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Rafael Castilho

Rafael Castilho é sociólogo, especializado em Política e Relações Internacionais e coordenador do NECO - Núcleo de Estudos do Corinthians

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Corinthians conquista Mundial de Clubes de 2012 após vitória sobre o Chelsea

Foto: Divulgação/Ag.Corinthians

Por incrível que pareça, justamente naquela noite (ou seria aquele dia?) não gritei GOL! Eu só conseguia gritar ACONTECEU!

Foi o que escapou da minha garganta. Não havia pensado antes sobre isso e demorei algum tempo para me perguntar por que gritei ACONTECEU! logo após o gol do Corinthians no Japão, naquele 16 de Dezembro de 2012.

Depois de pensar muito, percebi que de imediato já havia me dado conta que se tratava de uma realização. Que eu experimentara um presente de Deus na minha vida. Na minha e de tanta gente.

Passados alguns anos percebo que foi de fato um acontecimento surpreendente. Quantos outros clubes sul americanos se aventuraram no Mundial da FIFA e não puderam superar a força dos cubes europeus. Houve inclusive quem sequer pode superar os clubes de outros continentes menos expressivos em termos de futebol.

Mas no meu grito de ACONTECEU! não habitava nenhuma rivalidade futebolística. Não fui para o Japão pensando em outros clubes. Movia-me apenas o amor pelo Corinthians. A verdade é que quando gritei ACONTECEU! estava falando muito pouco de futebol.

Era sobre algo existencial. Efetivamente era uma realização. Sim, a vida havia guardado aquilo para mim. Quantas coisas incríveis se pode esperar para a vida da gente? Creio que são muito poucas coisas absolutamente incríveis e mágicas. Coisas que você vê com seus olhos. Coisas que você experimenta. Acontecimentos gigantescos. De imediato eu percebi a grandeza daquele momento.

Deus me deu de presente aquele momento.

Pode parecer pouco para as outras pessoas. Posso parecer exagerado. Por isso digo que é algo existencial essa experiência que a gente vive em Corinthians. Essa sempre foi uma janela por onde aprendi a conhecer o mundo e a entender um pouco mais sobre a vida. Eu era um menino muito esquisito. Provavelmente continuo sendo até hoje. O fato é que o Corinthians me ensinou a me comunicar com o mundo. A falar com as outras pessoas. A compartilhar interesses. O Corinthians me preparou para a socialização. Me fez entender, como metáfora ou de maneira efetiva e real, muitas coisas do mundo.

O Corinthians sempre foi a borda do meu mundo pensado, imaginado, intimamente sentido e a realidade coletiva. O Corinthians não podia ser um sonho só meu. Não podia ser uma fantasia da minha cabeça, pois juntava milhões ao meu redor. Seria então um sonho sonhado por muita gente, tudo ao mesmo tempo. Nos estádios da vida eu abraçava pessoas reais que estavam vivendo o mesmo sonho que o meu. Quantas vezes enxerguei lágrimas nos olhos de outras pessoas enquanto lágrimas também escorriam dos meus. Certa vez gritei gols para um senhor sentado ao meu lado que me pediu para fazê-lo, pois tinha perdido as suas cordas vocais, por conta de um câncer.

Quantas vezes em estádios frios e em jogos não tão importantes eu pensei “ainda vou ver o meu Corinthians campeão do mundo.

No Rio de Janeiro eu já havia chorado como uma criança. Estava no Maracanã e aquilo havia sido mágico. Talvez tenha faltado aquele momento do gol. Mas já tinha vivido naquela invasão de corinthianos uma grande realização no ano 2000.

Não considero o campeonato conquistado no Japão, maior do que o primeiro conquistado no Rio de Janeiro. Porém, o segundo de alguma forma serviu como uma confirmação inequívoca do primeiro. Nenhum outro clube precisaria disso, mas nós precisávamos. Qualquer outro clube que tivesse vencido o mundial da FIFA no Brasil carregaria o título sem grandes problemas. Mas na nossa história sempre foi assim. Desde o primeiro campeonato quando acabaram com a liga, assim que o Corinthians se sagrou campeão e criaram uma liga separada, deixando o Corinthians de fora. O Corinthians quase acabou em 1915.

O mundial conquistado no Japão veio no último bom momento da economia brasileira. O período era bom, mas trouxe tantos transtornos sociais que um ano depois as pessoas saíram às ruas numa crise de infelicidade. A economia ia bem. Sejamos sinceros, isso ajudou para que ocorresse uma invasão tão grandiosa. Era muita gente. Tínhamos que vencer no Japão, pois éramos o clube “sem passaporte”. Daqueles que “só viajam em rodoviária”, que “não sabe sequer ir até ao aeroporto”.

Tudo bem, isso nunca nos incomodou. Sabemos muito bem quem somos e de onde viemos. Na partida do time para o Japão o aeroporto de Guarulhos foi tomado por uma legião de torcedores que diziam: “Vai com Deus, Corinthians”. Era como se fosse a viajem de avião para uma nova vida de alguém que amamos muito. E assim se faz nas famílias mais simples. Vai a mãe, o pai, os irmãos, os primos, tios, cachorro. Todo mundo pra dar tchau para quem amamos até que ele entre no avião.

