Da Lama ao Caos. Do Caos à Lama

Rafael Castilho

Rafael Castilho é sociólogo, especializado em Política e Relações Internacionais e coordenador do NECO - Núcleo de Estudos do Corinthians

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Da Lama ao Caos. Do Caos à Lama

Nesta terça-feira, o Parque São Jorge voltou a ter uma noite importante para a política do clube

Foto: Rodrigo Vessoni/ Meu Timão

Sim, o título dessa coluna pode parecer pesado demais.

Trata-se do refrão de uma canção de Chico Science.

Estaríamos nós à beira do caos? Mergulhados na lama?

Talvez ainda não seja o caso, mas certamente o Corinthians vive um momento absolutamente perigoso. A grave crise financeira não é atenuada por um aparente ambiente de tranquilidade política no Parque São Jorge. Na verdade, essa paralisia se mostra absolutamente caótica.

Já vi o Corinthians com explosões de sentimentos, inclusive com seus erros e acertos. Porém não consigo encontrar na história recente um paralelo de tamanho conformismo. Estaríamos todos suficientemente satisfeitos?

Se existe uma palavra que define hoje o Corinthians é o MARASMO.

Esse substantivo masculino significa pessoa apática, com paralisia, em estado permanente de prostração, com ausência de coragem. Ausência de novos acontecimentos. Na patologia, significa atrofia progressiva dos órgãos, excesso de fraqueza.

Tudo bem, a pandemia foi um marasmo só.

O corinthiano longe de seu time não existe. Estamos verdadeiramente deprimidos, sem motivação. Perdemos a dimensão mais encantada de nossa vida. Nunca imaginamos, nem nos mais terríveis pensamentos, ficar tanto tempo longe do nosso Coringão.

Sim, faz falta a torcida para carregar o time pelo braço, pra dar o empurrão de motivação, pra dar aquele susto quando necessário. Nenhum time pode sofrer tanto a ausência de sua torcida como o Corinthians e nenhum povo pode sentir tanta falta de sua representação lúdica, cultural e esportiva do que a Fiel Torcida.

Mas não podemos tampar o sol com a peneira. O Corinthians vive uma preocupante decadência. E quanto antes abrirmos os olhos para a realidade, antes poderemos superar essa situação. Fingir que nada acontece pode ser um erro fatal.

Se o Corinthians iniciou a década passada sendo inovador e se consagrou nos anos seguintes como um dos maiores campeões do futebol global, aparentemente ficamos presos num novelo de arranjo político e empresarial que nos embraça os braços para o futuro.

Hoje o Corinthians vive somente para alimentar o próprio sistema que o degenera. Na prática é isso. Como diria o Capitão Nascimento, “o sistema é foda, parceiro”.

Não é a ausência de títulos que atormenta o sono do torcedor corinthiano. É a falta de perspectivas – ou melhor – o absoluto temor quanto ao nosso futuro.

Se tivéssemos sem vencer campeonatos, mas tomando todas as medidas corretas para sanear as contas do clube, as coisas fariam melhor sentido. Porém, temos sofrido derrotas patéticas, resultados pífios com um dos elencos mais caros do Brasil.

O pior de tudo é que cresce na Fiel a percepção de que todos sabem de alguma forma o que precisamos fazer para superar essa crise. Porém, ano após ano vemos coisas terríveis se repetirem. Os mesmos erros. Os mesmos absurdos. Parece até piada. Não dá pra deixar de concluir o seguinte: “o que é problema para o corinthiano, é a solução pra muita gente!”.

Qual sentido contratar tantos jogadores caros que tem feito sangrar o nosso patrimônio? Pior, se fossem jogadores decisivos, ou com grande reputação, haveria um sentido em tudo isso. Mas qual o sentido em trazer jogadores de talento duvidoso gastando rios de dinheiro e engordando empresários? Se for para arriscar, melhor não seria fazê-lo com jogadores baratos ou com revelações de nossas categorias de base? Não foi o Pedrinho que “salvou” as contas do ano passado? Por que ocupamos a moita de jogadores da base com “talentos” pra lá de discutíveis? E qual a real situação da nossa base? O Corinthians, cravado no coração da Zona Leste, que mesmo nos anos difíceis revelou grandes valores, por que as coisas ficaram desse jeito?

