Carta aberta ao presidente do Corinthians pela paralisação temporária dos jogos

Rafael Castilho

Rafael Castilho é sociólogo, especializado em Política e Relações Internacionais e coordenador do NECO - Núcleo de Estudos do Corinthians

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Carta aberta ao presidente do Corinthians pela paralisação temporária dos jogos

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Carta aberta ao presidente do Corinthians pela paralisação temporária dos jogos

O Corinthians pode não ser um Estado. Mas é sim uma nação.

Foto: Reprodução/Internet

Seu passado é uma bandeira, seu presente é uma lição.

Essa frase do hino do Corinthians não é algo banal. Não foi colocada por um acaso no meio da letra, no meio da canção.

Quando dizemos que o passado do Corinthians é uma bandeira, damos a justa medida da importância histórica da nossa amada instituição. Não somos somente um time de futebol. Somos uma bandeira a ser hasteada nos momentos de glória e também nos momentos mais importantes da nossa história. Significa que somos um símbolo, uma representação, um instrumento, uma força. Significa que nosso passado é a maior indicação de quem somos.

Como o hino foi composto por Lauro D’Ávila em 1952, o passado ao qual ele se referia, era a fundação e formação do nosso Corinthians, fruto do esforço coletivo de seu povo que construiu o clube de futebol mais relevante, importante e original do mundo.

Certamente, entre outras coisas importantes na nossa formação, Lauro olhava para eventos como a mobilização de seus associados e torcedores para enfrentamento da crise da Gripe Espanhola, há um século. Embora a gripe não fosse necessariamente espanhola, o Corinthians sempre teve a participação efetiva da comunidade espanhola na Cidade de São Paulo que adotou esse clube como seu. Até porque, eles não tinham um grande clube como instrumento de representação àquela altura. Muitos eram chamados de sucateiros ou de carroceiros. Do mesmo modo o Corinthians foi adotado por judeus, árabes, japoneses, portugueses, retirantes nordestinos, mineiros, além da presença tão marcante da comunidade italiana, além de todos os povos que se identificavam com a formação do Corinthians. Com essa bandeira do passado que se fazia uma lição em seu presente. Hoje somos o clube dos bolivianos, haitianos, entre tantos refugiados que se equilibram nessa selva de pedra.

Mas por que se faz necessário dizer tudo isso? Para que recuperar toda essa história? O Corinthians sempre foi o clube dos vulneráveis. Foi esse povo, fundamentalmente, que construiu o Corinthians. Sempre foi missão e dever do Corinthians expressar, representar ser uma continuação da história de vida de sua gente. Aliás, essa gente corinthiana já não vive apenas nas quebradas ou bairros ricos da Cidade de São Paulo. Vive também nas quebradas e bairros ricos de diferentes cidades do Brasil e também do mundo. Bom que se diga, embora muita coisa tenha mudado, ainda estamos mais para as quebradas do que para os bairros chiques. E mesmo quem subiu na vida, guarda em seu corinthianismo a marca indelével de que carrega dentro de si a miscelânea do povo brasileiro.

Pois bem, é esse nosso povo que está morrendo já sem leitos nos hospitais. Essa nossa gente que tem chorado seus mortos, muitas vezes sem poder sequer velá-los e se despedir. Esse nosso povo que vive angustiado agora fazendo orações, pedindo para que seus amores sobrevivam a esse momento. Quem de nós não viveu a angústia de perder alguém querido? É nossa gente que está nesse momento em leitos de UTI, entubados, acordando desesperados já sem medicamentos. Poderia ser cada um de nós, deitado numa maca, imaginando que nunca mais veremos nossos familiares e nunca mais ver o nosso Coringão jogar.

A questão do enfrentamento à pandemia, não deveria sequer ser motivo de debates. Não deveria ser coisa de quem é a favor ou contra. A politização do tema foi um ato criminoso e fatal para a vida de milhares de pessoas. O enfrentamento dessa crise deveria ser, antes de tudo, técnico, não motivo de aposta política.

Seu presente é uma lição! Sim, corinthianos, mesmo convivendo com trancos e barrancos em sua história, mesmo conciliando o atraso que permeia diferentes momentos do Corinthians, sempre houve espaço para a renovação, para a transformação, para a inovação, para que o Corinthians seja efetivamente uma lição para a nossa sociedade.

A interrupção temporária dos jogos é uma necessidade sanitária. Não são apenas atletas e comissão técnica que se aglomeram e se deslocam para as partidas de futebol. A chamada “cadeia produtiva”, é composta por centenas ou até milhares de pessoas, muitas vezes precarizadas.

Sim, seres humanos que precisam trabalhar, que precisam garantir o sustento de suas famílias, não tenha dúvida que o momento é mais do que dramático. Porém, nada pode ser mais importante do que a vida. No mais, o fato de não haver programas sociais excepcionais, ou mesmo programas de apoio ao empreendedor, que possam atender o volume e necessidade desse momento, não deveria servir como uma autorização tácita para a guerra pela vida e a morte entre os seres humanos. Deveríamos perseguir a civilização. O Estado existe como figura construída pela humanidade justamente para tenhamos um instrumento coletivo, que atenda aos seus integrantes e evite a guerra de todos contra todos. Para que não estejam todos jogados à própria sorte, pois os indivíduos e suas vidas também são parte integrante de uma nação.

O Corinthians pode não ser um Estado. Mas é sim uma nação.

Em que pese a nossa situação financeira desastrosa, e tal qual as UTI do país, pré colapsada, o Corinthians deveria dar o exemplo e não jogar o campeonato nessas condições. Isso é um prejuízo histórico e uma mancha na nossa trajetória. Mais do que a questão sanitária, trata-se se um exemplo, de uma sinalização para nossa sociedade.

Ano passado fui eleito como conselheiro trienal do Sport Club Corinthians Paulista. Certamente uma grande honra que espero ser merecedor e estar à altura da responsabilidade. Justamente por isso, não creio que devo me omitir numa situação como essa.

No exercício do cargo, encaminho, respeitosamente, ao Sr. Presidente do Conselho Deliberativo e o Sr. Presidente do Sport Club Corinthians Paulista este sincero manifesto.

Embora tenha sido eleito por uma chapa de oposição, não considero que isso seja o mais relevante nesse momento. O presidente vem de uma família com importância histórica no Corinthians e tem em sua formação a chama da Democracia Corinthiana. Desejo sorte ao presidente e, sinceramente, deixo de lado qualquer tipo de disputa política e clamo ao Presidente Duílio que se sinta apoiado para tomar uma decisão que tem um peso gigantesco, algo do tamanho do peso que é ser Presidente do Corinthians. Fazer do presente do Corinthians uma lição!

Certamente não estou só nesse momento e terei outros amigos conselheiros que se juntarão a mim nesse manifesto.

Caso os jogos continuem, sugiro aos organizadores do evento que suspendam aquele minuto de silêncio “em respeito às vítimas do Covid-19”. Trata-se de um momento que não pode ser entendido de outra forma, senão pela marca da hipocrisia que, infelizmente, tem marcado nossa sociedade.

Carta aberta ao presidente do Corinthians, assinada pelo colunista, pedindo a paralisação temporária dos jogos, levando em conta o agravamento da crise do Covid-19.

Veja mais em: Duílio Monteiro Alves e Pandemia do coronavírus.

Este texto é de responsabilidade do autor e não reflete, necessariamente, a opinião do Meu Timão.

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Por Rafael Castilho

Rafael Castilho é sociólogo, especializado em Política e Relações Internacionais e coordenador do NECO - Núcleo de Estudos do Corinthians

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