Presidentes e xingamentos

Rafael Castilho

Rafael Castilho é sociólogo, especializado em Política e Relações Internacionais e coordenador do NECO - Núcleo de Estudos do Corinthians

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Presidentes e xingamentos

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Opinião de Rafael Castilho

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Presidentes e xingamentos

Andrés Sanchez convidou torcedor detido para ver jogo no camarote da Arena

Foto: Rodrigo Vessoni/Meu Timão

Sim, eu sei que o amigo leitor desta coluna demonstra saturação de assuntos que transbordam ao jogo jogado dentro do campo. Que sente falta das prosas poéticas que falam da nossa relação amorosa, espiritual, metafísica e louca com nosso Sport Club Corinthians Paulista.

Isso é o terrível nos nossos dias. Não tá rolando de a gente viver a vida numa boa, como se nada estivesse acontecendo. Melhor mesmo seria ir ao jogo só pensando no jogo. Melhor mesmo é sambar, amar, beber uma cerveja no boteco. Melhor mesmo é jogar conversa fora. Aquele papo despretensioso, sem se sentir obrigado em ser coerente, nem tão pouco inteligente.

Mas é o que acontece em períodos excepcionais. Certas questões estruturais caem na nossa cabeça de cima pra baixo e nos vemos obrigados a lidar com elas. Vejam as escolas de samba no carnaval, com enredos mais politizados. Percebam as famílias, muitas vezes inflamadas com as posições políticas mais diversas. Amigos deixando nítidas visões de mundo diferentes. Vejam as redes sociais.

Pois é, não dá pra passar imune.

Não que exista algo que consiga fazer com que o Corinthians fique de escanteio na vida da gente. Mas estamos todos de alguma forma obrigados a se posicionar de algum jeito. Talvez seja esse também um grande problema. O brasileiro que sempre foi visto como “vaquinha de presépio” – sim, era assim que se falava antigamente, algo que nunca concordei – se viu obrigado a se posicionar e muitos de nossos fantasmas que estavam presos dentro de um baú foram libertados e emergiram.

Acreditem, quero mesmo que a vida volte ao normal. Os períodos de guerra são assim. Tudo o que ocorre no cotidiano nos obriga a levar em conta o que se passa na guerra e afetará o nosso futuro. Não vivemos uma guerra civil de fato, mas como tantas revoluções passivas da nossa história, esse nosso momento tem certas particularidades. Ocorre no topo da pirâmide. Uma disputa institucional impiedosa. Nós, os bestializados, pra utilizar os conceitos do historiador José Murilo de Carvalho, ficamos aqui embaixo esperando o desfile dos vencedores. Aguardando a acomodação das placas tectônicas dos interesses corporativos.

Não pensem que não leio os xingamentos que recebo nos comentários dos meus posts. Alguns sim conseguem me magoar. Mas procuro levar a vida a diante e fazer aquilo que acho correto.

Pois bem, vamos lá mais uma vez.

As pessoas xingam. Isso acontece. Aqui no site acontece muito. Mais ainda num estádio de futebol.

Um torcedor ser algemado e agredido dentro do estádio do Corinthians após xingar, ainda que seja o chefe maior do Estado brasileiro, é uma violência absurda. Permite que qualquer um se pergunte se realmente ainda vivemos em uma democracia. Cada dia é mais difícil acreditar na nossa democracia.

É uma falácia o argumento de que o torcedor foi “repreendido” por demonstrar comportamento inconveniente e conflituoso.

Ora, quem não sabe que o estádio de futebol é de fato o espaço de toda sorte de inconveniências. Não que as ofensas sejam desejáveis e agradáveis, mas efetivamente compõem o rito do jogo. Acho positiva a repressão em casos de xenofobia, racismo, entre outras manifestações de ódio. Porém, se ofensas como as proferidas pelo torcedor Corinthiano que se manifestou contra o presidente, merecessem o nível de reação demonstrado pelos policiais, os estádios virariam campos de concentração. Caso fosse necessária a repressão ao ato do torcedor (algo que por si só já considero absurdo), haveria outras tantas formas de fazê-lo que não fosse através de violência física.

Ofender, gritar, xingar, zombar, desfazer ou desmerecer os presidentes, chefes de Estado, reis, políticos e governantes não necessariamente significam atentados contra as pessoas desses chefes.

Trata-se de um ato político, mas também de uma expressão humana dos cidadãos em diferentes locais e tempos históricos.

Pensem no que é o teatro. Pensem nas diferentes manifestações artísticas. Pensem nos cabarés e tabernas franceses pré-revolução. Pensem nos palhaços. Pensem em quantas sociedades se manifestaram se desfazendo de seus soberanos. Até criaram uma palavra para esse comportamento. Chama-se irreverência.

É quase que uma necessidade fisiológica dos indivíduos. Fura o pneu do seu carro na rua da cidade e você manda o prefeito tomar naquele lugar. Ainda que não seja somente do prefeito a responsabilidade pela “gestão dos buracos”. O metrô atrasa e você xinga o governador. Seu salário acaba e você xinga o ministro da economia. Um líder político sabe conviver com isso. Sabe que faz parte do cargo. É como um juiz de futebol. Lembram quando xingaram a Dilma na mesma Arena Corinthians? Existiam todos os protocolos possíveis para uma abertura de Copa. A Dilma estava presente. Era uma senhora. Foi xingada por grande parte do estádio e ninguém apanhou por causa disso, ainda que o comportamento do público que ali estava tenha sido pra lá de inconveniente.

Vocês já são sabedores das minhas convicções. Eu considero sim que o Presidente da República tem realizado absurdos. Que tem feito com que parte da sociedade sinta essa necessidade física de se expressar com palavrões. Mais do que a média dos outros políticos que conhecemos. Essa é a minha opinião. Diferente de parte dos leitores desse site. Mas eu pergunto: ter opinião é crime? É assim que vamos resolver as coisas? A violência será a resolução dos nossos conflitos?

ANDRÉS

Vejam vocês. Eu que sempre sou crítico e me oponho a diferentes aspectos da gestão do Presidente Andrés Sanchez, sou obrigado a reconhecer a importância de seu ato. No jogo de hoje ele irá receber o torcedor que foi agredido no clássico do domingo. O torcedor estará ao seu lado no camarote da presidência.

Trata-se de um ato nobre e de grande valor.

Sim, faço questão de dizer isso.

Acredito que quando as boas atitudes não são destacadas, as pessoas não veem motivo algum para assumirem os custos das grandes ações e preferem ficar com as atitudes mais cômodas e sem riscos políticos. Sim, porque certamente o presidente irá ser criticado por muitas pessoas que o cercam.

A Arena Corinthians, embora já seja a casa do torcedor corinthiano, ainda é espaço de exclusão. Muitas iniciativas precisam ser tomadas para permitir que torcedores que hoje não conseguem ir ao estádio, tenham acesso por meio, principalmente, do aumento de oferta de lugares com preços populares.

Tomara que o gesto do presidente de solidariedade com o torcedor que foi agredido signifique também um processo de sensibilização com outras questões que afetam a vida do torcedor.

Veja mais em: Andrés Sanchez e Torcida do Corinthians.

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Por Rafael Castilho

Rafael Castilho é sociólogo, especializado em Política e Relações Internacionais e coordenador do NECO - Núcleo de Estudos do Corinthians

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