Se o clube está capturado no âmbito de seus negócios, na política, que deveria ser o motor de qualquer transformação, as coisas não são diferentes.

Como um clube do tamanho do Corinthians, em matéria de fidelidade certamente o maior do mundo, pode eleger um presidente com pouco mais de mil votos?

É fato que esse curral eleitoral que se tornou o Corinthians é interessante para muita gente, porém o torcedor tem que assumir também a sua cota de responsabilidade.

Sim, eu sei, a situação econômica do país está terrível. As despesas simples do dia-a-dia estão muito difíceis de serem honradas. Para milhões de famílias está difícil até para se alimentar.

Os programas de associação do clube também não ajudam. Hoje em dia, poucas pessoas frequentam clubes sociais. Melhor seria que o Parque São Jorge fosse a porta de entrada para todas as categorias de Fiel Torcedor. Que o corinthiano que vive longe de São Paulo pudesse encontrar novas maneiras de se associar e contribuir com o clube. Que o Fiel Torcedor tivesse incentivos verdadeiros para viver a vida política do Corinthians.

Porém, digo isso para vocês, esperar que isso ocorra de cima pra baixo é um excesso de otimismo. Convido todos os corinthianos e corinthianas que puderem. Àqueles que não irão comprometer sua vida pessoal. Àqueles que tiverem o mínimo de condição. Não estamos falando de qualquer coisa. Estamos falando do Corinthians. Estamos falando da nossa vida, da nossa história, do nosso amor.

Aqueles que puderem, tornem-se sócios. Os que não puderem, procurem algum coletivo para colaborar com a transformação política do Corinthians.

Pensem nos nossos antepassados, trabalhadores honestos que sob a luz do lampião, no meio da madrugada, construíram esse lindo sonho. Eles se privaram de suas poucas horas de descanso. Mas fizeram algo para nós, algo para que pudéssemos nos ver representados. Porque quando o Corinthians joga não é só um time. É a vida da gente que tá lá dentro. O Corinthians não pode ficar desse jeito! Precisamos revitalizar o Corinthians. Errado está quem se sente dono do Corinthians. O Corinthians pertence ao seu povo, e assim deve ser.

Mesmo nos momentos mais difíceis da nossa história, tivemos times valentes. Mesmo quando nossos rivais tinham mais craques, nunca deixamos de chegar junto. Sempre desafiamos à altura. Aquele time verde que não quero agora falar o nome sempre teve seus patronos. Matarazzos, Parmalates ou Crefisas. Puta que pariu! O Corinthians nunca se dobrou!

Por que vamos agora aceitar esse marasmo? Sempre apareceu na fazendinha algum redentor. Sempre tivemos criatividade. Jamais deixamos de ter um time pra torcer. Melhor, pior, não importa. Mas essa nhaca não dá pra aturar. Tem que ter sangue no olho!

O corinthiano pode até aceitar um saneamento das contas se for verdadeiro e honesto. Mas não pode aceitar o conformismo. Podemos torcer para o time com menos craques, mas desde que tenhamos lutadores. O que não podemos engolir é um time medíocre com o dinheiro do nosso povo sendo jorrado, sem que nada estrutural mude no Corinthians.

Já que eu comecei com o Chico Science, ele conclui essa música dizendo:

“Com a barriga vazia não consigo dormir.
E com o bucho mais cheio comecei a pensar
Que eu me organizando posso desorganizar
Que eu desorganizando posso me organizar
Que eu me organizando posso desorganizar!!

Veja mais em: Elenco do Corinthians e Diretoria do Corinthians.

Este texto é de responsabilidade do autor e não reflete, necessariamente, a opinião do Meu Timão.

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Por Rafael Castilho

Rafael Castilho é sociólogo, especializado em Política e Relações Internacionais e coordenador do NECO - Núcleo de Estudos do Corinthians

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