A contratação de Memphis Depay pelo Corinthians gerou uma via de mão dupla. Apesar de ser um dos principais atletas do elenco, a dívida do clube com o atacante holandês já ultrapassa a casa de R$ 23 milhões devido a metas e bônus contratuais. Em entrevista ao Tabelando, programa do Meu Timão no YouTube, Vinícius Cascone, atual conselheiro trienal, secretário geral do Corinthians na época da chegada de Memphis e, posteriormente, diretor jurídico durante a gestão de Augusto Melo, defende que o clube tinha um plano para pagá-lo e que a contratação foi, sim, benéfica para o Timão.
“Qual é a situação que a gente estava? A gente estava à beira do rebaixamento. Essa é a verdade, a gente estava flertando com o rebaixamento. Quanto custava o rebaixamento para o Corinthians? Quantos milhões de reais custaria o rebaixamento para o Corinthians? Começa por aí", apontou o ex-dirigente.
No começo de setembro de 2024, o Corinthians brigava para não cair no Brasileirão e, ao mesmo tempo, fazia movimentações no mercado para reparar os danos esportivos. Por meio de uma cláusula com a Esporte da Sorte, que permitia bonificação na contratação de um grande astro, Memphis chegou como o craque que poderia tirar o clube daquele caos instaurado pelos maus resultados. E, segundo Cascone, a solução foi eficaz: o Timão conquistou uma sequência de nove triunfos consecutivos na competição e chegou até mesmo à Pré-Libertadores.
"A gente não tinha dinheiro para comprar jogador naquele momento. Então, a gente buscou um jogador livre, fez conta para isso, e pensou metade do Esportes da Sorte. A chegada do Memphis fez com que todos os jogadores evoluíssem. O Yuri se estabilizou, o Garro se potencializou, o próprio Hugo (Souza) explodiu. Aquele ambiente foi muito favorável. A diferença entre 14º e sétimo (posição que o Timão estava e posição que ficou após a chegada do astro) foi de R$ 25 milhões", Cascone justificou os benefícios da chegada do holandês.
"O Corinthians não estava classificado para a Copa do Brasil no ano passado. Quanto o Corinthians ganhou de prêmio na Copa do Brasil esse ano? Essa conta tem que ser feita. Nós fomos para a Pré-Libertadores, não estávamos. Então, se a gente somar o que foi isso, se a gente discutir uma série de benefícios intangíveis, que ninguém vê... Quantas crianças será que potencialmente decidiram ser corinthianas pela chegada do Memphis? A chegada do Neymar ao Brasil foi ofuscada pela presença do Memphis. Então, quanto valeu isso financeiramente para o Corinthians? Quanto o Yuri valorizou financeiramente no Campeonato Brasileiro? Foi artilheiro do Campeonato Brasileiro. Quanto o Garro valorizou? Nós tivemos propostas altíssimas", completou.
Todavia, a crescente crise financeira do clube fez com que a contratação anunciasse problemas. A temporada de 2025 voltou a ser caótica não só pelos resultados esportivos, mas também pelos problemas políticos e financeiros do Corinthians. Uma reunião da diretoria atual com o Cori, em outubro de 2025, revelou que a dívida do clube, só com Memphis, é de R$ 23 milhões . Os conselheiros queriam ouvir de quem participou da contratação, incluindo Fabinho Soldado (que foi blindado naquele momento), de como foi feito o planejamento para custeá-la.
Por que o Corinthians não conseguiu pagar Memphis se o planejamento estava devidamente traçado?
O Corinthians ainda deve R$ 23 milhões a Memphis por metas e bônus contratuais
Jhony Inácio / Meu Timão
Segundo Cascone, não há uma certeza de que o planejamento da contratação foi seguido à risca. O ex-diretor jurídico apontou que o dinheiro da Esportes da Sorte destinado à chegada de um craque estava condicionado 100% a Memphis e que, mesmo com o acréscimo na folha salarial, a negociação se tornaria possível. Porém, ele não deixou de evidenciar que a própria pendência com o holandês é originada, além da falta de recursos em caixa, de um problema recorrente no Corinthians: a crise política do Parque São Jorge.
