MP denuncia vice-presidente do Corinthians por quatro crimes em caso de materiais da Nike
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Por Felipe Sales e Daniel Keppler
Armando Mendonça foi denunciado pelo Ministério Público de São Paulo (MP-SP)
Matheus Poggiolli / Meu Timão
Nesta quarta-feira, o Ministério Público de São Paulo (MP-SP) apresentou denúncia contra Armando Mendonça, segundo vice-presidente do Corinthians, pelos crimes de apropriação indébita qualificada e continuada, tentativa de apropriação indébita qualificada, furto qualificado mediante abuso de confiança e coação no curso do processo, no desdobramento da investigação que apura o suposto desvio de materiais esportivos da Nike.
A informação foi divulgada inicialmente pela ESPN e confirmada pelo Meu Timão. Na denúncia de 40 páginas à qual a reportagem teve acesso, o promotor Cássio Roberto Conserino sustenta a acusação com base no inquérito policial, na auditoria interna realizada pelo Corinthians e em diligências complementares conduzidas pelo Ministério Público.
Segundo o documento, Armando Mendonça teria se apropriado de 131 itens de materiais esportivos da Nike entre junho e outubro de 2025. Os produtos incluem 100 camisas, nove blusas, nove calças, seis pares de tênis, quatro shorts, duas malas e uma mochila. O MP também aponta que o dirigente tentou retirar outras 19 camisas especiais da NFL que permaneceram no almoxarifado após o empate por 1 a 1 entre Corinthians e Palmeiras, em duelo disputado em 31 de agosto de 2025.
Além disso, ele teria subtraído oito dessas camisas comemorativas do duelo entre Los Angeles Chargers e Kansas City Chiefs, disputado na Neo Química Arena em setembro, sem a devida formalização da solicitação no sistema interno do clube. De acordo com a denúncia, o dirigente se aproveitou do acesso aos almoxarifados do Parque São Jorge e do CT Dr. Joaquim Grava em razão do cargo que ocupa.
Em relação ao crime de apropriação indébita qualificada e continuada, a acusação afirma que Armando, na condição de vice-presidente do Corinthians, apropriou-se dos 131 itens pertencentes ao clube citados acima. Já a imputação de tentativa de apropriação indébita qualificada refere-se às 19 camisas da NFL que, segundo a denúncia, ele tentou retirar do almoxarifado do CT, sem conseguir consumar a ação por circunstâncias alheias à sua vontade. O Ministério Público sustenta que a solicitação foi cancelada após o início das apurações internas conduzidas pelo clube.
O órgão também atribui ao dirigente o crime de furto qualificado mediante abuso de confiança. De acordo com a acusação, após 25 de setembro de 2025, Armando teria se valido da posição que ocupa no clube para subtrair outras oito camisas da NFL sem autorização.
A denúncia ainda aponta a prática de coação no curso do processo. Segundo o MP, durante as investigações sobre o desaparecimento dos materiais esportivos, Armando teria adotado uma série de condutas destinadas a intimidar funcionários e colaboradores envolvidos na auditoria interna que identificou as supostas irregularidades.
Conforme descrito no documento, após tomar conhecimento da apuração conduzida por Marcelo Munhoes, diretor de tecnologia do clube, e Reginaldo Prados do Nascimento, Armando Mendonça teria telefonado para Marcelo em tom agressivo, questionando o trabalho realizado, afirmando que ninguém o retiraria do cargo de vice-presidente e sugerindo que a continuidade das investigações poderia trazer consequências para outros funcionários do clube.
Na mesma conversa, segundo a acusação, o dirigente teria afirmado que Marcelo estava “comprando briga” com seu grupo político, além de ter explicado que parte dos produtos retirados seriam destinados a autoridades como “troca de favores”. A ligação de 39 minutos foi gravada e indicou “possíveis intimidações, constrangimentos, soberbas e denotação da cultura existente no Parque São Jorge” , de acordo com a denúncia.
“Você quer que a gente fale que a gente atendeu juiz, desembargador, para nos ajudar? Vamos lá. O desembargador vai e pede lá: preciso de quatro camisetas, preciso de, sei lá, um tênis. Você vai falar o quê? Não vou dar para você, meu amigo.
Você vai expor o presidente porque se eu pego, é, quatro, é, moletons, entendeu? Você não tem que saber porque que eu peguei quatro moletons, se eu peguei é porque eu peguei. Se o presidente pegou, é, seis moletons e o, a segurança dele pegou quatro moletons, você não tem que discutir. É o presidente e o vice-presidente. É, então, não venha querer fazer narrativa. O dia que você for presidente ou vice-presidente, aí você pode fazer o que você quiser. Eu sei que você está comprando a briga comigo, mas está comprando briga com nossos amigos... e eu não sei por quê. Você acha que eu estou pegando material? Então, tipo assim, você toma cuidado porque você não sabe o que está sendo feito e é tudo documentado. Você não está documentado em todas as coisas. Então você não sabe as trocas de e-mail...
