Adriano Moraes
Parabéns pelo texto, isso é ser Curinthians raiz
em Bate-Papo da Torcida > Era só mais um curinthia!
Em resposta ao tópico:
José Ferreira Silva era um homem que não cabia no próprio nome. Depois descobrimos: nem o nome era dele. Mas isso é detalhe para quem viveu como ele viveu — no improviso, no resto, na margem onde até a identidade é um favor.
Veio do Piauí como vêm os homens que não têm escolha: sem plano, sem mapa, só com a coragem que parece burrice vista de longe. São Paulo não o acolheu; apenas não o expulsou. E isso, para ele, bastava. Instalou-se num terreno invadido no Jardim Vila Formosa, onde a casa não era construída — era tolerada. Madeira torta, telha cansada, um chão que rangia como se reclamasse da existência.
Ali morava José. Ou melhor: ali insistia.
De dia, era braço. Descarregava caminhões no CEASA como quem paga uma dívida que nunca fez. Caixa de tomate, saco de cebola, banana esmagando ombro. O corpo dele era uma ferramenta sem garantia. Ninguém perguntava se doía. Dor, naquele ambiente, era parte do uniforme.
Mas José não era só isso. Havia nele uma chama — torta, exagerada, quase ridícula — que o salvava de ser apenas mais um. Essa chama tinha nome: Curinthians.
Ele não falava Corinthians. Falava Curinthians, com uma intimidade que nenhum narrador de televisão jamais teve. Era erro, diriam os corretos. Era pertencimento, diria qualquer um que tivesse o mínimo de vida.
— O Curinthia é o time do povo.
Repetia isso como quem bate ponto. E não era frase. Era sentença.
Nos anos 90, o Pacaembu era sua igreja, seu tribunal, sua última chance de existir com dignidade. Ele ia a todos os jogos que podia — e a vários que não podia. O ingresso, para ele, não era papel: era absolvição.
E havia um detalhe que separava José dos outros miseráveis: ele dividia o pouco que tinha. Na catraca, sempre aparecia alguém pedindo dinheiro para entrar. Um desconhecido, um desesperado, um igual. José metia a mão no bolso e tirava moedas que fariam falta.
— Vai lá, irmão. Hoje é dia de Curinthia.
E ficava do lado de fora.
Essa é a parte que ninguém entende. O homem que não tinha dinheiro dava dinheiro. O homem que queria entrar ficava. Mas José não operava na lógica dos vivos normais. Havia nele uma ética própria, uma aritmética do absurdo: se o time era do povo, ninguém podia ficar de fora. Nem que fosse ele.
Quantas vezes voltou para casa com fome? Não sabemos. Quantas vezes ouviu o jogo do lado de fora, encostado no muro, como um condenado escutando festa? Também não sabemos. A história não registra esse tipo de sacrifício. Mas o futebol — esse teatro de gritos — se sustenta exatamente nesses homens invisíveis.
Em casa, falava do jogo como quem reescreve o mundo. O gol sempre mais bonito, a falta sempre mais criminosa, o juiz sempre vendido. E o Curinthians, sempre maior que qualquer realidade.
A mulher ouvia. Não por interesse — por necessidade. Sabia que, sem aquilo, o homem desmoronava.
José não tinha vícios elegantes. Não filosofava. Não escrevia. Não sonhava com riqueza. O único luxo dele era acreditar. E acreditava com violência.
Por isso, quando o corpo falhou, foi uma traição imperdoável.
Em 2012, veio o derrame. Seco, direto, covarde. O tipo de golpe que não avisa nem se explica. De um dia para o outro, José deixou de ser o homem do esforço para virar o homem do leito.
Metade do corpo se aposentou sem aviso. A fala virou um amontoado de sílabas sem coragem. O olhar, antes aceso, passou a vagar como cachorro perdido.
E o pior: ele não conseguia mais dizer “Curinthia”.
Isso, para ele, era mais grave que a própria morte.
O hospital o engoliu como engole todos: sem cerimônia, sem memória. Ali, José era só mais um corpo ocupando espaço, gerando custo, esperando um desfecho. Não havia dinheiro para remédio. Não havia família estruturada. Não havia solução.
A mulher tentava. Mas tentar, às vezes, é só uma forma elegante de fracassar.
Os amigos de arquibancada sumiram com a velocidade típica dos afetos de ocasião. O futebol, que ele tratou como religião, não sabia seu nome. E não tinha obrigação de saber.
José, deitado, começou a entender.
O Curinthians estava perto de ganhar tudo. A Libertadores vinha como promessa antiga. O mundo, finalmente, se dobraria. Era o tipo de momento que ele esperou a vida inteira.
E ele não podia ir.
Não podia gritar. Não podia empurrar o time com a garganta. Não podia sequer estar do lado de fora do estádio. Era um exilado do próprio sonho.
Há dores que não fazem barulho. Essa era uma delas.
Para qualquer outro, seria tristeza. Para José, era humilhação.
Ele, que sempre deu, agora precisava receber. Ele, que sempre carregou, agora era carregado. E não suportou a inversão.
Numa noite qualquer — porque as decisões definitivas acontecem em noites banais — José resolveu que não jogaria mais.
Ninguém sabe exatamente como. Hospital é lugar de silêncio cúmplice. Mas ele deu um jeito. Um homem que viveu resolvendo o impossível não teria dificuldade em resolver o último problema.
Morreu antes de ver o Curinthians campeão da Libertadores. Morreu antes de ver o mundo reconhecer aquilo que ele já sabia há décadas.
Morreu na véspera da própria redenção.
O enterro foi pago por um bicheiro. Isso, por si só, já diz mais do país do que qualquer tese sociológica. A dignidade final de José veio do jogo paralelo, da ilegalidade organizada, da caridade torta.
E foi só depois, entre um comentário e outro, que surgiu a verdade: José Ferreira Silva não existia.
O nome dele era Ivan Silva.
José era invenção. Um disfarce. Uma homenagem torta ao jogador Neto, ao primeiro título que viu, ao momento em que decidiu pertencer a alguma coisa. Ele não adotou o Corinthians. Ele se rebatizou por ele.
Isso muda tudo e não muda nada.
Porque, no fim, José era mais verdadeiro que Ivan. José era o homem que ele escolheu ser. Ivan era só o resto.
Enquanto isso, o mundo seguia. O Curinthians ganhou a Libertadores. Ganhou o Mundial. O povo foi à loucura. Gritou, chorou, se abraçou, subiu em poste, beijou desconhecido.
No meio daquela multidão, faltava um homem.
E ninguém percebeu.
Essa é a parte mais cruel. Não a morte. Não a pobreza. Não o anonimato. Mas a absoluta irrelevância diante da festa.
Só que há uma verdade que não aparece no placar: cada grito daquele título tinha um pouco de José. Cada ingresso comprado com sacrifício tinha uma moeda dele. Cada arquibancada cheia carregava a ausência dele.
O futebol não contabiliza isso. Não há estatística para generosidade. Não há replay para dignidade.
Mas existe uma espécie de justiça subterrânea — dessas que não passam na televisão. Uma justiça que sabe que certos homens sustentam o espetáculo sem jamais entrar em campo.
Se alguém perguntar quem foi José Ferreira Silva, a resposta correta não está nos registros. Está nas catracas do Pacaembu, onde um desconhecido entrou um dia com o dinheiro dele. Está na memória de quem gritou um gol sem saber por que doía tanto.
José não viu o título.
Mas talvez — e isso basta — o título tenha visto José.
Porque há homens que não vivem para assistir à glória. Vivem para financiá-la.
E, no caso dele, até o nome foi um ato de fé.