"Agora, nós temos que lembrar a crise política que o Corinthians instalou. E aí, a culpa é de todos nós, né? Realmente, isso joga pra baixo tudo. Não sei (se o dinheiro da Esportes da Sorte destinado ao Memphis foi utilizado para pagar outras contas). Primeiro, que o Corinthians tem um caixa único, o dinheiro cai lá dentro. Vamos ser sinceros, tem um monte de dívidas, no ritmo que nós acumulamos dívidas nos últimos dez anos, faz com que você tenha, muitas vezes, ali, que escolher pagar a dívida do dia. Vocês estão entendendo? E essa história dos juros de um milhão de reais por dia, que até hoje está altíssima no país, faz com que a gente tenha um estrangulamento do caixa, do fluxo de caixa diário", apontou Cascone.
"Só que a chegada do Memphis também trouxe novas receitas para o Corinthians. Acontece que, infelizmente, em dezembro de 2024, após aquela arrancada histórica do Brasileiro, a gente mergulhou nessa crise política. Mais do que já estava. Isso virou uma bola de neve que realmente afeta o caixa. E eu não estou culpando o gestor financeiro até agora por não ter pagado, não é isso. É que, às vezes, ele tem que escolher a dívida que vai pagar. Essa é a realidade. Nós temos mais débitos do que crédito para fazer mensalmente, porque os juros estão nos consumindo", disse.
Qual é o grau da atual dívida geral do Corinthians?
O Corinthians deve cerca de R$ 2,7 bilhões no total
Rodrigo Vessoni / Meu Timão
Com o que presenciou em seu tempo de gestão como diretor jurídico, de setembro de 2024 até o afastamento de Augusto Melo, em maio, Cascone entende que as dívidas antigas do Corinthians se tornaram uma bola de neve no Parque São Jorge. Segundo ele, o clube paga R$ 350 milhões anuais somente de juros das dívidas, o que corresponde a mais de um terço da arrecadação total.
"Pagar R$ 350 milhões de juros em um ano é mais que um terço do orçamento. Não é um bilhão de reais o nosso orçamento. De fato, se você pegar ali, nas minúsculas e descer, e espremer, vai dar R$ 800, R$ 900 milhões. Quase metade do seu orçamento está indo embora com os juros. É aquele efeito cascata. O fato é que, em 2024, eu presenciei isso enquanto secretário-geral, enquanto diretor jurídico depois, uma avalanche de execuções judiciais de contratos de agentes que vieram com tudo e que estrangularam o caixa do Corinthians. Nós não estamos falando de dívida de um milhão ou de dois milhões. Estamos falando de R$ 30, R$ 40 milhões", ponderou Cascone.
Uma solução feita ainda na gestão de Augusto Melo foi colocar as pendências no Regime Centralizado de Execuções (RCE), que nada mais é que uma adequação legal que favorece o controle de dívida e alivia, justamente, o fluxo de caixa citado. Cascone aponta que só isso não é o suficiente. O ex-dirigente entende que o clube precisa "tomar um remédio amargo" e cortar gastos. Além disso, deve realizar ações para angariar receitas. Ele utilizou o exemplo da captação de base neste sentido.
"Para mim, nosso modelo de base precisa ser completamente reformulado. E eu vi o exemplo do Independiente Del Valle, dentro do Equador, e fiquei espantado. Usar nossas escolinhas de futebol, não para vender uma franquia simplesmente, para você ficar cobrando mensalidade de aluno, mas talvez estimular as escolinhas a captarem atletas para o Corinthians. Buscam atletas, muitas vezes, que não têm condição nem de pagar a mensalidade. Mas a gente pode premiar a escolinha que traga um atleta para jogar no Corinthians, que passe no teste aqui, e pagar algo para essa escolinha, premiar para captar um jogador ali, bruto, sem a gente, sem interferência de terceiros. Não estou desrespeitando o trabalho dos agentes, mas muitas vezes eles jogam um jogo ali de botar os atletas que eles querem colocar em cada base", exemplificou.
De acordo com o último balancete financeiro divulgado , o Corinthians já concentra R$ 2,7 bilhões de dívida entre passiva (aquela que vence somente em um longo período de tempo) e ativa (que precisa de resolução rápida). A pendência da Neo Química Arena, que o clube tenta arrumar uma solução junto ao credor Caixa Econômica Federal, representa cerca de R$ 680 milhões deste valor.
O clube ainda enfrenta dois transfer bans que precisam de resolução imediata para viabilizar novas contratações e evitar punições esportivas: o imposto pela Fifa, referente à dívida com o Santos Laguna (México) pela compra de Félix Torres , e o aplicado pela CBF, decorrente do débito com o Cuiabá pela contratação de Raniele.