Especialistas debatem sobre implementação da SAFiel no Corinthians
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Por Meu Timão

A SAFiel visa reestruturar a administração política e financeira do Corinthians
Maria Beatriz de Teves / Meu Timão
Na última terça-feira, a SAFiel foi lançado oficialmente com a proposta de ceder ao Corinthians um novo modelo jurídico. A ideia dos idealizadores do projeto é equacionar as dívidas do clube por meio de uma implementação de SAF (Sociedade Anônima do Futebol), onde a própria torcida poderia comprar cotas de investimento e ter poder político indireto dentro do clube. O economista Moises Assayag, sócio-diretor da Channel Associados e especialista em reestruturação financeira de clubes, apontou que para o modelo dar certo, será necessária uma ruptura total no sistema administrativo do Timão.
“A nova instituição não deve ser uma simples continuação da estrutura anterior, no que toca aos modelos de gestão e de governança. Ao contrário, deve representar uma evolução corrigindo o que não deu certo e preservando o que funcionou”, disse.
O atual modelo vigente é o de clube estatutário, com comando direto de diretores e conselheiros eleitos por um colégio eleitoral bem pequeno e voltado somente para a sede social do clube. Esse modelo antigo detém um forte jogo político e tem sido alvo de crises no Parque São Jorge. A mudança para uma SAF causa um certo medo pela história popular do Corinthians: o clube ter um único dono empresário seria um afronta às raízes de sua origem.
No entanto, a SAFiel tem uma proposta de que esse "dono" seja a própria Fiel torcida. O Corinthians seria dividido em cotas de investimentos, com torcedores comuns, investidores profissionais e empresas podendo fazer aporte financeiro e parcerias, consequentemente, também tendo decisões na administração do clube. A ideia é bem parecida com o que faz o Bayern de Munique, da Alemanha, nos dias de hoje.
“O Bayern é um caso relevante de atração de capital, mantendo vínculos com a instituição e com parceiros históricos. Transparência e alinhamento de objetivos são fundamentais para o sucesso”, apontou o economista Assayag.
A SAFiel, no entanto, enfrenta uma barreira. No anteprojeto de reforma do Estatuto (uma prévia do projeto oficial, que será votado em novembro pelos conselheiros e em dezembro pelos associados), a Comissão de Reforma previu que, mesmo em uma eventual implementação de SAF no Corinthians, o clube estatutário ainda seria dono de, no mínimo, 51% do capital social. O CEO e idealizador do projeto, Carlos Teixeira, vê essa medida como um empecilho para a implementação do modelo proposto. No entanto, é importante ressaltar que o próprio Bayern também funciona nesse sistema de "50% menos um" para os investidores.
Quanto ao modelo político do projeto — veja aqui —, o objetivo da SAFiel é romper clube social e futebol para profissionalizar a gestão. É previsto a contratação de um CEO e a ruptura dos Conselhos fiscalizadores do clube, onde o próprio torcedor-investidor poderia decidir quem são os conselheiros. O advogado Cristiano Caús, especialista em direito esportivo, entende que o projeto está alinhado à lei, mas faz uma ressalva justamente quanto ao poder de decisão desses torcedores-investidores.
"A SAFiel precisará estruturar salvaguardas jurídicas, como acordos de voto e ações com veto (‘golden share’), garantindo que a pluralidade democrática não se transforme em paralisia decisória”, afirmou Cáus.
Na visão do advogado, há um risco de que esse poder não consiga se pulverizar como a idealização dos criadores da SAFiel. O "golden share", como mencionado, é quando um grupo especial, mesmo que não tenha a maioria do capital social da empresa, pode vetar decisões e controlar a estratégia. Ao Meu Timão, Carlos Teixeira e Eduardo Salusse, idealizadores do projeto, garantiram que o poder de voto e decisão seria pulverizado; ou seja, democraticamente dividido entre os investidores. Isso seria necessário para que o modelo não se torne elitizado.