar a alegria de viver.

Foi justamente por isso que, em 1914, no “Christmas Truce” da I Guerra Mundial, soldados franceses, alemães e britânicos deram folga a suas armas, pularam fora das trincheiras e, por um curto período, cantaram, trocaram modestos presentes e... jogaram futebol.

Isso porque a vida é curta, delicada e está sempre por um fio. E o futebol, epopeia grandiosa, seja no estádio monumental ou no asfalto da periferia, estende, potencializa e valoriza nossa jornada.

Chame-se de acaso, sina ou predestinação, mas a história de cada indivíduo depende da história de outro, assim como o sucesso de uma equipe de futebol depende da sincronia entre seus atletas.

Quantos fatos, protagonizados por diferentes pessoas, não concorreram para que, em 1949, a fantástica equipe do Torino se desfizesse no choque com a Basílica de Superga?

Assim como inúmeros micro-detalhes, tramados para glória, conduziram à tragédia que dizimou o time dos irmãos da Chapecoense.

Em 2009, bastava uma deficiência para que o time permanecesse na Série D. E o mesmo roteiro se repetiu em 2012 e 2013, na escalada até a Série A. Qualquer atraso tiraria o time catarinense da rota mortal de Medellín.

E, então, o mistério da vida novamente conspirou para o sucesso. E o incrível Danilo defendeu quatro pênaltis na disputa renhida contra o Independiente, time que em tempo pretérito alinhou tantos empenhos e coincidências para dominar a América.

Depois, veio o jogo dos jogos da Arena Condá. E o mesmo Danilo, no último minuto da peleja, impediu com o pé direito aquele que seria o gol de Blandi, do San Lorenzo, time que em tempo recente alinhou tantos empenhos e coincidências para conquistar seu primeiro título da Copa Libertadores.

Tivesse menos garra e capacidade, o arqueiro teria renunciado à glória em favor da manutenção da própria vida. Mas como saber?!

Talvez por isso sejamos tão apaixonados pelo futebol. Assim somos porque ele reproduz perfeitamente o intrincado e quase incompreensível jogo do destino.

É, na partida, o passe torto, errado, que resvala no adversário e gera o gol salvador. É, na vida, o passaporte esquecido que salva o cidadão do voo fatal.

No futebol como na vida, não há receita fechada para o sucesso ou para a segurança. Fazemos o possível, tomamos cuidado, zelamos por nós e pelos entes queridos, mas nunca somos capazes de descartar o imponderável.

Há uma lição para isso tudo? Possivelmente. A vida é feita de detalhes, muitos deles invisíveis e imperceptíveis. Convém, portanto, valorizá-la, agir com honestidade, investir na solidariedade, aproveitar cada momento do milagre de existir.

Que o bom exemplo de fraternidade da turma de Caio, Kempes e Bruno ilumine o nosso futebol, restabeleça a empatia entre os brasileiros e nos faça menos reclamões, lamurientos e hostis. É o que vale a pena. Obrigado, Chape: eternamente em nossos corações!

Veja mais em: Acidente aéreo da Chapecoense.

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Por Walter Falceta

Walter Falceta Jr. é paulistano, jornalista, neto de Michelle Antonio Falcetta, pintor e músico do Bom Retiro que aderiu ao Time do Povo em 1910. É membro do Núcleo de Estudos do Corinthians (NECO).

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