Estádio ou presídio?

Lucas Faraldo

Escrevendo sobre o Corinthians desde 2014

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Estádio ou presídio?

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Estádio ou presídio?

Torcedores foram revistados no Maracanã

Foto: Reprodução/Twitter

Uma ação protagonizada pela polícia militar do Rio de Janeiro na calada da noite desse domingo, no Maracanã, chocou qualquer um que tenha o mínimo de apreço por cultura de arquibancada e/ou direitos humanos. Os cerca de 3 mil torcedores do Corinthians que acompanharam o jogo entre Timão e Flamengo foram retidos após a partida, enfileirados, obrigados a ficar sem camisa e revistados por policiais e cães farejadores.

Vamos aos fatos.

Torcedores não-uniformizados do Flamengo e torcedores uniformizados do Corinthians foram flagrados por câmeras de televisão arremessando objetos um nos outros antes do jogo. Alguns dos alvinegros tentaram invadir o setor da torcida rubro-negra. A polícia militar interviu solicitando o afastamento dos flamenguistas e entrando em confronto com os corinthianos. No confronto, alguns policias foram agredidos – aqui vale destacar que os agressores devem sim ser identificados e punidos conforme manda a lei, desde que os verdadeiros torcedores que ali estavam não sejam colocados no mesmo saco e injustiçados pelo o que não fizeram.

Pois bem.

Depois do jogo, a polícia militar ordenou que as mulheres e as crianças corinthianas deixassem o setor de visitantes. Os homens seriam revistados pois a polícia estava tentando identificar os torcedores envolvidos na briga que antecedeu a partida.

Com relação às mulheres, aqui vai um trecho do relato que uma torcedora alvinegra presente no Maracanã concedeu à ESPN: "Saí e vi o corredor polonês com os cachorros. Tentei argumentar com o policial e fui empurrada, o outro me xingou de mal educada porque eu disse que eu não era bicho e que tinha pagado caro no ingresso. O outro policial me empurrou de novo e mandou todas as mulheres que estavam perto daquele portão ficar mais pra baixo".

Com relação às crianças, vale ressaltar a apuração da reportagem do Esporte Interativo. Uma criança de sete anos, que estava acompanhada apenas de seu pai, teve de se submeter à revista – que, de acordo com a polícia, tinha único intuito de achar os agressores, vale lembrar. Uma criança de sete anos e um pai de família.

"Sem mulheres nem crianças", quase 3 mil corinthianos foram humilhados nas arquibancadas do Maracanã, no momento em que boa parte da imprensa e de outras eventuais testemunhas já haviam deixado o estádio. Tudo porque a polícia buscava algumas dezenas de torcedores – num cálculo grosso, 1% do total de corinthianos que ali estavam.

Ou seja, não estamos falando de uma ação policial agressiva contra um grupo de agressores. Estamos falando de uma ação policial agressiva contra um grupo de torcedores.

Alguns "pormenores" agravam a situação. O Meu Timão ouviu relatos de torcedores que estavam nas arquibancadas. De acordo com tais corinthianos, a polícia agrediu alguns fisicamente durante a revista. Ao menos quatro foram detidos porque usavam seus celulares para filmar a ação policial. Medo das câmeras por quê, seu policial?

A torcida do Corinthians, que, a pedido da polícia militar, chegou ao estádio bem antes de a bola rolar, ficou presa nas arquibancadas por mais de três horas após o término da partida. Alguns passaram mal durante a ação policial – afinal, estavam há mais de seis horas ali, provavelmente sem comer nem beber nada – e tiveram de ser acudidos pelos próprios torcedores, porque os policiais não apenas não ajudaram como também não permitiram a saída de ninguém rumo a algum pronto-socorro, independentemente do estado de saúde.

Ainda vale registrar que, ao término da ação, os policiais detiveram cerca de 40 torcedores e liberaram os outros quase 3 mil de cinco em cinco. Ao contrário do que havia sido combinado com as organizadas, a polícia militar não escoltou os ônibus das caravanas, abrindo margem para possíveis emboscadas de uniformizadas rivais no caminho até a rodovia Dutra.

Foi uma cena específica, no entanto, que mais me chamou atenção – em meio a tantos absurdos. A imagem dos torcedores sentados sem camisa, lado a lado, de cabeças abaixadas, sendo farejados por pastores alemães é assustadora. Não fossem as coloridas cadeiras que há poucas semanas muito bem acolheram gringos e cartolas do mundo todo na Olimpíada, a cena poderia tranquilamente ser confundida com uma revista de bandidos após tentativa de rebelião num presídio.

A triste verdade é que não é de hoje que a polícia militar, seja do Rio de Janeiro, de São Paulo ou de qualquer outro estado do Brasil, trata torcedor como bandido – não que bandido não seja gente e também não tenha direitos. Há décadas, a polícia vem legitimando nos estádios a violência que diz coibir.

A impressão que fica: pessoas despreparadas para as funções das quais são encarregadas estão tentando domesticar os torcedores por meio de demonstração de poder – indo pra cima, é claro, da carne mais barata do mercado.

O que peço: menos abuso de poder e mais respeito com o torcedor.

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Por Lucas Faraldo Knopf

Jornalista pela ECA-USP e ex-Esporte Interativo, Jovem Pan e Lance!. Hoje trabalha no Meu Timão. Autor do livro 'Impedimento - Machismo, racismo, homofobia e elitização como opressões no futebol'.

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