Para além do protestos / Aos guardiões morais do Futebol
Não é necessário dizer sobre a história de luta da Gaviões da Fiel por democracia, e até, o direito de torcer. Também não é de agora que essa luta é criminalizada. Talvez porque o intento punitivista de alguns discursos, se confunde com a também criminalização da periferia. Digo especificamente do que ouvi hoje, no Redação Sportv, pelo Marcelo Barreto e pelo Carlos Eduardo Mansur.
Nos seus apelos efusivos de que é 'necessário acabar com isso', de que o seu desejo era de que era melhor 'sumir' com esses 'não-torcedores' (termo atenuado para não dizer 'bandido'), há não só uma generalização dos integrantes da organizada, como outra confusão. Por não saber, ou supor saber, estes jornalistas entendem que os comportamentos violentos das organizadas é a dissimulação da paixão por um clube, em detrimento da racionalidade. Que há outras formas de protestar que não aquela. Que não seria 'adequado' a escola da Gaviões tematizar o racismo e a desigualdade no ano que vem, dada sua natureza violenta. Mas como disse, talvez seja porque haja uma confusão deles, ou porque repetem o que sempre repetem.
E repetem, em outros lugares, que a superpopulação carcerária (majoritariamente negra e pobre) precisam do pior tratamento, quando não a morte. Mas talvez seja eu que esteja confuso, porque eles não disseram exatamente isso. Mas isso eu ouvi. Porque em algum momento eu pensei: em que lugar um moleque da periferia, que frequenta a torcida, tem tamanha voz e repercussão para se defender? Aliás, é mais fácil ele ser preso do que ouvido. As vezes é preso e nunca ouvido. Ou é morto pela polícia. Com um tiro nas costas. Na esquina de uma quebrada.
Este texto não é sobre o que aconteceu no aeroporto. Como também não foram as falas de Marcelo Barreto e Carlos Eduardo Mansur. Mas como disse antes. As coisas são confusas. Elas se confundem. Eu me confundo. Porque quem levantou as faixas de anistia 'ampla geral e irrestrita', quem contestou a retirada da camisa com a pergunta 'quem matou Marielle', quem desceu da quebrada para o centro gritar contra o fascismo, quem movimenta a comunidade e auxilia é a Gaviões, desde antes desses jornalistas deixarem de brincar nas suas casas médias.
Eu até entendo o temor da violência. Mas entendo também quando é uma reação à ela. A Gaviões (e outras organizadas) nasceram pela reação à violência, e não o contrário. Assim como são os movimentos sociais que emergem de baixo. Discutir a legitimidade de movimentos sociais e torcidas organizadas é repetir, como antes na ditadura, a perseguição. Para a periferia, democracia quase nunca existiu, mas a violência é constante.
Os jornalistas querem os torcedores presos, e lamentam que a justiça não tenha os devidos parâmetros legais para isso. Mas não sabem que os parâmetros existem. E os pobres e negros são presos por serem pobres e negros. Então cobram do futebol, pois eles torcem para que a torcida seja branca, que fique sentada e que só aplauda. A festa já é proibida, sem bandeira, uniformes ou bateria. Cobram caro o ingresso e colocam mármore no banheiro. Vendem e compram jogadores por milhões, com empresários atravessadores, sonegam impostos e fazem acordos com ditaduras do Oriente Médio. Mas talvez seja eu que esteja me confundindo e o que seja importante é dizer o nome da Neo Química Arena. Neo Química Arena. Neo Química Arena. Será que isso já valeu para pagar o mármore?
Talvez para Marcelo Barreto e Carlos Eduardo Mansur seja melhor cobrir a Premier League. Porque senão, eles se confundem. E eu, também.
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