Porque o Flamengo não é o Corinthians

Rafael Castilho

Rafael Castilho é sociólogo, especializado em Política e Relações Internacionais e coordenador do NECO - Núcleo de Estudos do Corinthians

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Porque o Flamengo não é o Corinthians

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Porque o Flamengo não é o Corinthians

Até porque o Corinthians vive o jogo como a gente joga a vida da gente

Foto: Bruno Teixeira/Divulgação/Corinthians

Me recordo que há alguns anos, assistia um desses programas de debates esportivos com o saudoso jornalista carioca Armando Nogueira, já falecido. Isso foi no tempo em que os programas com esse formato eram muito mais do que concurso de palhaçadas e polêmicas burras. Não subestimavam a inteligência de quem assistia ao programa.

A discussão era a tentativa de comparação entre a torcida do Flamengo e a torcida do Corinthians. O botafoguense Armando Nogueira me provocou gargalhadas ao tentar resumir dizendo: “As duas torcidas são parecidas, mas a do Corinthians é mais nervosa”.

Sei que de cara, o leitor corinthiano deve ter suspirado, já a essa altura do texto, e dito baixinho para si mesmo: “Para com isso, não dá pra comparar”. Pois é, talvez sejam realmente coisas incomparáveis, mas não custa nada, nesse momento de tanta alegria, em que mandamos “aquele abraço” para a torcida do Flamengo, superando-os na Copa do Brasil, fazer um exercício e entender o porquê o Flamengo não é, nem nunca vai ser o Corinthians.

Sempre achei desnecessária essa discussão sobre qual é a maior torcida do Brasil. Para efeitos práticos essa contagem de um a um não tem a menor importância.

A verdade é a seguinte: O Flamengo tem mais torcida, o Corinthians tem mais torcedores. Isso sim tem uma grande diferença. É só parar pra pensar.

As duas torcidas são muito populares. São também torcidas nacionais. Porém, ao que parece, a influência em suas formações das duas grandes cidades, Rio de Janeiro e São Paulo, sejam definidoras de certas características muito particulares dos dois clubes. São visões (e paisagens) de mundo bem distintas.

Não há como não se apaixonar pelo Rio de Janeiro. Os corinthianos sabem muito bem disso. Já organizamos algumas invasões em massa que entraram para a história da humanidade e tratamos o Maracanã como nosso algumas vezes. Vimemos momentos lindos no Rio de Janeiro.

Quando se ouve uma canção falando do Rio de Janeiro, é sempre aquela narrativa contemplativa. O sol, o céu, o mar, o barquinho vai, o Corcovado, a moça bonita, o país tropical. Quando ouvimos as canções sobre São Paulo é sempre o trem que se vai perder, é alguma coisa que acontece no meu coração (Seria taquicardia? Um infarto no miocárdio?).

As poesias sobre São Paulo narram sempre o descompasso do indivíduo com o funcionamento da cidade. O despejo na favela. O barracão que foi arrastado. A saudosa maloca que não existe mais. A vida que passa rápido e a gente nem vê direito como envelhece na cidade.

O Flamengo é uma canção do Jorge Benjor, cheio de alegria. O Corinthians é um samba do Adoniran, com irreverência, provocação e uma dose indisfarçada de melancolia.

O Flamengo é o time do Lado A, onde ficavam as grandes canções de sucesso. O Coringão é Lado B, onde colocam as músicas que mexem com a cabeça da gente. As canções que fechamos os olhos para ouvir com atenção. O Corinthians é profundidade.

Torcer para o Flamengo é uma grande festa. Torcer para o Corinthians é um dever.

Nos jogos do Flamengo tem aquela coisa, também maravilhosa, da alegria. Quem não gosta de ser feliz? Todo mundo. Claro que gostamos. No Flamengo tem aquela galera que vai fantasiada no estádio pra fazer piada. Acontece que no Corinthians o bagulho é louco. A gente passa a semana inteira dormindo mal pensando como vai ser na hora do jogo. Não dá pra fazer muita festinha. Tem dia que no caminho pro estádio já está todo mundo pilhado. Nem dá pra falar muito um com o outro. Se falar demais, se ficar cutucando o amigo, ele já responde: “que foi, porra?, me deixa, mano!”.

Numa das primeiras vezes que fui ao Rio a trabalho, um rapaz ao saber que eu sou corinthiano sentenciou: “po, oh soh, o Corinthians não tem graça”. E não tem mesmo. Não é pra ter. O bagulho é preto e branco. Não tem cor. Aqui a coisa ferve.

O Flamengo é um domingo de sol. O Corinthians é a vida inteira da gente. O Corinthians é o nosso futuro. É o nosso presente. É o nosso passado. É parte integrante de quem somos. É legal zoar, mas tem hora que não dá. É um caroço de manga preso na garganta.

O Flamengo é carnaval, o Corinthians é o dia da revolução!

O flamenguista é torcedor. O corinthiano é militante.

