Quase Tm
O Corinthians não é um time, não é uma agremiação, não é um estatuto. O Corinthians é um estado de alma, uma febre que racha o termômetro, uma fome que não se sacia com o pão, mas com o grito. É a massa, esse monstro sagrado e multiforme, que desce a ladeira com a fúria dos desesperados e a doçura dos Santos. A torcida corinthiana é o único espetáculo da terra que justifica a existência do sol. É um amor de beira de abismo, um amor de faca no peito, onde o sujeito perde a razão, perde os dentes, perde o emprego, mas não perde a capacidade de uivar para a lua quando o gol explode no concreto do estádio.
Mas, ai de nós, que a beleza é sempre vizinha da podridão.
Enquanto o povo sangra na arquibancada, enquanto o operário gasta o último tostão da marmita para ver o manto sagrado em campo, nos salões acarpetados, sob a luz de lustres comprados com o suor alheio, rasteja a infâmia. O Conselho Deliberativo do Corinthians é uma cripta de múmias vivas. São os vitalícios, essas figuras de cera que se alimentam do prestígio do clube como vermes que roem o cadáver de um rei. Eles não sentem a pulsação da arquibancada; eles sentem apenas o cheiro do poder, o odor fétido da influência e a volúpia do privilégio eterno.
O conselheiro vitalício é um cadáver que esqueceu de deitar. Ele está lá por uma herança de favores, por uma troca de olhares em almoços regados a vinho caro, enquanto a Fiel padece na fila do ônibus. Esse sujeito olha para o Corinthians e não vê um ideal; vê uma vaca leiteira, uma fonte de propinas, um balcão de negócios onde o caráter é a moeda mais barata. É a incompetência trajada de seda, a corrupção perfumada com loção francesa.
Os cartolas, esses mercadores de ilusões, são os arquitetos do desastre. Homens de alma pequena, de um cinismo absoluto, que tratam o sentimento de milhões como se fosse uma planilha de lucros — e lucros que nunca chegam ao destino certo. São gestores do nada, administradores da própria ganância. Eles falam em modernidade enquanto enterram o clube em dívidas colossais, em contratos obscuros, em negociatas de bastidores que fariam o homem mais imundo do mundo corar de vergonha.
A incompetência dessa gente não é um acidente, é um projeto. O cartola corinthiano é um predador que habita o Parque São Jorge como se fosse seu quintal particular. Ele não teme a justiça, porque a justiça, para ele, é um conceito abstrato, algo que só existe para quem não tem um padrinho no conselho. Ele vende o craque da base por migalhas para engordar a conta do empresário amigo, ele superfatura a obra, ele asfixia a esperança do torcedor com a mão gorda de quem nunca chutou uma bola de meia na vida.
O contraste é obsceno, é de uma crueldade que clama aos céus. De um lado, o torcedor que faz promessa, que chora, que se ajoelha no asfalto quente. O torcedor que é a única coisa pura, verdadeira e divina nessa história. A Fiel é a maior força da natureza, uma avalanche de paixão que ninguém consegue deter. Do outro lado, o lixo humano da burocracia, o câncer dos gabinetes, o parasita que suga o sangue do clube até deixá-lo pálido, anêmico, endividado.
O que estraga o Corinthians é essa elite de salão, esse conselho que se autoperpetua como uma dinastia de ratos. Eles se protegem, se abraçam, se absolvem. Eles são imunes ao fracasso que eles mesmos provocam. Se o time cai, eles continuam lá, bebendo o seu uísque e discutindo a próxima eleição manipulada. Se o clube quebra, eles saem de suas Mercedes e dizem que a culpa é do mercado, das circunstâncias, do destino — nunca da própria mão leve e do cérebro atrofiado.
O Corinthians é maravilhoso apesar deles. É um milagre cotidiano que o clube ainda respire sob o peso de tanta canalhice. Mas até quando? Até quando a paciência da massa será testada por esses senhores de engenho travestidos de dirigentes? A corrupção no Corinthians não é apenas um crime financeiro; é um crime espiritual. É o roubo do sonho do menino que quer ser campeão, é o escárnio contra o velho que só tem o clube como alegria na vida.
Esses cartolas e conselheiros são as feras que devoram o coração do Timão. Eles são o lixo que precisa ser varrido com a vassoura de aço da dignidade. Enquanto o Corinthians não se livrar dessa casta de abutres, a glória será sempre uma ferida aberta, um triunfo interrompido pela sombra da lama que escorre dos gabinetes. O Corinthians é do povo, mas hoje, infelizmente, ele é refém dos canalhas. E não há tragédia maior do que ver o divino prisioneiro do imundo.
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