Memphis Depay chegou ao Corinthians prometendo dribles, gols e personalidade; um midiático, ou melhor, O MIDIÁTICO. Ele realmente entregou tudo isso, mas foi além, às vezes até com certa arrogância, revelada em sua insistência em explicar o futebol aos brasileiros, especialmente ao corintiano, que já vive intensamente o esporte muito antes do holandês aterrissar por aqui.
No Dérbi de abril, assim que o árbitro apitou o início da partida, Memphis chutou a bola diretamente para a lateral do campo adversário, com a intenção declarada de fazer uma pressão alta logo em seguida. A jogada não havia sido combinada com a comissão técnica, e como o rival manteve a posse de bola, o lance tornou-se bisonho. A justificativa veio em tom professoral:
'Todo mundo sabe disso, eu espero. Se não souberem, então não sei se eles entendem de questões táticas aqui no Brasil. Talvez simplesmente não façam. Mas se você olhar a linha do Palmeiras quando tivemos a saída de bola, eles estavam bem avançados. Se você olhar a nossa saída de bola hoje à noite, qual é a diferença? Tocamos para trás com o Donelli e jogamos bolas longas, igual. Quando eu fiz isso, pensei: vamos colocar a bola perto do escanteio. Obviamente, essa é a ideia: pressionar alto no campo e recuperar a bola a 20 metros do gol deles.'
A jogada virou uma verdadeira aula de 'pressão alta'—conceito que, supostamente, ninguém aqui conhecia até Memphis chegar, ou que simplesmente não colocávamos em prática. Aparentemente, estamos muito atrasados aqui no Brasil, presos a ideias primitivas como 'transição de bola' ou 'construção de jogada'. Talvez seja mais moderno, europeu e tático ganhar 'jardas' à força.
Dias depois, na zona mista, após a vitória sobre o Sport, ele ironizou, com um tom de quem sabe o que faz e ensina aos que não sabem—nós brasileiros e especialmente os corintianos sofredores:
“Acho engraçado… a mídia riu de mim porque eu chutei a bola para a linha lateral. Repetimos no segundo tempo para pressionar e fizemos o gol em dez segundos.”
Obviamente, não se trata apenas de uma crítica à maneira como a mídia interpreta o futebol. O atleta tende a ter a língua mais afiada quando não vai bem em campo. Na derrota para o Fluminense, Memphis disse:
'Cheguei aqui há seis meses. Você acha que o time está progredindo? Ou estamos apenas olhando para os resultados? Quero saber isso do Brasil. Estamos apenas olhando para o Corinthians se ganhamos o jogo, são três pontos e então passamos para o próximo jogo ou você vê progresso? Porque eu tenho minhas dúvidas.'
Questionou o camisa 10—número que já era seu antes mesmo de desembarcar no Brasil, talvez os europeus sejam bons em tomar coisas que pertenciam aos que já estavam aqui —colocando na mira da torcida não apenas a imprensa, com sua forma imediatista de análise, mas também a comissão técnica representada pelos treinadores Ramón e Emiliano Díaz, demitidos pouco depois.
Não foi preciso nomear culpados; bastou insinuar a falta de 'progresso' para que a guilhotina caísse. Curiosamente, a palavra 'progresso' já foi muito utilizada como vetor ideológico do eurocentrismo, resumindo-se assim: tudo o que é progressivo é europeu, e tudo o que é retrógrado não é, progresso e europeu basicamente eram uma coisa só. Talvez, para progredir, o Corinthians deva mirar em clubes como a Inter de Milão, o Barça, o Chelsea (aquele Chelsea), como se fosse impossível progredir sendo o Corinthians...seria lindo ver o tik taka por aqui, mas eu me contento com um time raçudo que vença todos os jogos por 1x0, que seja campeão do mundo por 1x0.
O último episódio dessa possível missão colonizadora ocorreu no jogo contra o Mirassol. Pênalti para o Timão, placar zerado, torcida visitante em festa. Memphis partiu para a bola e tentou uma Panenka displicente—para usar o termo europeu. O goleiro Walter, que soma 80 jogos pelo Corinthians contra 40 de Memphis, defendeu, e no rebote o atacante tentou uma cabeçada desequilibrado que saiu para fora. O lance gerou confusão, e o jogo terminou 2×1 para o time do interior. Desta vez, não houve nenhuma declaração do jogador na zona mista, nenhuma aula sobre como se executa a Panenka na Europa e como deveríamos fazê-la aqui no Brasil.
Curiosamente, a única ocasião em que Depay elogiou o “Joga Bonito” brasileiro foi ao criticar a CBF, que decidiu punir o ato de “subir na bola” após ele mesmo ter realizado esse gesto na final do Campeonato Paulista. O atacante lamentou a nova regra e disse ter vindo ao Brasil para 'experimentar o Jogo Bonito' antes de sugerir que a entidade deveria se preocupar com problemas mais sérios. Existe aqui uma analogia com a visão europeia—embora não exclusiva—de que o Brasil é um lugar de belezas naturais, purismo e inocência. Talvez sejamos o 'bom selvagem' do futebol, aqui não cabem competitividade, profissionalismo, raça e consciência tática, e dado isso, por que não arriscar uma Panenkazinha?
Eu não quero afirmar categoricamente que Memphis seja um eurocentrista que veio ensinar futebol aos brasileiros e aos corintianos, nem que não exista nada que possamos 'aprender' do futebol europeu, mas ele precisa 'descer da bola' e compreender que o Corinthians e o futebol sulamericano são maiores do que ele. Se ele quer e divertir em campo com os 'bons selvagens' talvez o Corinthians não seja o lugar pra ele...
O futebol sulamericano é competitivo, assim como o Brasileirão. Cada jogo possui adversidades próprias, desde a arbitragem até as longas distâncias percorridas e os gramados ruins, existe um espirito de luta inegociável nos jogos sulamericanos que, sem ele, é derrota certa, mostramos isso para o Chelsea no mundial.
O futebol sulamericano, em especial, o brasileiro, continuará sendo o que é com Memphis por aqui e seguirá sendo o que é quando ele já tiver partido. E continuará evoluindo ao seu próprio modo—ao nosso modo—e não da maneira como evoluiu o futebol europeu, pelo simples fato de não sermos europeus, e toda nossa grandeza, do passado, presente e futuro, consistem nisso, somos o que somos.
Talvez, quando o Memphis estiver disposto a aprender em campo, entender a grandeza dos jogos daqui e do Corinthians — que não é só 'joga bonito' — ele possa ajudar mais o clube com seu estilo. Talento ele tem, e tem de onde tirar.