Como você faz falta, Corinthians!

Rafael Castilho

Rafael Castilho é sociólogo, especializado em Política e Relações Internacionais e coordenador do NECO - Núcleo de Estudos do Corinthians

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Como você faz falta, Corinthians!

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Como você faz falta, Corinthians!

Corinthians faz falta em meio a essa parada por conta da pandemia

Foto: Danilo Fernandes / Meu Timão

Corinthians, como você faz falta nas nossas vidas.

Os dias de confinamento têm sido terríveis. Creio que quase ninguém gosta de ficar preso em casa, só vendo a vida passar, quando na verdade a gente quer mesmo é passar pela vida.

Pra todo mundo isso é ruim, mas me atrevo a dizer que para o corinthiano isso é dramático. Nascemos para as esquinas, para os amigos, para os amores, para a boemia, para a barraca de pernil, mas principalmente, nascemos para os abraços.

Essa coisa de não poder se tocar é terrível para nós. Como assim? Justo a gente que cansou de abraçar desconhecidos nas arquibancadas. Na hora do gol da virada, a bola lançada na área, fica no bate e rebate, a nossa vontade coletiva se amontoa numa energia metafísica e, de repente, a bola se oferece alegremente para algum merecedor dessa graça empurrar a bola na rede. E a gente se abraça. A gente compartilha a mesma bandeira. A gente toma a cerveja no mesmo copo. E quando rola uma maria mole, um rabo de galo, um bomberinho, um conhaque nas noites de frio? O copo vai passando de mão em mão, de boca em boca. Não, esse vírus não é justo com a gente. A gente vive se abraçando!

Mas, beleza. Estamos em casa respeitando esse momento. Cuidando não só da gente, mas principalmente da saúde de quem se ama. Dos nossos velhos e velhas que nos criaram em você, Corinthians. Que nos ensinaram a ser quem somos. Não é justo sermos leais nesse momento apenas com os nossos prazeres. Temos que ser responsáveis e cuidar de quem nos trouxe até aqui. E que tenhamos saúde para vermos muitas outras vitórias do Coringão do nosso coração!

Mas que é foda, é foda. Ficar em casa sem ver nenhum jogo do Corinthians. Com tudo parado. Nem que fosse pra xingar, mas nem isso.

Então eu me pego em silêncio. Lembrando dos grandes jogos que eu vi na vida. Concentro mais os meus pensamentos e me lembro do caminho para o estádio. Dos gritos de Vai Corinthians antes do jogo, sempre com um misto de otimismo e angústia. Finalmente ao redor do campo. A galera vem chegando. O barulho vai aumentando. Todo mundo falando alto. A galera se revendo. O cheiro de pernil fica no ar. Sinto a cerveja descendo gelada na minha garganta. A ansiedade paira no ar. Os rojões começam a pipocar no céu. Vão estourando cada vez mais fortes e mais perto. Se ouvem gritos de amor “Vai Corinthians”, “Puta que pariu, como eu te amo, Corinthians”, “ganha hoje, meu timão, só hoje”, “e vamo vamo... vamo vamo meu Timão, vamo meu Timão, não para de lutar”. Abro os olhos e ainda estou na minha sala. Mas, mesmo assim agradeço a Deus pelas memórias que eu tenho, por ter vivido tudo o que vivi em Corinthians.

Desculpem, eu sei que é piegas. As vezes eu fico assim sentimental. Mas o Corinthians me trouxe tantas alegrias. Eu não sei por quanto tempo o dinheiro aguenta nessa crise. Não sei por quanto tempo a dispensa terá os mantimentos que precisamos. Mas, me permitam dizer, eu me sinto absolutamente rico, por tudo o que vivi. Se me viessem agora com uma mala cheia de dinheiro para que eu gastasse como quisesse, mas que em troca eu tivesse que simplesmente apagar da minha memória tudo aquilo que vivi, e não aceitaria. Essas lembranças lindas são o que me mantém firme. Saber que estamos aqui trancados, mas vejam só, quanta coisa linda nos nossos pensamentos.

Então eu me pego olhando os vídeos de jogos antigos na internet. Ah, isso também é bem gostoso. Revisitar jogos que eu já estive. Ou mesmo os jogos que eu gostaria de ter ido. Existem jogos maravilhosos do Doutor Sócrates na internet. São muitos. Isso é muito bom. Dá pra ver a formação e consagração da Democracia Corinthiana.

Espero que tudo isso passe logo.

Espero também que as coisas no Corinthians mudem.

Pra falar a verdade, já faz um tempo que a gente está sem ver o Corinthians. E não me refiro somente ao período da crise do vírus. Tá faltando Corinthians na nossa vida. E pra quem acha que a gente só fica feliz quando ganha campeonato, não é disso que se trata. Não é só questão de ganhar. A gente quer ver no campo o Corinthians que a gente aprendeu a amar.

Acontece que o Corinthians não é uma empresa de futebol. Não é uma grife. Não é um clube qualquer. O Corinthians é uma consagração. É um congraçamento. É uma vontade coletiva. Dá pra ver que as coisas estão indo para um caminho perigoso no Corinthians. Então a energia não flui mais. Sobra discórdia. Falta harmonia. Os interesses pessoais não podem predominar e o Corinthians deve estar sempre em primeiro lugar. Mas não é isso que estamos vendo hoje.

Que essa parada tenha um significado especial. Que sirva para a gente refletir que o certo era parar mesmo. Desacelerar. Perceber de fato para onde estamos indo. Os riscos que corremos. O Corinthians não se vende! Mas, prestem atenção, o Corinthians também não se compra! Pensem nisso.

Não vemos a hora de termos nossas vidas de volta, não é? Tomara que tudo isso passe logo. Que a gente possa sair às ruas. Que a gente possa defender o nosso arroz e educar nossas crianças para não perder depois. E tomara que possamos logo voltar a ver nosso Corinthians. Daquele jeito que a gente gosta.

Que a gente tenha de volta o Corinthians que aprendemos a amar!

Saudades, Corinthians.

Como eu te amo....

Veja mais em: Pandemia do coronavírus.

Este texto é de responsabilidade do autor e não reflete, necessariamente, a opinião do Meu Timão.

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Por Rafael Castilho

Rafael Castilho é sociólogo, especializado em Política e Relações Internacionais e coordenador do NECO - Núcleo de Estudos do Corinthians

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