O Corinthians em meio a barbárie

Rafael Castilho

Rafael Castilho é sociólogo, especializado em Política e Relações Internacionais e coordenador do NECO - Núcleo de Estudos do Corinthians

ver detalhes

O Corinthians em meio a barbárie

Coluna do Rafael Castilho

Opinião de Rafael Castilho

17 mil visualizações 226 comentários Comunicar erro

O Corinthians em meio a barbárie

Camisa faz parte da exposição no Memorial do Corinthians sobre o basquete

Foto: Beto Miller/Ag. Corinthians

Não sei se o amigo corinthiano ou a amiga corinthiana, mais atentos ao cotidiano do futebol, tem acompanhado o que acontece na parte de dentro dos muros do Parque São Jorge, mais especialmente no Memorial do Corinthians.

O Sport Club Corinthians Paulista realizou justa homenagem à riquíssima história de seu basquetebol no último sábado e expôs honradamente uma camiseta utilizada por seu atleta Gustavinho na conquista da Taça Ouro no ano passado, que levou o Corinthians à NBB. Por iniciativa do próprio atleta, a camiseta carregava os dizeres: "Quem matou Marielle?".

Após a exposição da camiseta histórica no Memorial do Corinthians, alguns grupos de conselheiros se organizam para a intervenção na exposição e consequente retirada da camiseta do Corinthians.

O ato se constitui como um episódio de intolerância e de ofensa às liberdades constitucionais de expressão e livre manifestação de ideias.

Mais do que isso, o episódio é revelador. Como tudo no Corinthians é uma amostra do que vem ocorrendo no Brasil. Dá pra ter uma boa noção do buraco em que estamos nos metendo.

A frase estampada na camiseta não denota nenhuma predileção política ou movimento partidário. Demonstra tão somente a valorização da justiça e o desejo que o crime seja apurado com cuidado e rigor.

O fato de Marielle ter sido filiada a um partido de esquerda, nesse caso, é o menos importante. O assassinato bárbaro contra a vereadora carioca não é apenas um episódio de violência urbana – como isso por si só já não fosse grave o suficiente – mas é também um triste caso de violência política e atentado contra a democracia e as garantias institucionais que devem preservar as liberdades e os direitos de todos os cidadãos brasileiros.

O que ocorreu com a vereadora que, por sua importância, alcançou repercussão internacional, pode ocorrer e ocorre com muitos brasileiros e brasileiras que de algum modo passam a ser incômodos a interesses da pior natureza possível.

Quando não há garantias às liberdades democráticas e quando não podemos esperar por justiça, todos passam a ter seus direitos individuais ameaçados. Aqueles que se levantam contra as injustiças ficam sob ameaça e também aqueles que inicialmente não se importam com a quebra dessas garantias também estão sob ameaça, pois se não há justiça e se não há mediação das instituições regulares da república, estamos então em guerra de todos contra todos. E todos podem ser vítimas, pois não há limites impostos e, em suma, acaba por ser a lei do mais forte.

Terrível saber que conselheiros do nosso amado Sport Club Corinthians Paulista se organizam para intervir na exposição e retirar a camiseta histórica.

Quem pode se incomodar com uma frase que não faz nada mais do que pedir justiça e o esclarecimento de um crime tão brutal?

Vivemos um período tão marcado pelo absurdo que predomina a banalização do mal, para usar uma expressão consagrada pela filosofa alemã Hannah Arendt. As pessoas perdem sua capacidade crítica frente às brutalidades por se considerarem seguidoras da ordem estabelecida e predominante. É o que aqui no Brasil nos últimos anos passou a ser entendido como o “cidadão de bem”.

A mobilização para a retirada da camiseta do Corinthians estampada com “Quem matou Marielle?” revela a barbárie dos nossos dias. No Brasil, as injustiças, o extermínio, a intolerância, a desigualdade, são tão tradicionais na vida social do país que já compõem a vida mental dos brasileiros e estão absolutamente naturalizados, que qualquer coisa que supere essa normalidade imposta pela tragédia se confunde com militância política ou disputa eleitoral.

O que deveria nos indignar é aquilo que acaba por se confundir com o subversivo. O novo normal é composto pelos abusos cotidianos. Com o tempo deixaremos de nos indignar, é isso que esperam?

Será que o incômodo com a camisa dá pistas claras do que habita no subconsciente de quem a repudia?

O Corinthians é um clube formado por trabalhadores humildes. Foi influenciado e influenciou em diferentes momentos históricos, em mais de um século de existência. Seu passado é uma bandeira e seu presente uma lição. Sempre foi um clube popular que viveu junto com seu povo os dramas e as esperança de seu tempo. Consolidou-se como o time do povo e da Democracia Corinthiana.

Se for para retirar do Memorial tudo aquilo que compõe a história do Corinthians e que pode ser confundido com a luta social de seu povo, pouca coisa sobrará. Talvez alguns troféus vazios de sentido, que sem a história de resistência do Corinthians em cada título consagrado às duras penas, contra forças perversas que se organizaram contra o Corinthians, se converteriam em esculturas metálicas frias. Talvez restem nas nossas imagens apenas algumas marcas e grifes.

Aliás, não custa perguntar, será que tem gente que torce pelo Corinthians o confundindo com uma mera grife do futebol? Porque sem sua história, sem a marca de seu povo, do Corinthians não sobraria nem as cores.

Pois é, nossas cores são o preto e o branco. Talvez sejam “não cores”, pois o colorido vem dos rostos e corações do nosso povo.

O Corinthians não tem partido. É muito mais do que isso. O Corinthians é livre e plural. Mas o Corinthians certamente não é, não foi e jamais haverá de ser o clube da intolerância, da censura, da repressão, do ódio e do preconceito. Pois o Corinthians se fez sobre isso tudo. Nossa diversidade é nossa maior riqueza. Nossa democracia é mais do que um projeto, mas uma condição para nossa existência. Ainda quando estivemos reféns de regimes autoritários, seja no próprio clube, seja no país, seja também com as duas coisas ocorrendo ao mesmo tempo, dentro e fora do Parque São Jorge, o Corinthians permanece sendo livre, porque ele não pertence a ninguém. Pertence ao seu povo. Ele foi criado para isso mesmo. O Corinthians é a alma da nossa gente.

E se não fosse o desejo de liberdade e a capacidade de sonhar, esse clube jamais teria existido.

Liberdade pra você!

Vai Corinthians!

Veja mais em: Basquete e Parque São Jorge.

Coluna do Rafael Castilho

Por Rafael Castilho

Rafael Castilho é sociólogo, especializado em Política e Relações Internacionais e coordenador do NECO - Núcleo de Estudos do Corinthians

O que você achou do post do Rafael Castilho?