Valter Ekert
Para perceber como a gestão pode mudar completamente o destino de um clube, basta olhar para alguns exemplos recentes do futebol brasileiro.
O Corinthians, por exemplo, viveu um dos períodos mais vitoriosos de sua história entre 2011 e 2013. Nesse intervalo conquistou o Campeonato Brasileiro de 2011, a Copa Libertadores de 2012 e o Mundial de Clubes do mesmo ano, além da Recopa Sul-Americana em 2013. Naquele momento, o clube parecia estar muitos passos à frente de seus concorrentes em organização esportiva e competitividade. Porém, poucos anos depois, a realidade começou a mudar. O endividamento do clube cresceu progressivamente ao longo das gestões seguintes, passando de cerca de R$ 360 milhões em 2012 para mais de R$ 1 bilhão na década seguinte, chegando a cifras superiores a R$ 2,7 bilhões em 2025, refletindo problemas estruturais e decisões administrativas equivocadas ao longo do tempo.
Ou seja, um clube que parecia modelo de sucesso esportivo acabou entrando em um ciclo de dificuldades financeiras e administrativas em pouco mais de uma década.
O São Paulo viveu uma trajetória semelhante. Entre 2005 e 2008 o clube era frequentemente citado como exemplo de gestão no futebol brasileiro. Foi tricampeão brasileiro consecutivo (2006,2007 e 2008) e mantinha uma estrutura considerada referência, tanto dentro quanto fora de campo. Durante muitos anos o clube teve contas relativamente controladas e uma administração elogiada.
Entretanto, com o passar dos anos, mudanças políticas internas, decisões financeiras arriscadas e aumento de despesas começaram a comprometer esse equilíbrio. Hoje o clube também enfrenta uma situação financeira delicada. A dívida já ultrapassou R$ 900 milhões, com crescimento significativo nos últimos anos e déficits operacionais elevados em algumas temporadas.
Esses exemplos mostram algo importante sobre o futebol brasileiro. Nenhum clube está imune a ciclos administrativos. Uma boa gestão pode colocar uma equipe no topo durante anos, mas bastam algumas decisões erradas ou mudanças na direção para que toda a estrutura construída comece a se deteriorar.
Por isso, quando observamos clubes como Palmeiras e Flamengo hoje que atualmente são considerados modelos de organização financeira e administrativa é sempre bom lembrar que esse cenário não é permanente. Dirigentes competentes podem estruturar uma instituição, reduzir dívidas e torná-la competitiva. Porém, quando a política interna volta a dominar as decisões e a gestão perde qualidade, os problemas aparecem rapidamente.
A história recente do futebol brasileiro mostra que o sucesso de um clube depende menos de um momento esportivo e muito mais da continuidade de uma gestão responsável. Sem isso, até os maiores exemplos de organização podem, em poucos anos, se transformar em casos de crise administrativa e financeira.
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