'Irmão gêmeo' do Corinthians renasce na várzea com time misto e resgate da origem operária

'Irmão gêmeo' do Corinthians renasce na várzea com time misto e resgate da origem operária

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Fundado no mesmo dia do Corinthians, União Lapa tomou rumo bem diferente

Fundado no mesmo dia do Corinthians, União Lapa tomou rumo bem diferente

Foto: Danilo Augusto / Meu Timão

Imagine se o Corinthians, fundado 108 anos atrás, tivesse tomado outro rumo no passar do século 20, se afastando do profissionalismo e consequentemente do que hoje muitos rotulam como futebol moderno. Foi isso que aconteceu com o União Lapa, clube fundado no mesmo dia 1º de setembro de 1910 e primeiro adversário da história do Timão - o jogo de estreia das duas agremiações, vencido pelos lapeanos por 1 a 0, fez aniversário nessa última segunda.

Em respeito à própria história do Corinthians, do futebol paulista e brasileiro e, claro, do União Lapa, o Meu Timão conta abaixo um pouco da trajetória daquele que é uma espécie de irmão gêmeo bivitelino do clube alvinegro - nasceu no mesmo dia, mas foi se diferenciando cada vez mais com o passar dos anos e, principalmente, das décadas de desativação. Refundada há dois anos como time misto de homens e mulheres, a agremiação lapeana vai ocupando espaços na várzea da Zona Oeste paulistana, seja jogando ou por meio de ações sociais.

União Lapa jogou três vezes contra o Corinthians: venceu uma (1910) e perdeu duas (

União Lapa enfrentou Corinthians três vezes: venceu uma e perdeu duas

Arquivo

União Lapa e Corinthians: desativação e profissionalização

Apesar de fundados no mesmo dia e primeiro adversário um do outro, União Lapa e Corinthians foram tomando caminhos distantes. De acordo com os responsáveis pela refundação do clube (também são pesquisadores da história da agremiação lapeana), diversos fatores contribuíram para, em meados de 1942 , o futebol ser desativado nas alamedas da Rua 12 de Outubro - principal ponto de referência do bairro até os dias atuais. A data, cabe ressaltar, não é consenso pois há divergência entre familiares de ex-jogadores .

Em termos práticos, talvez o principal problema tenha girado em torno das consequências da Revolta Paulista de 1932. A indústria Martins Ferreira era grande parceira do União Lapa em termos econômicos, mas no início dos anos 30 foi obrigada pelo governo a produzir utensílios para soldados, ao invés da produção normal de parafusos, arames e ferraduras.

A fragmentação do futebol lapeano em diversos clubes no início do século passado também é apontada como fator de enfraquecimento do União em relação a clubes como o Corinthians, dominante e absoluto no bairro do Bom Retiro em suas primeiras décadas de vida.

"O União tentou o caminho que o Corinthians seguiu, mas as disputas internas e o próprio funil que a profissionalização representou, além dessa realidade futebolística específica do bairro, fez com que não fosse pra frente", disse Danilo Cajazeira, jogador e um dos refundadores do União Lapa - e coincidentemente torcedor do Timão.

Jornal União Lapa Corinthians

Arquivo

No fim das contas, enquanto o Corinthians adentrou a era profissional do futebol na década de 30, o União Lapa já vivia naquela ocasião seus derradeiros anos, encontrando bastante dificuldade para se estabilizar e subir de divisão no Campeonato Paulista disputado à época.

"Encontramos um editorial que questionava porque o bairro não podia ter um só time forte, 'como o Bom Retiro tem o Corinthians', por exemplo, e citava o União Lapa como o clube que poderia ter esse lugar, por ser o mais antigo e o mais estruturado", contou Danilo.

"Se você observar os times que sobreviveram no futebol profissional, com exceção do Juventus e do Nacional, que são pequenos hoje, todos romperam a questão do bairro e se espalharam pela cidade. É uma realidade comum em todo o mundo, muitos clubes representativos na época amadora não sobrevieram à passagem para o profissional - o Corinthian inglês (Casuals) é um bom exemplo disso", argumentou.

A refundação

A ideia de refundar o União surgiu no lugar ocupado hoje pelo clube: a várzea. Pessoas que moravam na Lapa e jogavam bola nos campos de terra batida do bairro sabiam da história do clube lapeano muito em função das curiosidades históricas ligadas ao Corinthians e já citadas acima, além é claro dos contos passados de geração a geração. Eis que, em junho de 2016...

"Um grupo de seis pessoas se reuniu no bar do Ghassan (tradicional bar da Lapa, na Rua Faustolo) e resolveu refundar o clube, num primeiro momento tentando articular um time pra jogar e ao mesmo tempo aprofundar a pesquisa histórica. A ideia era que o clube servisse também como resgate histórico do bairro e do futebol lapeano", explicou Danilo.

