Esta noite, 40 anos!

Walter Falceta

Walter Falceta Jr. é paulistano, jornalista, neto de Michelle Antonio Falcetta, pintor e músico do Bom Retiro que aderiu ao Time do Povo em 1910. É membro do Núcleo de Estudos do Corinthians (NECO).

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Esta noite, 40 anos!

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Esta noite, 40 anos!

O povo: no gramado do Morumbi, nas ruas, liberando o grito sufocado

Foto: Reprodução TV Corinthians

Eu nasci no jejum. Cresci em um ambiente que misturava alegria e ansiedade. Em 1967, eu ainda não entendia o futebol, mas senti que dali poderia vir uma festa familiar.

Não deu. O Timão não conquistou o título do Roberto Gomes Pedrosa. Em 1969, mais uma esperança no Robertão. Meu pai arrancava os fios do bigode diante do rádio de madeira que mantínhamos sobre o refrigerador Gelomatic. Não deu mais uma vez.

Em 1972, outro revés sentido na família. Jogo contra o Botafogo, no Maracanã, pela semifinal do Campeonato Nacional. Tento deles, de Nei Conceição, aos 38 da etapa complementar. Derrota por 2 a 1.

Em 1974, não havia como perder o Campeonato Paulista. Como? Com Rivellino? Com Zé Maria? Com Vaguinho? De jeito nenhum!

Mas houve a falta de Luís Pereira sobre o Reizinho do Parque, não assinalada pelo árbitro, e, na sequência do lance, o gol de Ronaldo, na meta guardada por Buttice. A minoria alviverde vibrou.

Era período de férias, felizmente. No ano seguinte, no entanto, resignei-me ao martírio nos recreios da escola. A chacota era promovida pelos palestrinos, mas também pelos santistas, que ainda viviam orgulhosos da Era Pelé.

Em 1976, acendeu-se a esperança mais uma vez. A Fiel invadiu as praias cariocas, e também o Maracanã. Um espetáculo maravilhoso que terminou com o triunfo na decisão por pênaltis, diante do badalado Fluminense. Na final, entretanto, uma derrota amarga para o Internacional, em partida única, disputada em Porto Alegre.

1977 descreveu uma curva acentuada na trajetória do tempo. Tudo mudava no mundo. Cabe, então, uma viagem no túnel do tempo desde a última conquista relevante do Corinthians, aquela do IV Centenário, em 1954, cuja última partida ocorrera em fevereiro do ano seguinte.

Naquela época, o Brasil não tinha nenhum título de seleções. Em 1977, já havia conquistado três vezes, em 1958, 1962 e 1970.

Os russos já tinham colocado um engenho no espaço, o Sputnik, em 1957. E os Estados Unidos já tinham até pousado na Lua, em 1969.

Nesse período, John Kennedy, Che Guevara, Martin Luther King, Bob Kennedy, Juscelino Kubitschek, João Goulart, Jimmy Hendrix e Janis Joplin já haviam feito história e morrido. A Guerra do Vietnã já tinha acabado e várias nações africanas já tinha conquistado, na bala e na diplomacia, a independência.

Em 1977, no entanto, tudo parecia favorável à mudança. Em janeiro, o progressista Jimmy Carter se tornou o trigésimo nono presidente norte-americano. Cogitávamos: quem sabe, agora, o Brasil não retoma a senda da democracia?

Em abril, entretanto, o governo Geisel editou um pacote de medidas que indicava um retrocesso no sonhado processo de abertura política. Surgiu o "senador biônico", em referência ao Cyborg do seriado televisivo. Outras medidas visavam a garantir aos militares o controle do parlamento federal.

O cinema experimentou uma revolução, com o lançamento do primeiro filme da saga Guerra nas Estrelas. A Espanha respirou com eleições democráticas, livre finalmente do franquismo. Rachel de Queiroz converteu-se na primeira mulher na Academia Brasileira de Letras.

Outubro foi um mês de acontecimentos brutos e radicais. O general linha dura Silvio Frota tentou um golpe contra o presidente Geisel. Tomou um tranco e fracassou, justamente em 12 de Outubro, um dia antes da terceira partida da decisão entre Corinthians e Ponte Preta.

Pensávamos: se tudo está mudando, por que não podemos quebrar este jejum no futebol? Eu assistira à primeira partida, no Morumbi, e vi o gol de "cara" de Palhinha, na vitória de 1 a 0. Fui de novo ao estádio no domingo, certo do título, no dia em que mais paulistas assistiram, no estádio, a um jogo de futebol.

Imaginei a festa, o alívio, depois do gol de Vaguinho, aquele craque cujo número 7 eu pintava em minhas camisetas brancas da Hering. E não acreditei nos dois gols que determinaram a virada campineira.

Ao fim da partida, havia um silêncio sufocante nas arquibancadas. Quebrou-se depois pelo crepitar de jornais, bandeiras e bonés queimados pelos torcedores. O sofrimento me suprimiu a voz e inundou os olhos de lágrimas.

Meu pai, então, me abraçou e disse: "que nada, vamos ganhar essa, filho, e o Corinthians ainda vai ser campeão do mundo".

No dia 13, meu pai precisou trabalhar em horário normal e assistimos ao jogo aqui de casa, nesta sala em que ainda se exibem as grandes façanhas do Coringão.

A Ponte de Carlos, Oscar, Dicá, Lúcio e Marco Aurélio era osso duro de roer. Meu pai devastou seu bigode. Minha mãe consumiu-se em fervorosas orações. Minha irmã, mais comedida, pedia calma aos Falceta. E vibramos juntos com o gol de Basílio, aos 37 minutos do segundo tempo.

Meu pai atendeu à sugestão de Osmar Santos, que sentenciou: "Hoje a cidade é do povo! Tem que ter festa alvinegra! Tem que cobrir as ruas da cidade com paixão e loucura!".

Na época, as ruas não eram do povo, e as manifestações populares eram frequentemente reprimidas. Exatamente 21 dias antes, por exemplo, a PUC-SP tinha sido invadida pelas tropas do Coronel Erasmo Dias. Estudantes tinham sido gravemente feridos por bombas incendiárias. Centenas de integrantes da comunidade universitária tinham sido presos.

Naquele 13 de Outubro, não! Havia liberdade para ocupar as ruas, praças e avenidas. Quem ousaria opor-se a massa tão apaixonada? Quem calaria o grito sufocado de um povo, sufocado por 22 anos, 8 meses e 7 dias?

Saímos sem destino pelas vias da cidade, em caminhada de confraternização com outros tantos milhares. Fomos indo, indo, indo, longe, sem destino, até não saber mais por onde.

Já era madrugada quando meu pai "acordou" e resolveu tomar o caminho de retorno. Meu sobrinho já dormia em seu peito, cabeça sobre seu ombro largo.

Quando chegamos em casa, ainda se ouviam fogos espoucando, aqui e ali, na cidade profunda, na imensidão daquele júbilo que jamais terminaria.

Meu querido pai se foi em 1983, minha mãe em 2004, e muita água passou debaixo da ponte da vida. O Brasil mudou, o mundo também. Porém, ainda sinto na boca o gosto doce daquela conquista, como se fosse hoje.

Obrigado, Corinthians. Esta noite, 40 anos. Mas parece um piscar de olhos.

Coluna do Walter Falceta

Por Walter Falceta

Walter Falceta Jr. é paulistano, jornalista, neto de Michelle Antonio Falcetta, pintor e músico do Bom Retiro que aderiu ao Time do Povo em 1910. É membro do Núcleo de Estudos do Corinthians (NECO).

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