Para acabar com as travessuras

Walter Falceta

Walter Falceta Jr. é paulistano, jornalista, neto de Michelle Antonio Falcetta, pintor e músico do Bom Retiro que aderiu ao Time do Povo em 1910. É membro do Núcleo de Estudos do Corinthians (NECO).

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Para acabar com as travessuras

O melhor futebol do mundo: corinthianismo em mais um dia no Jardim Belval.

Foto: Arquivo Pessoal

Você, mais jovem, talvez não saiba, mas a história mostra que o Juventus, o Moleque Travesso da Mooca, sempre foi uma pedra na chuteira corinthiana.

Particularmente, me lembro de uma disputa em 1974. Vínhamos de uma goleada por 5 a 0 sobre o América de São José do Rio Preto, pelo Paulistão, sucedida por uma vitória por 1 a 0 sobre o Marília, em um amistoso.

Naquela época, tudo contava e cada derrota doía. Afinal, eram 20 anos de jejum, sem faturar o título estadual.

Éramos esperançosos 22 mil fiéis no Pacaembu, em 14 de agosto, quando a pedra doeu no pé. Nosso time com os craques Zé Maria, Wladimir e Rivellino sofreu diante dos grenás.

Tomamos um 2 a 0 chato, seco, gols de Tata e Ziza. A pequena torcida adversária fez troça feia de nós.

Fiquei apreensivo, pois a partida seguinte seria justamente contra nosso maior rival, o Palmeiras. Se tínhamos sofrido derrota diante do Juventus, como suportar o time de Leão, Luís Pereira, Ademir da Guia e Leivinha?

Bom, metemos 3 a 1 nos verdes, num hat-trick do ágil e desengonçado Zé Roberto. Enfim, me convenci de que o jogo anterior tinha sido apenas mais uma travessura da turma do Cotonifício Crespi.

Dali, rumamos para conquistar o título do primeiro turno do certame paulista.

Mas falemos de Copa São Paulo, disputa que opôs, neste domingo, os mesmos rivais. De cara, bateu aquela incômoda dúvida: será que aprontarão hoje?

Afinal, mostravam-se animados os torcedores juventinos na Arena Barueri. Era um grupo compacto, parte dele torcendo à moda Argentina, juntinhos, cantando sem parar. Desfraldaram bandeiras sem mastro e tiveram a ousadia de acender sinalizadores no início da partida.

Aí, retornou aquele que chamei de “melhor futebol do mundo” na coluna anterior. Que se entenda a metáfora: é para destacar, com licença poética, o jogo livre, leve, solto e talentoso da garotada da Copinha, sobretudo dos nossos juniores.

Como ocorrera na partida contra o Flamengo, as deslocações eram céleres, de lado a lado, os pés de ferro se sucediam, corriam os atletas com máximo vigor. Espetáculo que agradava os olhos, que aquecia a alma.

Demorou o primeiro tento, finalmente anotado por Carlinhos, aquele que os cartões tiraram da partida contra o rubronegro carioca. Foi o décimo do nosso matador.

Veio o segundo tempo e logo varamos a meta adversária novamente, em gol de Marquinhos, depois do arremate de Oya defendido pelo arqueiro Omena.

Parafraseando-se Julio Ribeiro, da agência Talent, a serviço da Semp Toshiba, arrisco dizer que nosso japonês é dos melhores. E vimos o camisa 10 nipo-brasileiro estufar o barbante e decretar o terceiro gol mosqueteiro.

O Corinthians seguiu encantando a torcida, no acerto já maduro e também no erro que é filho da vontade. Os meias e atacantes avançavam ziguezagueando pela retarguarda juventina, exibindo talento e habilidade. Trombavam aqui, tramavam ali, aprendendo, como convém à lira dos 20 anos.

De repente, a torcida cantou alto: “P..., que legal, se a base fosse o profissional”. Tem razão a nossa galera, que tanto sofreu com o time de 2016 e que não viu com bons olhos o malogro do time principal na Florida Cup.

Houve, então, aquela bicicleta de Romão na área dos grenás. O árbitro não gostou e, no segundo amarelo, enviou-o mais cedo para o chuveiro.

Sentimos a falta do lateral esquerdo, mas a garantia veio da compactação defensiva. Jogo bonito e sério dos nossos zagueiros barbudos. Chega de travessuras.

Fim de jogo. Lembrou um pouco aquele timão corinthiano campeão da Copa São Paulo de 1999, que alinhava bambas como Kleber, Gil, Ewerthon, Fernando Baiano e Edu.

Bonito também ver a apaixonada torcida juventina apoiando seu clube. Recupera-se uma tradição. Que ela inspire uma nova modernidade. Faz bem ao futebol brasileiro.

Agora, é retornar à vida comum dos trampos e tarefas. É concentração para enfrentar a segundona. A massa de 11 mil serpenteia pela Rua da Bica, entre o Jardim Belval e o Jardim Maria Cristina. Tem a galera que divide a breja final. Tem o casal de namorados que, na caminhada, troca o beijo romântico.

Do lado direito de quem sobe em direção à Avenida Gupe, paralela à rodovia Castelo Branco, há uma pilha fantástica de residências trabalhadoras, muitas delas na cor provisória do tijolo. Veem-se aqui e ali bandeirinhas do time do povo, despontando alegres de janelas de luzes tênues e amareladas.

Lá no topo, vultos de moleques se agitam, sob uma casa de muitos andares, encarapitada quase nas nuvens. Dentro dela, uma Kombi enferrujada de mil anos, peças de automóveis e sonhos, muitos sonhos da periferia.

A gente vai para casa. Todos nós. Mas o melhor futebol do mundo continua. Quarta-feira tem mais.

Coluna do Walter Falceta

Por Walter Falceta

Walter Falceta Jr. é paulistano, jornalista, neto de Michelle Antonio Falcetta, pintor e músico do Bom Retiro que aderiu ao Time do Povo em 1910. É membro do Núcleo de Estudos do Corinthians (NECO).

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