O Corinthians é uma causa. Não uma causa vazia em si mesma. Também não quero diminuir o Flamengo. Juro que não se trata disso. Mas no Corinthians tem muito mais coisa envolvida. E não é só paixão. O Corinthians é a história do nosso povo. Muitas coisas aconteceram no Corinthians porque sempre foi por lá que a história escorreu e virou um rio com correnteza forte trombando em um monte de pedras.

Sim, existe algo de bonito e democrático na torcida do Flamengo. Ali cabe todo mundo. Não falo isso com desdém. O Flamengo é o time de “todos”. O Corinthians não é o time de todos. A verdade é essa. O Corinthians é o time dos escolhidos. Escolhidos num sentido de destino compartilhado, não de seleção refinada, até porque, ao mesmo tempo que é o time dos escolhidos, o Corinthians é o time dos excluídos.

O Flamengo é espalhado e heterogêneo. O Corinthians é denso e homogêneo.

O Corinthians é a maior, mas se preferirem é também a menor torcida do Brasil.

Existe um Corinthians muito íntimo para cada um de nós. Existe um Corinthians bem pequeno e provinciano para cada grupo de amigos que se reúne. O Corinthians é um clube de futebol profissional, uma marca, uma empresa, mas é também um time de várzea nas vilas e comunidades, onde sempre existem grupos que se juntam em seu nome. Estão em diferentes lugares, mas sempre com um sentido comum e uma unidade espiritual, vibrando na mesma direção. O Corinthians é um clube nacional, mas é também um time de bairro. É só ir ao clube, nas sedes de torcidas, nos coletivos espalhados, nos grupos de amigos. O Corinthians cabe na palma da nossa mão. Todo mundo se conhece. Sabe quem é quem. É impressionante.

Do muro para fora do Parque São Jorge, o Corinthians é gigante, do muro para dentro, muitas vezes é pequenininho.

O Corinthians vive na zona leste do coração do nosso povo, independente de onde nosso povo estiver.

O Corinthians é o time da maioria, mas é também o time das minorias. Não dá pra rasgar a história. Quem quiser, pode até ficar puto com a história, mas mudar não consegue. O Corinthians se fez como o clube das minorias. Isso tem uma grande diferença. Não é o clube de todos. É o clube das minorias. Quando digo minorias, falo sob o sentido da representação nas instâncias de poder. O Corinthians se construiu como o time dos imigrantes refugiados, dos retirantes, dos favelados, dos negros, dos sem voz. Hoje é também o clube das mulheres que não aceitam mais serem subjugadas.

Falo por mim, eu não nutro nenhum desprezo pelo Flamengo. Rejeito quando algum corinthiano chama o flamenguista de mulambo. Maloqueiro chamando o outro de mulambo é meio complicado.

Mas, amigo flamenguista, tem coisas que não dá pra negar. Veja só, de uns anos pra cá, não deu pra deixar de notar que o Flamengo tem imitado o Corinthians em algumas coisas.
O Flamengo tem seguido nossos passos em coisas boas, mas também em coisas ruins que temos feito. Digo isso, pois me solidarizo com o torcedor do Flamengo que de uns tempos pra cá também tem sido excluído dos estádios. O Flamengo segue nossos passos até mesmo no que temos feito de pior, ou seja, afastar seu povo dos estádios, elitizar, cercar.

A exclusão dessas massas de torcedores é burra, inclusive do ponto de vista administrativo e econômico, pois o grande patrimônio e a grande fonte de receita desses clubes não é bilheteria de estádio. No caso do Corinthians, inclusive, essa renda nem vem pra nós. Nem dá pra saber se algum dia essa bilheteria voltará para os cofres do clube. Vai demorar muito. Penalizar o torcedor, desvinculá-lo afetivamente, desconstruir conexões culturais, deixa-lo mais distante, acaba por fazer com que joguemos contra nosso futuro. Na prática, estamos vendendo (se isso que é importante) pra menos gente, não para mais gente. É fazer um gol contra.

O Flamengo pode contratar ex-jogadores do Corinthians. Pode imitar coisas boas e coisas ruins. Pode concorrer pelo mesmo espaço nas mídias, pelos maiores contratos de patrocínio, por maior audiência na televisão, por maior orçamento. Mas, de verdade vos digo, o Flamengo nunca vai ser o Corinthians. Nem se o Flamengo nascer de novo.

Somos mais fortes porque somos mais do que um time de futebol. Somos uma ideia que paira no ar. Um sentimento que habita no metafísico. Algo que não se toca. O inconsciente coletivo. Vencemos jogos invencíveis. Nos superamos na adversidade. Somos um todo que vem das casas, das ruas, dos bares, da arquibancada para dentro de campo. Por isso sabemos torcer para times tecnicamente ruins. Sabemos jogar, conscientes de nossas limitações, sem nenhuma crise de inferioridade. Temos senso de oportunidade e sabedoria para vencer o inimigo, por maior que ele seja.

Até porque o Corinthians vive o jogo como a gente joga a vida da gente.

Veja mais em: Copa do Brasil e Torcida do Corinthians.

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