Não falamos mais a mesma língua

Lucas Faraldo

Setorista do Corinthians desde 2014

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Não falamos mais a mesma língua

Não falamos mais a mesma língua

Romero jogou pelo Corinthians em cinco temporadas diferentes e consecutivas

Foto: Daniel Augusto Jr/Ag. Corinthians

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Não nos veem mais juntos. Ainda que sigamos morando sob o mesmo teto. Dividindo os mesmos cômodos. Utensílios. Cantinhos de lazer e de trabalho. Temos sorte, afinal, de nos divertir trabalhando – na maior parte do tempo em casa! É gostoso esse tal mundo da bola.

Gostoso como nosso amor. Amor raro. Genuinamente puro. Pelo qual ninguém dava nada lá nos primeiros encontros. Faziam chacota. Custavam te aceitar. Tentavam achar (e até hoje alguns insistem em procurar) os mais diversos defeitos. Cabelo feio. Vem de um lugar diferente. Inexperiente. Menos interessante do que outros tantos com quem namorei.

Tolos. Mal sabiam o quão bem nos dávamos. E não falo do que nossos amigos e até inimigos veem pelas selfies que andamos postando – pra alguém da minha idade, até que estou aprendendo rápido, em? Falo da nossa intimidade. Poucos souberam me entender como você. Poucos realmente se esforçaram pra me entender. Você foi especial. É. Será sempre.

Quem é meu amigo de verdade reconhece o bem que você me fez. Me elogiam como há anos não elogiavam. "Que mancha bonita de barro nessa camisa". Ouvi algumas vezes. "Seu meião tá rasgado". Tem quem repare. "Nossa, como você tá suado!" Esse é o campeão. Não tem um diazinho sequer que boto a chuteira pra fora de casa e não ouço!

Pra quem não acredita mais nesse negócio de amor, parece bobagem. "Quem não sua?!", os tolos perguntariam. Ah... Há suores e suores. O nosso é diferente. Quem elogia sabe. Sente.

Eu sinto. Sinto muito. Sinto muito por tudo isso não nos pertencer mais. Não falamos mais a mesma língua.

Hoje estou rodeado de amigos – alguns bem estranhos, inclusive. De títulos. Até de dinheiro – quem diria?! E de outros tantos amantes estranhamente mais elogiados que você, mesmo tendo aparecido na minha vida há tão pouco tempo – é assim hoje em dia com esses aplicativos? Já diriam meus amigos de longa data: esse mundo está de ponta-cabeça.

Cabeça... Lembra quando você brincou equilibrando a bola e fazendo embaixadinhas? Logo naquele passeio que mais gostamos de fazer! Acho que nunca dei tanta risada no nosso relacionamento. E olha que você sabia me tirar do sério. No melhor sentido. Azar de quem não entendia. Mas não é disso que estou falando mais, né?

Esse domingo mesmo... Estou indo lá para o tal passeio. Mas sem você. Fazia tempo que não te deixava em casa. Dificilmente darei tantas risadas, por mais feliz que de lá volte.

Mas a verdade é que jamais subimos ao altar para prometer juras eternas. Nunca escondemos isso de ninguém. Por mais que em alguns momentos nos vissem como um casal que envelheceria juntinho um do outro como naqueles filmes de antigamente.

Sei que você ainda era novo quando nos conhecemos. Tinha na bagagem só um namorico de adolescência, de vizinhança. Natural. Tão natural quanto o término. Sonhava viajar o mundão. E mal saiu do bairro já estava se apaixonando de novo, logo no primeiro relacionamento sério em que embarcou. Ê, bobão! Bobão nada. Sorte a minha rs.

Eu também me envolvi mais do que poderia imaginar. Não vou negar. Mas deixei pra trás há décadas essa história de casamento. Hoje a regra é outra – é ficar que os jovens falam, né? A gente tem que cair na real. Chega desse conto de fadas. É hora de você sair de casa.

Vai fazer bem pra mim. Não sei bem como, mas, de tanto falarem, acredito. É o que me restou. E você também não é dos amantes mais fáceis que já tive, convenhamos!

Mas a questão principal é que essa mudança vai fazer bem pra você. Mais maduro, mais reconhecido... E até com os cabelos mais bonitos. Para onde for, tenho certeza que vão te olhar com outros olhos. Com sorte, com os mesmo olhos que te olhei.

Outrora apaixonados e hoje desgastados por questões tão banais dos tempos atuais – e ao mesmo tempo universais – como tempo e dinheiro.

Nossa paixão acabou. Mas o amor fica. Eternamente dentro dos nossos corações, já dizia aquela música que cansamos de ouvir juntos. E que seguirei ouvindo. Espero que, mesmo sozinho, você também.

Do seu eterno amor,

Corinthians

Romero chegou ao Corinthians em 2014, pouco antes de completar 22 anos

Romero chegou ao Corinthians em 2014, pouco antes de fazer 22 anos

Daniel Augusto Jr/Ag. Corinthians

Veja mais em: Romero, Mercado da bola, Ídolos do Corinthians e História do Corinthians.

Coluna do Lucas Faraldo Knopf

Por Lucas Faraldo Knopf

Jornalista pela ECA-USP e ex-Esporte Interativo, Jovem Pan e Lance!. Hoje trabalha no Meu Timão. Autor do livro 'Impedimento - Machismo, racismo, homofobia e elitização como opressões no futebol'.

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