União Lapa hoje tem homens, mulheres e até cachorro em campo

União Lapa hoje tem homens, mulheres e até cachorro em campo

Divulgação

Como o antigo estádio onde o União jogava se transformou no que hoje os paulistanos conhecem como Mercado da Lapa, a refundada equipe passou a considerar como casa o campo do Santa Marina AC, clube de várzea das indústrias Santa Marina, na Água Branca. Escolher um local com terra batida, cujo aluguel gira em torno de R$ 300 a R$ 400, ao invés de um gramado sintético (aluguel na faixa de R$ 1.500) não foi mera coincidência:

"O que sempre colocamos é que os espaços da cidade estão sempre em disputa, e que assim como o clube antigamente surgiu de uma união de operários (um tipo de organização pré-sindical), recuperar a história do clube é também recuperar sua origem de classe. De quem é a cidade? Quem tem acesso ao que ela nos oferece?", acrescentou Danilo, associando a pesquisa histórica às causas defendidas atualmente pelo "novo" União.

"(O campo de várzea do Santa Marina) dialoga muito com nosso projeto, já que o Santa é de 1913 e o campo existe há 105 anos, sempre ameaçado pela especulação imobiliária", disse.

Saldo em dois anos do refundado União Lapa

Passados dois anos desde a vitória por 4 a 3 sobre um time do Coletivo Democracia Corinthiana, que marcou a reinauguração do União Lapa, em torno de 40 a 50 pessoas estão hoje envolvidas na refundação. Jogando bola efetivamente, já há um número de participantes que possibilita a divisão em duas equipes - não à toa, as mulheres e homens por trás do projeto trataram de criar aquele que seria o primeiro segundo uniforme da história do clube.

"Criamos um uniforme 2... Não encontramos na pesquisa uma cor para o uniforme 2, até porque nessa época não era comum os times terem segundo uniforme. Fizemos também um logo novo, apesar de não abandonarmos o antigo. Recuperamos mais fatos da nossa história...", contou Danilo, se referindo às conquistas do "novo" União Lapa.

Equipe de arbitragem é um tanto quanto menos informal na várzea

Equipe de arbitragem é um tanto quanto menos informal na várzea

Danilo Augusto / Meu Timão

Fora das quatro linhas, o clube também anda bastante ativo. Houve participação em iniciativas como o Centenário da Greve Geral de 1917 e também a organização de alguns campeonatos de futebol. Há planos de lançar um bloco de carnaval possivelmente já para 2019, retomando assim uma das principais tradições do União Lapa das décadas de 20 e 30.

No que diz respeito à rotina da agremiação, os homens e mulheres envolvidos no projeto se encontram semanalmente às 13h dos sábados, no campo do Santa Marina, para jogar. Eles também aproveitam para aprofundar pesquisas históricas e discutir ideias de ações sociais.

Minas e manos juntos

Talvez a maior quebra conquistada pelo União Lapa do esteriótipo hoje ligado ao futebol profissional seja se auto-intitular uma equipe mista em termos de gênero: homens e mulheres jogam juntos, no mesmo time, no mesmo campo, trocando passes, divididas e abraços.

"Já faz parte do nosso cotidiano a presença de qualquer pessoa, independentemente de gênero, no time. O futebol aparece como nossa ferramente de resistência e seguimos combativas", disse a meia Adriana Albuquerque se referindo à luta do União Lapa pela igualdade de gênero, tema cada vez mais abordado em diferentes esferas da sociedade.

Mulheres União Lapa

Divulgação

No início do "novo" União, apenas Adri jogava com os homens. Com o passar dos meses e de discussões internas, chegou-se à conclusão de que a integração em definitivo de mulheres na equipe seria benéfica para as causas defendidas pelos refundadores e apoiadores da refundação do clube - hoje já são nove meninas jogando frequentemente.

É claro que nem tudo são flores e há ainda muito a melhorar. As jogadoras ainda sofrem com declarações machistas de alguns torcedores e adversários, bem como pelos olhares e julgamentos a elas exclusivamente pelo fato de serem mulheres. Ainda assim, ouvem frases de apoio de muita gente e seguem firmes no combate à discriminação de gênero.

"Não se trata de utilizar times mistos. O time é misto. No União Lapa se joga sem distinção de gênero. Acho que, nesse sentido, essa é uma mudança significativa vivida no processo de refundação", sintetizou Adriana Albuquerque.

União Lapa proporciona uma diferente experiência de futebol

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Danilo Augusto /Meu Timão

Veja mais em: Especiais do Meu Timão, História do Corinthians e Jogos Históricos.

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