Embora saibamos assumir numa boa a nossa simplicidade, as manifestações que cercaram a viagem do Corinthians para o Japão foram carregadas de imenso preconceito social. Quem não se lembra? Por isso também essa conquista foi carregada de imenso significado. Um significado que talvez não estivesse presente da mesma forma na viagem que fizemos ao Rio. Àquela altura a nossa sociedade estava intoxicada de preconceito, pois a recente mobilidade social trazia consigo uma miscelânea de sentimentos cravados em nossas raízes de sociedade hierarquizada, autoritária, baseada no prestígio, onde uns nascem para servir e outros para serem servidos.

O ano de 2012 foi mágico. Os Corinthianos passaram os últimos anos pensando. E se não tivéssemos caído em 2007? A história seria a mesma? E se não tivéssemos perdido para o Tolima? Sim, as tragédias, rupturas, furacões, terremotos também tem suas funções na natureza para que as coisas sejam hoje como são. E se o Corinthians não fosse eliminado no Campeonato Paulista para a Ponte Preta naquele ano? E se o Cássio não tivesse assumido o gol do Corinthians? E se ele não pega aquela bola contra o Vasco? E se o Paulinho não faz aquele gol de cabeça? Quem momento ele abraçando o torcedor no alambrado!

A minha cota de milagre aconteceu quando um dinheiro que já dava como perdido simplesmente voltou à minha conta corrente no momento em que eu mais precisava, mas que menos esperava. Sim, a gente tem os milagres pessoais e estabelece um enlace com os milagres que o Corinthians experimenta.

Estaria então reservada na minha vida aquela experiência? Eu seria tão abençoado a ponto de ver o meu time bicampeão do mundo no Japão?

O jogo já começou oferecendo toda sorte de milagres. Bolas incríveis. O anjo da guarda do Cássio estava lá. Nossos anjos da guarda desceram no gramado para apoiá-lo. Não é possível! Revejo os melhores momentos e não consigo entender como certas bolas não entraram. Era pro Chelsea ter começado na frente. Foram muitas as chances.

No começo do segundo tempo estava nervoso como nunca estive na vida. Meu couro cabeludo queimava. Estava muito nervoso. Chorei. Queria que meu pai estivesse comigo. O Corinthians voltou seguro de si. Foi envolvendo o adversário. Ganhando o campo do Chelsea.

A bola no pé do Chicão. Olhei para todo o gramado. Ele estava no campo de ataque e era o último homem da defesa. Cuidado, não erra esse passe. Lembrei por um segundo do passe que o Alessandro errou contra o Vasco. Para com isso, pense em coisas melhores. Vai Chicão, não erra esse passe, pelo amor de Deus. Quantas coisas passam na nossa cabeça em um segundo. Sim, ele acertou o passe. Mano do céu, olha o passe do Paulinho. Foi de chaleira? Boa, Jorge Henrique. Vai Paulinho, chuta, chuta. Danilo, puta que pariu. Vai, Danilo. Chuta. Faz, Danilo. Vai! Vai sobrar, sobrou. Vaaaai! Guerrero. ACONTECEU! ACONTECEU! ACONTECEU!

Deus guardou isso pra mim! ACONTECEU! Eu estou vivo e consegui ver isso que estou vendo! Estou no estádio. Sofri tanto com esse time, mas estamos aqui. ACONTECEU! A partida foi angustiante, poderíamos ter tomado o gol, mas conseguimos controlar o jogo e ACONTECEU! Vamos superar um time muito mais caro que o nosso.

Olho para o estádio. Vejo trinta mil almas corinthianas. O estádio em Yokohama balançando. Era noite, mas era dia no Brasil. Estaríamos mesmo no Japão? Que estádio é esse? Eu estou muito louco. Estou sonhando. Olha isso! É verdade, ACONTECEU!

O jogo acabou. Não posso acreditar. Risos e lágrimas. Só tinha um sentimento de gratidão dentro de mim. Só podia agradecer a Deus e não tinha muito mais o que pedir. Quero viver muito ainda. Gosto da vida. Mas naquele momento, a minha sensação era que eu já podia até morrer, porque acabava de viver algo incrivelmente fantástico e talvez suficiente para agradecer a Deus pela vida que ele me deu.

O hino do Corinthians tocava no estádio. O time fazia a volta olímpica. O hino tocava alto. Sim, eu estava ouvindo o hino do coringão tocar no estádio no Japão. O mundo era nosso. Eu me sentia grandioso. Começam os fogos. Já era quase fim de ano também. Fogos explodiam no céu e dentro do estádio. Papel picado. Era fantástico.

Fui talvez o último a sair do estádio. Tocava no concreto antes de ir embora. Queria me certificar que não era um sonho. Não era.

ACONTECEU!

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