Então toma cuidado porque, se você acha que você vai me atingir, você não vai me atingir, você vai atingir o presidente. Eu estou falando para você que você está afim de me atingir porque já chegou para mim. Mas eu não sei por quê. Eu não sei se você está trabalhando para outras pessoas, para aqueles que querem me fod***, que eu sei que querem me fo*** no Corinthians.
Você tá colocando em jogo... Você não tá colocando em jogo o meu emprego, porque não é meu emprego, eu sou eleito (segundo vice-presidente), eu fui eleito. Ali ninguém me tira, campeão. Eu fui eleito. Então, assim, eu quero dizer para você o seguinte: para quê? O que você está colocando em jogo é o seguinte: o emprego de colaboradores...Não, você acha que tem coisa errada? Eu não acho. Você está criando uma narrativa mostrando que tem coisa errada", diz um trecho da conversa.
O Ministério Público também sustenta que ele utilizou sua posição dentro do Corinthians para pressionar os responsáveis pela auditoria. Entre os episódios citados está uma reunião com representantes da Nike, na qual ele teria adotado uma postura considerada hostil em relação a Marcelo. Para Cássio Conserino, as atitudes tinham como objetivo desacreditar o trabalho dos auditores e desencorajar o avanço das apurações.
A acusação destaca ainda o envio de notificações extrajudiciais a Marcelo e Reginaldo. Nos documentos, Armando exigia retratação e retificação das conclusões da auditoria, mencionando a possibilidade de medidas judiciais, administrativas e criminais. Na avaliação do MP, a iniciativa extrapolou o exercício regular de um direito e teve a finalidade de intimidar testemunhas que já colaboravam com a investigação.
Ao oferecer a denúncia, o promotor também afastou a possibilidade de acordo de não persecução penal, instrumento que permite ao investigado evitar a abertura de uma ação criminal mediante o cumprimento de determinadas condições. Segundo Conserino, a gravidade dos fatos apurados e a posição de influência exercida por Armando dentro do clube impedem a adoção da medida.
O Ministério Público ainda requereu a realização de uma perícia técnica no sistema interno utilizado pelo Corinthians para controle dos materiais esportivos. De acordo com o promotor, a medida busca verificar a consistência das informações que embasaram a auditoria interna e identificar a eventual existência de outras irregularidades relacionadas ao mesmo contexto investigado.
Além disso, Conserino solicitou o envio de cópia da denúncia, do inquérito policial e das diligências complementares à Receita Federal para análise de possíveis repercussões tributárias e fiscais decorrentes dos fatos apurados.
Medidas cautelares e indenização
Ao oferecer a denúncia, o promotor também solicitou a adoção de medidas cautelares contra o dirigente. Entre os pedidos estão a suspensão temporária de Armando dos quadros associativos do Corinthians, a proibição de frequentar as dependências do clube, a proibição de contato com dirigentes e testemunhas ligadas ao caso, além de comparecimento periódico à Justiça, restrições para deixar a comarca e recolhimento domiciliar no período noturno.
A relação de testemunhas indicada pelo Ministério Público inclui Marcelo Munhoes, um dos responsáveis pela auditoria interna; Reginaldo Prados do Nascimento, coautor do relatório; Romeu Tuma Júnior, presidente licenciado do Conselho Deliberativo (CD); Fábio Soares Souza, ex-diretor administrativo do Corinthians; e o conselheiro Corinto Baldoíno Parreira e Costa.
As restrições solicitadas pelo MP também abrangem Francisco V. Godoy Silva e Leandro Jorge Ribeiro, almoxarifes ouvidos durante as investigações, além de Rodrigo Fernandes Garrote, representante da Nike, e Rafael Josimo da Silva Salomão, ex-gerente administrativo do Corinthians, ambos também ouvidos no curso das apurações. Rodrigo e Rafael acabaram desligados de seus respectivos cargos na Nike e no Corinthians no decorrer do caso.
Na denúncia, o Ministério Público ainda pede que a Justiça fixe indenização por danos materiais correspondente ao valor de mercado dos itens supostamente apropriados, a ser apurado durante a instrução processual. O promotor também requer o pagamento de R$ 100 mil por danos morais ao Corinthians, sob o argumento de que os fatos teriam causado prejuízos à imagem, à reputação e à credibilidade do clube perante fornecedores e a opinião pública.
A reportagem procurou a assessoria de Armando Mendonça para comentar a denúncia e atualizará esta matéria em caso de manifestação.
