Quase Tm
A vida, como ela é, costuma ser impiedosa com os que se julgam sentados no trono da razão absoluta. O jornalista Flávio Prado desempenha, com uma volúpia que beira o místico, o papel de carrasco do óbvio. Há nele uma necessidade patológica de açoitar o Corinthians, não por uma análise tática ou um desvio de conduta técnica, mas por um prazer estético na humilhação. Quando o assunto é a Libertadores, o microfone de Flávio deixa de ser um instrumento de informação para se tornar um chicote de couro cru, estalando sobre o lombo da massa. Ele fala para o povo com o desdém de quem observa formigas sob um microscópio, mantendo o paletó impecável enquanto destila um veneno que pretende ser sofisticado, mas que fede ao mofo dos rancores mal resolvidos. Para Prado, o sofrimento corintiano na competição continental não é apenas um fato esportivo; é uma sentença moral. Ele tripudia, ele gargalha, ele constrói um altar para a própria soberba, fantasiando o seu elitismo com o figurino da objetividade.
Mas o que espanta no paladino da ética radiofônica não é o seu desprezo pelo preto e branco, e sim a sua memória, que funciona como um filtro de conveniências: retém o que lhe serve para o ataque e deixa passar o que incomoda os seus iguais. Flávio Prado, com o dedo em riste, evoca com frequência a tragédia de Oruro. A morte do jovem Kevin Spada é uma cicatriz incurável, um sinalizador que roubou uma vida e que jamais deveria ser esquecido. Contudo, na retórica de Prado, a tragédia de um menino boliviano serve como pretexto para punir uma coletividade inteira, um povo inteiro, uma nação de camisas suadas. Ele condena milhões pelo erro de um, exigindo justiça divina com um rigor inquisitorial. É uma justiça cega de um olho só.
Onde estava a fúria justiceira de Flávio quando o Ninho do Urubu ardeu em chamas? Dez garotos, dez sonhos carbonizados por uma negligência que grita aos céus. Ali, o jornalista não buscou o açoite. O motivo desse silêncio, porém, é mais rasteiro do que se imagina: Flávio morre de medo de contestar seu companheiro de bancada, Mauro Cezar. O veterano prefere o recolhimento covarde a enfrentar o homem que, há muito, abandonou o jornalismo para se tornar um influenciador rubro-negro, um pregador de uma seita particular. Por puro temor reverencial ao colega, Prado engole a indignação que lhe sobra contra o Corinthians. Para os meninos do Rio, o silêncio obsequioso para não melindrar o parceiro de estúdio; para o corintiano, o pelourinho público. Essa disparidade é uma profunda e dolorosa desonestidade intelectual.
Se a seletividade esportiva já é grave, o que dizer da responsabilidade civil de quem ocupa o espectro eletromagnético de uma nação ferida? Flávio Prado é parte intrínseca de uma engrenagem que, durante os anos mais sombrios da nossa história recente, flertou com o abismo. A rádio onde ele pontifica tornou-se o púlpito de uma cruzada que desafiou a ciência e a vida. Enquanto o país contava seus mortos em valas comuns, o discurso que emanava daqueles microfones induzia o brasileiro à dúvida, ao medo da vacina e à negação da realidade. É uma ironia trágica: o homem que se diz um defensor da civilidade contra a suposta barbárie das arquibancadas foi complacente com um movimento que resultou em túmulos reais, e não apenas em derrotas de campo.
Quantos brasileiros, influenciados pelo tom autoritário e supostamente esclarecido daquela emissora, deixaram de se proteger e sucumbiram à doença? Essa é a verdadeira eliminação, o 'mata-mata' definitivo que Flávio Prado prefere não narrar. É fácil apontar o dedo para o torcedor de chinelo de dedo e camisa desbotada; difícil é olhar no espelho e encarar a própria responsabilidade na construção de uma mentira coletiva que custou fôlego e vida. Ele habita um universo onde o Corinthians é o vilão necessário para que ele se sinta o herói da moralidade, mas ignora que a moral sem equidade é apenas tirania.
A postura de Flávio é o retrato de uma certa elite que se sente confortável em julgar o 'povacho', mas que se ajoelha diante do poder e da conveniência de amizades profissionais. Ele se apresenta como o crítico implacável, mas sua coragem termina onde começa a sombra de Mauro Cezar e os interesses da sua emissora. Não há grandeza na sua crítica porque não há humanidade no seu olhar. O jornalismo deveria ser o farol que ilumina as sombras de todos. Quando um comunicador usa sua plataforma para moer a alma de uma torcida enquanto ignora cadáveres debaixo do tapete de seus aliados ou das teses negacionistas que defende, ele deixa de ser um analista para se tornar um propagandista do próprio ego. Flávio Prado pode continuar seus editoriais ácidos, mas o cheiro de queimado do Ninho e o silêncio dos que não se vacinaram são fantasmas que nenhuma ironia barata consegue afastar.
em Bate-Papo da Torcida > Flávio Prado: O Profeta do Ódio que Usa o Corinthians para Esconder...









