Derlys Acosta
“Saravá, saravá, salve o Santo Guerreiro, e uma vela
Pra saudar meu São Jorge padroeiro.'
Poucos momentos na arquibancada corintiana são tão emblemáticos quanto aquele em que a torcida toda estende os braços e, girando as mãos de um lado para o outro, reproduz em coro, e por duas vezes consecutivas o canto acima. E não para por aí, logo após vem a hora de pular, saltar o mais alto possível e simultaneamente cantar “mulher, mulher, mulher, ô, ô, quem te viu e quem te vê, alô, alô, o que embaça, se perdeu, virou fumaça, ô liberdade, liberdade pra você”. E como não poderia faltar, aquele peculiar final, em que cada um dá a sua versão, mas no original seria “é um raro prazer, sabor de emoção, mas não abuse que faz mal para o coração (e para o pulmão)”. Talvez na sua cabeça você tenha cantado de uma outra forma, porém isso deixo a seu critério, entretanto uma coisa não dá para negar:
Que emoção.
Acredito que você já saiba, mas esse grito vem de uma adaptação da torcida para o estádio de um dos mais famosos sambas-enredos da escola de samba gaviões da Fiel, “A Saliva do Santo e o Veneno da Serpente”, criado para o Carnaval de 1994 e que trouxe um (até então) inédito vice-campeonato. Para quem se lembra, foi uma apuração extremamente polêmica, para não dizer outra coisa, sendo que a escola recebeu uma nota 6 por melodia e
A bateria, Ritmão, o coração da escola, recebeu uma inexplicável nota 7. Mas, com a costumeira superação, em 1995 veio a redenção, e cantando o inesquecível “Coisa boa é para sempre” (“Me dê a mão, me abraça, viaja comigo para o céu”), trouxe para o Bom Retiro o primeiro dos 3 troféus do carnaval paulistano.
Que saudades.
Mas agora, em 2019, comemorando os 50 anos da agremiação carnavalesca e os 25 anos do samba-enredo das arquibancadas, a gaviões resgata o canto e, assim como em 94, será a última escola a entrar na avenida, no derradeiro sábado de apresentações, já no clarear, melhor dizendo, do domingo, porém nada que prejudique a promessa de colocar fogo no Anhembi, contando, claro, com o apoio mais que certo da incansável torcida e de você, que estará desfilando, cantando na arquibancada ou, ainda, vibrando pela TV. Sei que talvez você não goste muito de misturar futebol e carnaval, eu mesmo confesso que tenho minhas restrições, mas o desfile tem tudo para ser tão histórico quanto às glórias alvinegras.
Que expectativa.
Adentrando um pouco à letra, que conta a história do tabaco, tem-se logo na introdução uma das mais emblemáticas histórias muçulmana, entoando “Meu Santo é forte e não adianta me picar, sou gavião e você pode acreditar que não aceito traição, e o veneno da serpente eu transformo em semente, é o tabaco em plantação”. Reza a lenda que Maomé, caminhando por uma estrada, acolheu em seu peito uma serpente que passava frio, visando esquentá-la. Após sua recuperação, em um ato de traição, o réptil mordeu o braço do profeta, injetando o veneno em seu corpo. De imediato, visando recuperação, o homem jogou a cobra longe, colocou a boca na ferida, sugou a peçonha e cuspiu na terra. E assim, da união dA Saliva do Santo e do Veneno da Serpente floresceu o primeiro pé de tabaco.
Que peculiar.
E prosseguindo com os acordes, referências a outras culturas é o que não falta nesse primoroso samba, passando pelo já citado islamismo, chegando à nobreza parisiense, viajando para os terreiros da Bahia e, até mesmo, reverenciando o onipresente São Jorge, venerado nas igrejas Católica, Ortodoxa, Anglicana e nas mais diversas religiões de matriz africana.
Que pluralismo.
Ah, e não se engane, não existe “é uma santa com dores”, e sim “Erva santa curou dores”. Você não pode errar na hora de cantar, seja sambando com a escola de samba, seja na arquibancada empurrando o time. Mas se quiser cantar errado, também pode, não são as palavras que te fazem mais ou menos Corinthians.
Que torcida.
Saudações, corint(h)ianas!
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