Verde jamais

Rafael Castilho

Rafael Castilho é sociólogo, especializado em Política e Relações Internacionais e coordenador do NECO - Núcleo de Estudos do Corinthians. Ele está no Twitter como @Rafael_Castilho.

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Verde jamais

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Verde jamais

Chuteira utilizada por Jô na partida contra o Bahia

Foto: Reprodução/Instagram

Quanta ignorância essa coisa de não usar verde, né? Pois é! Eu cresci recebendo esse olhar de incompreensão das pessoas próximas dizendo ou pensando:

"mas precisa morrer desse jeito pelo Corinthians?".
"Precisa estragar o fim de semana?"
"Precisa ficar com essa cara de enterro? ”.

A gente ouve em silêncio essas perguntas. Internamente, diz a si mesmo: [precisa?].

A gente fica resignado por alguns instantes. Tende a concordar com a chamada de atenção. Quando está prestes a se comover com o argumento alguém diz.

“Você fica nervoso por causa de uma ‘merda’ dessas”?

Ah, aí fodeu tudo. Acabou a paz. Como é que é?

Eu estou falando é do Corinthians!

Vocês acham que é fácil ser quem a gente é?

Vocês acham que é de propósito?

Quantas vezes eu quis mudar. Tentei racionalizar. Dar a justa medida de cada coisa.

Quantas vezes não me arrependi de frases mal faladas. Quantas vezes depois da raiva ou do êxtase não me olhei no espelho e disse para mim mesmo, olhando nos meus olhos: "Seu ignorante!".

Quantas vezes minha mãe não serviu o almoço de dia das mães às 11h45 pra dar tempo de eu engolir a comida e ir correndo para o estádio em dia de clássico. Aliás, os caras quando montam a tabela do campeonato, procuram o dia das mães para colocar o melhor jogo. É como se fosse um teste para vender a sua alma.

E quantas pessoas que me amam torcem verdadeiramente pelo Corinthians só para que eu não estrague o fim de semana. Só para que eu não fique absolutamente insuportável.

Precisa disso?

Olha, diria que sim.

Acho que a gente absorve uma série de sentimentos que estariam soltos e perigosamente desorganizados, dando um sentido único, com um propósito especial, porque no final das contas estamos falando de amor.

Talvez, esses sentimentos soltos sejam perigosos...

Esse lance do verde não é coisa menor. É a nossa reserva de integridade e de intransigência. Vocês sabiam que todo ser humano, por melhor e mais tolerante que ele seja, precisa de uma dose de intransigência?

Vivemos a era do relativismo. Tudo é fluido. O amor, a moral, o correto, tudo é elástico.

Um pouco de intransigência pode ser fundamental. Dessa linha eu não passo. Assim eu não me porto. Com isso não concordo. Essa cor eu não uso.

E quem disse que precisa de explicação racional?

Há quem diga, não sem razão, que ao não usarmos o verde, estaríamos prestando uma grande homenagem ao rival e lhe dando importância exagerada. Pode ser!

Engraçado, quando o assunto é o outro time rival, que habita no Morumbi, não existe tal simbolismo. Pelo menos pra quem é da minha geração.

Essa repulsa pelo verde carrega consigo uma série de outros sentimentos e ressentimentos históricos. Muita coisa ocorreu em um século.

Não vou aqui entrar em política, mas quem quiser pode pesquisar um pouquinho da história e ver o simbolismo do verde durante os anos 30 e 40. As comunidades de imigrantes se dividiam, em especial a italiana que desde sempre esteve representada nos dois Parques, o São Jorge e o Antártica. Pra não fazer crescer a polêmica, a nossa comunidade simplesmente não vestia verde de jeito nenhum. E digo mais, o pau comia.

E não parou por aí. O verde sempre nos deu mal-estar. Seja pela disputa dura nas quatro linhas, seja pela maneira como fomos sempre tratados.

Quem não se lembra do “silêncio na favela” dirigido a nossa torcida em todos os jogos?

Ah, tem mais, ah, tem sim e vou falar. Cansei de ouvir também quando criança “silêncio na senzala”.

Se esse texto ofende a algum amigo palmeirense, só posso recomendar duas coisas. A primeira que pare de ler. O texto é de corinthiano para os corinthianos. Estamos vivendo um processo muito grave e esse assunto não tem nada com vocês. A segunda é que a história funciona assim, uma flecha lançada não se volta. Não estou acusando a instituição de vocês. Só a coincidência de ter ouvido certas coisas ao longo da vida. Vocês realmente terão que dar conta de certas coisas do presente e do passado, mas isso aí é com vocês.

Eu é que não esqueço. Aquele nosso samba enredo mais querido que diz no refrão:

“Vou, vou pra Bahia, acende a chama no terreiro de iaiá”.

Eu não esqueci os gritos do outro lado da arquibancada que ironizava “Vai, vai pra Bahia”.

Entendia muito bem qual era o sentido disso. Não nos incomodava porque sempre amamos a Bahia e a representação nordestina na nossa família corinthiana.

Já estou falando demais. Melhor parar por aqui. Não quero focar no outro time, mas falar do nosso.

Como pode acontecer uma coisa dessas? Não foi pouco não! A torcida anda tão sofrida. Passamos por momentos tão doloridos. Estamos afastados do grande amor das nossas vidas. O Corinthians com seu futuro em risco. Um time que não nos identificamos. Podia até ser um time ruim, mas que fosse então vibrante e espirituoso.

A política do Corinthians é território de poucos. O torcedor está muito distante das decisões. Pouquíssimos estão decidindo o destino de milhões e o clube precisa se democratizar e dar voz e voto ao seu torcedor.

E não bastasse tudo isso, veio aquela chuteira verde. Verde não? “Azul Palmeiras? ”. Quem que manda naquilo ali?

Ah, não dá! Tem coisa que não vai. Não tem jeito. Quem quiser que nos chame de ignorantes. Tudo bem!

Mas, verde jamais! Quem não liga pra história, se apegue pelo menos na memória. Os porcos quando estão por baixo se fazem de coitados, quando estão por cima querem humilhar o Corinthians!

Não me esqueço jamais das maracutaias que assisti ao vivo dentro do campo. De quem quis sempre diminuir as nossas conquistas. De quem não reconhece nossas vitórias, mas quer que eu reconheça campeonatos carimbados no fax. Aquele time que se aproveitou das embaixadas do Edilson para fugir de campo e desmerecer nosso campeonato.

O maior castigo para os porcos é olhar para o Corinthians e enxergar a integridade que eles nunca vão ter. É olhar para o time do povo e enxergar dois mundiais da FIFA. Isso dói. Um triunfo que eles nunca terão porque antes de tudo devem ter virtude pra ganhar algo que não se compra com dinheiro. É com presença de espírito que nos fizemos Corinthians!

A gente pode aceitar muita coisa nessa vida. Pode suportar muito desaforo. Mas prestem atenção. Palmeiras é o car*lh*. Isso jamais. Nem morto! Em nome dos meus antepassados corinthianos. Verde JAMAIS!

Aqui é Corinthians!

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Este texto é de responsabilidade do autor e não reflete, necessariamente, a opinião do Meu Timão.

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Rafael Castilho é sociólogo, especializado em Política e Relações Internacionais e coordenador do NECO - Núcleo de Estudos do Corinthians. Ele está no Twitter como @Rafael_Castilho.

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