A César o que é de César
Opinião de Beatriz Maineti
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O Conselho Deliberativo do Corinthians precisa entregar mais do que apenas o mesmo
Foto: Maria Beatriz de Teves / Meu Timão
O torcedor corinthiano vive uma mistura de sentimentos opostos em relação ao clube. Se dentro de campo a torcida comemorou de forma efusiva a classificação às quartas de final da Copa do Brasil, conquistada com duas vitórias sobre o maior rival com placar agregado de 3 a 0, além de ter vivido a mesma emoção de avanço no torneio nacional com o time feminino, que passou nos pênaltis pelo Cruzeiro, a sensação com os bastidores da instituição é de desespero.
Neste sábado, dia 9 de agosto, o Corinthians viverá o seu momento político mais importante em quase 115 anos de história. O presidente afastado Augusto Melo, indiciado pelo Ministério Público por associação criminosa, furto qualificado e lavagem de dinheiro no caso que envolve o contrato de patrocínio da VaideBet com o clube, será submetido a votação da assembleia-geral no Parque São Jorge para confirmar ou não seu impeachment.
A olho nu, a votação parece ser o ponto final em um capítulo caótico e muito longo da história do Sport Club Corinthians Paulista. Porém, basta uma análise minimamente mais profunda para entender que o caso passa longe do fim. A partir daqui, não há caminho de volta, e isso independe do resultado da votação.
Desde o afastamento decretado pelo Conselho Deliberativo, Augusto Melo tem aproveitado toda e qualquer oportunidade para se comunicar com o torcedor. Mais do que as incontáveis entrevistas, o presidente passou muito tempo fazendo sua campanha dentro do Parque São Jorge com os sócios.
Se seus esforços tiverem sido efetivos, os associados podem votar no impeachment e devolver a ele a cadeira de presidente. Neste cenário, o Corinthians passa a ter um presidente indiciado, alvo de uma operação que investiga crimes cometidos contra o próprio clube.
Para a reputação do clube, este golpe pode ser fatal. Desde o afastamento de Augusto Melo, o torcedor foi bombardeado por cobranças de empresas contratadas, empresários e clubes que fizeram negócios com a diretoria corinthiana e não receberam a sua parte do acordo, apesar das garantias do presidente de que todos os compromissos estavam sendo honrados. Neste momento, o Corinthians vive a iminência de um transferban na FIFA pela dívida em aberto com o Santos Laguna, do México, por Félix Torres. Isso sem citar as situações com Talleres, da Argentina, e o caso Matías Rojas.
A relação entre Augusto Melo e Corinthians se desgastou pelas atitudes do próprio mandatário. A instituição Sport Club Corinthians Paulista corre o risco de, pela primeira vez em sua história, ser comandada por um réu em ação do Ministério Público por crimes cometidos contra ela mesma! A imagem do clube é capaz de sobreviver a isso?
Caso os associados do Parque São Jorge votem para referendar o impeachment de Augusto Melo, o Corinthians passará por um novo processo eleitoral. Desta vez, porém, o pleito será realizado de maneira indireta - ou seja, apenas os conselheiros do clube participarão da escolha do novo presidente.
O Conselho Deliberativo terá o futuro do Corinthians nas mãos enquanto lida com um caos próprio. No último mês, um escândalo envolvendo Andrés Sanchez e Duílio Monteiro Alves, ambos ex-presidentes e conselheiros do clube, e supostos gastos pessoais no cartão corporativo da instituição, além de cupons e notas fiscais da mesma natureza, explodiram na imprensa.
Andrés Sanchez admitiu gastos pessoais no cartão corporativo do Corinthians enquanto ainda era presidente. Em entrevista ao Portal Léo Dias, chegou a dizer que teria se confundido em uma noite regada a álcool. Duílio, por outro lado, negou qualquer atividade ilícita em sua gestão. Ambos os casos são investigados pelo Ministério Público de São Paulo, que entende que há “indícios de uma empresa de fachada” nos gastos apresentados originalmente por uma apuração do ge.globo.
Apesar da movimentação do MP-SP, o Conselho Deliberativo do Corinthians não segue o mesmo ritmo. Romeu Tuma Jr., presidente do órgão corinthiano, disse em entrevista coletiva que os trâmites internos estão sendo seguidos, mas não apresentou soluções imediatas pelo menos ao caso confesso.
Por isso, Andrés e Duilio seguem como conselheiros. Assim como Mário Gobbi, Roberto de Andrade, Antonio Roque Citadini e tantos outros velhos conhecidos da torcida corinthiana. Todos eles, aliás, devem estar aptos a votar na escolha do próximo presidente do Corinthians, que deve ficar no cargo até o fim do triênio corrente.
A inatividade do Conselho Deliberativo em investigar e punir seus membros que, de alguma forma, causaram danos à instituição aumenta a desconfiança do torcedor, que deve ter ainda menos poder sobre as decisões que afetam o futuro do clube. Assim, o processo de eleições indiretas passa a receber olhares tortos de quem vê de fora e treme ao ouvir alguns dos nomes citados acima.
Enquanto o Conselho Deliberativo do Corinthians não for responsabilizado, toda e qualquer decisão tomada por ele será posta em xeque. E isso passa muito pela omissão e pelo tratamento de silêncio implementado pelos próprios conselheiros até aqui. O associado, que vai às urnas no próximo sábado, deve ter consciência da sua decisão, mas não caberá só a ele definir o futuro do clube. O ambiente interno não pode relegar aos votantes a decisão de escolher entre “o ruim e o pior”. É o momento de oferecer soluções positivas, e não apenas politicamente interessantes, ao Sport Club Corinthians Paulista.
Este texto é de responsabilidade do autor e não reflete, necessariamente, a opinião do Meu Timão.
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