Post de Testomaster no fórum "Bate-Papo da Torcida" do Meu Timão
Testomaster Fiel
De novo isso?
Em resposta ao tópico: "De Barbosa a Hugo, todo goleiro Negro já nasceu em 1950!"
O que era uma nota pé de rodapé dos jornais, um apêndice entre os debatedores e resolveram discutir o inexistente — e o Brasil, quando discute o nada, mata alguém.
Senhores, vamos combinar uma coisa: o terceiro goleiro não existe. Discutir terceiro goleiro é como discutir a cor do tapete da sala depois que a casa pegou fogo
O personagem é o arqueiro Hugo do Corinthians condenado por antecipação. O corinthiano falha? Sim. Falha. Os seus frangos e erros são discutidos por dias e sua competência levada para a cova profunda, coberta pela terra úmida e fétida e sem lápide.
E quem o condena? A imprensa — essa entidade sem rosto, sem alma e sem remorso. Nossos comentaristas sentem o cheiro de sangue de longe e, se podem torcer a faca, não hesitam. Mergulham a lâmina até o cabo com um prazer quase libidinoso.
Meus caros acham que, se Hugo fosse loiro dos olhos azuis, estaria enterrado vivo assim? Vejam o nosso Deus Nórdico, Alisson, o homem de Liverpool pouco peca, mas também não existe um único momento de intervenção divina nas duas Copas do Mundo. E é o nosso quinto Beatle que defenderá a pátria de chuteira pelo terceiro mundial consecutivo.
O beduíno brasileiro Bento. Joga no campeonato saudita. É um exilado num futebol que ninguém ousa amar, é quem disputa com o goleiro corinthiano. O cargo mais inútil do mundo — e, ainda assim, tratado como destino da pátria. Bento errou contra os croatas — e o Brasil, que adora absolver os eleitos, fingiu cegueira. Aquele homenzarrão, assiste ao destino com uma mansidão de estátua de mármore. E enquanto Hugo sangra, o flamenguista Danilo — que não joga há dois anos, senhores, dois anos! — está garantido. Por quê? Por caráter, diz o italiano. Caráter. O senhor ouviu bem. Caráter. Hugo que lute com a sua cova sem lápide.
O grande Barbosa, vice-campeão defendendo o gol da Seleção na Copa de 50, cumpriu uma pena de mais de 30 anos por uma derrota. Os abalizados mestres que decretavam destinos nas páginas dos tablóides perpetuaram a premissa canalha:
“goleiros Negros não dão certo na Seleção Brasileira”.
O trouxa diz: ninguém fala mais isso, até o elogiam. A credulidade do brasileiro que confia no jardim celestial, com anjos de bochechas rosadas. Você acredita? Claro que acredita. O brasileiro adora um conto de fadas.
Osic fala coisas horripilantes com palavras doces. O Hugo é um excelente defensor de penalidades, mas… O Hugo tem personalidade, mas… O Hugo tem a cara do Corinthians, mas…
O 'mas' é a faca que não mata, mas deixa o defunto feder por dentro. E o cheiro é tanto do que analisa quanto do que é analisado — cada um com o seu fedor.
O que causa coceiras intermitentes nos homens do juízo final é que o goleiro Hugo ri, com personalidade não tem medo de se expor e dança com os títulos.
É o mesmo caso de Vinícius Júnior. Na partida contra a Croácia, Vini deu um corte que causou a morte moral de três zagueiros. Se fosse outro, de pele pálida, seria recebido no Brasil com o caminhão de bombeiros, aos gritos dos jornalistas: este homem é um Gênio, Gênio, um novo Garrincha.
Eles até toleram os pretos, carrancudos, bravos, mas, aqueles que mostram os dentes de bem com a vida é navalhada em suas convicções de mundo. Os próprios diriam: aonde vamos parar!




