Essa GSP é puro golpe, vejam isto
Mina de ouro secreta e dívidas de 182 anos atrás. Empresário que se disse TRILIONÁRIO promete ajudar o Corinthians
Só falta combinar com os astecas
Demétrio Vecchioli do Prado -
Aug 22,2025
O jornalismo declaratório, pra mim a grande praga da imprensa brasileira, atingiu um novo patamar ontem, quando um candidato à presidência do Corinthians disse que, se ele ganhar, um investidor colocará US$ 1.000.000.000,00 no clube. São 11 zeros e um bilhão DE DÓLARES.
Mas André Castro não só disse. Ele provou. Matou a cobra e mostrou o pau. Exibiu para quem quisesse ver uma carta assinada pelo GSP Bank assegurando o investimento e explicando o que faz a empresa, uma “instituição financeira com áreas de atuação internas e externas”.
Acontece que o GSP não é banco, ainda que esse seja o menor dos problemas. Não faz a menor diferença se quem está prometendo o investimento é um banco, uma factoring (já explico), um posto de gasolina ou o boteco da esquina. Se a firma não tiver US$ 1 bilhão para investir nem reputação para tomar isso em crédito, é mentira.
O que faz (em tese) o GSP Bank? Ele é uma factoring, uma empresa que (supostamente) vive de comprar duplicatas. Funciona assim: eu tenho uma fábrica de roupas que vende para um gigante do varejo, que compra um lote de camisas e promete me pagar em 90 dias. Emite, então, uma duplicata.
Eu quero dinheiro na mão rápido e, ao invés de esperar, vou numa factoring e vendo essa promissória por um valor abaixo do de face (tipo 90%). Fico com a grana e a factoring com o risco de o comprador, daqui a 90 dias, não pagar. Como não é um empréstimo, isso não é regulado pelo Banco Central. E quem faz isso não é banco.
O GSP faz um pouco diferente, conforme documentos que eu consegui acessar. O banco “coleciona” (não tem outro termo) duplicatas podres, que jamais serão pagas.
Um exemplo: o GSP diz ter a receber R$ 583 milhões por oito Bonos Oro emitidos em 1935 pelo Paraguai. Durante a Guerra do Chaco (um confronto bélico com a Bolívia), o governo paraguaio confiscou bens dos habitantes e, em troca, emitiu essas promissórias, que nunca foram pagas.
É uma relíquia legal, dá para comprar uma dessas por R$ 650 no Ebay. Mas tem uma pequena diferença para os R$ 58 milhões que o GSP diz que vale um papel desses, né?
E o que dizer então para a fortuna de R$ 1.560.000.000,00 — R$ 1,56 bilhão — em oito títulos do tesouro mexicano emitidos em 1843, chamados Águia Negra.
Esse de fato é um papel caríssimo, se for verdadeiro (o que precisa ser atestado por peritos). Achei um para vender por R$ 1 milhão, o que é uma baita grana para um papel velho, mas o tal GSP diz que o negócio vale R$ 200 milhões CADA UM.
Até a IA do Google sacou que é golpe quando eu pesquisei sobre os papeis.
A empresa também diz, num dos documentos que obtive, que é dona de um patrimônio de R$ 3 BILHÕES (desta vez vou te poupar dos algarismos) porque “descobriu, em uma propriedade da companhia em Xinguara-PA', uma MINA DE OURO” com avaliação estimada neste valor.
Quem sou eu para duvidar que alguém que já era bilionário deu a sorte de achar uma mina de ouro bem no seu terreno no meio do Pará. Só tem dois probleminhas:
1) não existe registro de que exista uma mina de ouro em Xinguara
2) uma mina de ouro é propriedade do estado; o dono da terra só recebe royalties
De forma geral, o patrimônio da GSP é um pouquinho inflado. Dou outro exemplo: dezenas de títulos da Eletrobrás, que, ao longo dos anos, tomou empréstimos compulsórios dos clientes para expandir as redes. O “banco” diz ter esses papeis da década de 60 e que eles valem coisa de mais de R$ 15 milhões cada um, somando mais de R$ 1 bilhão em valores que deveriam ter sido sacados há mais de 50 anos.
A grosso modo é igual quem tem moeda de R$ 1 da Olimpíada do Rio em casa (você tem, diz aí) e acha ser possuidor de um item de coleção, que vale R$ 50 cada um. Se eu tenho 20 dessas daí, tenho R$ 1 mil em casa, só valorizando com o tempo…
Acontece que todo dia (literalmente) 10 pessoas colocam uma moeda dessa para vender no Enjoei, e ninguém compra. Ela só vale 1 real mesmo, pode usar para pagar o busão — as seis moedas que antes pagavam duas viagens, agora pagam só uma, você deveria ter usado antes.
Voltando ao Coringão. Não dá para saber qual o real patrimônio do tal GSP hoje. Primeiro pela falta de dados mais recentes (os que eu encontrei vão até 2019). Segundo, pela absoluta falta de credibilidade dos dados já apresentados.
Deixo o melhor para o final.
segundo o último “balanço (cete)” — sabe-se lá que raios isso significa —, o GSP tem um patrimônio de:
QUASE UM TRILHÃO DE REAIS
Você não leu errado, eu não escrevi errado. O GSP tinha, em 31/dez/2018, quase UM TRILHÃO DE REAIS em patrimônio líquido. Mais exatamente R$ 949.651.340.507,94.
Disso, só R$ 1,7 milhão estava disponível, no caixa e no banco. O resto era uma MINA DE OURO e duplicatas a receber. De onde vem esse valor de R$ 946 bilhões em duplicatas? Infelizmente o balanço (cete) (risos) não diz, apenas cita algumas promissórias, tipo a mexicana, a paraguaia, e a da Eletrobrás.
Os números não foram auditados, mas o sr Paulo Carrasco garante que dá pra confiar.
Alguém, por favor, avisa a Forbes que ela, portanto, errou na lista dos mais ricos do mundo. Que Eduardo Saverin que nada. Os US$ 34 bilhões do fundador do Facebook, líder do ranking brasileiro, são dinheiro de pinga perto do patrimônio do empresário Carlos César Arruda, que já se tornou o primeiro trilionário do mundo só com a inflação desde esse balanço de 2018.
Sorte do Corinthians, que vai receber uma migalha desse dinheiro, US$ 1 bilhão.
Só precisa esperar mais uns 180 anos para o governo mexicano pagar aqueles títulos de 1843. Mas quando isso acontecer, ninguém segura o Timão!
Gostou? Vou escrever mais por aqui. Me segue aí para dar aquela moral.
GOLPE DO MAIS SEM VERGONHA.
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