Rua São Jorge, 777

Rafael Castilho

Rafael Castilho é sociólogo, especializado em Política e Relações Internacionais e coordenador do NECO - Núcleo de Estudos do Corinthians

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Rua São Jorge, 777 - O Parque São Jorge

Foto: Divulgação / Corinthians

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Meu primeiro emprego foi de office boy. Juntei uma grana durante meses. Por fim, consegui comprar um título do Sport Club Corinthians Paulista.

À época, um senhorzinho trabalhava como vendedor. Comercializava os títulos para novos associados. Era um dos revendedores autorizados do Corinthians, além de vender também os títulos de antigos sócios que se desfaziam de suas propriedades.

Sim, os títulos de clubes eram como verdadeiros patrimônios dos associados. Tempos bem diferentes aqueles em que acessar um clube significava não somente pertencimento social, mas desfrutar de confortos hoje facilmente disponíveis em condôminos, academias, pousadas ou casas de praia.

Havia aborrecido aquele pobre velho uma dezena de vezes, perguntando o preço e verificando se surgira alguma promoção ou desconto especial. Fiz isso durante semanas. Quando por fim juntei a grana suficiente, peguei o ônibus "Penha" que passava atrás do antigo "Teatro Silvio Santos", na Parada Inglesa.

Escondi o dinheiro na cueca. Considerando valores de hoje, creio que não era tanto dinheiro assim, mas para mim representava a economia de um ano. Havia decidido que seria tudo do Corinthians. Seria eu, parte integrante daquele clube. Era como se tivesse comprando um terreno no céu.

Quando desci no ponto de ônibus que ficava bem em frente ao Parque São Jorge minhas pernas tremiam. Sentia meu couro cabeludo ferver. Estava realmente ansioso e a ponto de explodir.

Ajeitei o meu saco. Quem me observava a distância provavelmente pensou que eu fosse um moleque tarado, ou então que eu tinha uma enfermidade terrível nos testículos. Carregava dinheiro grande. Cédulas de cruzeiro. Precisava de muitas delas para pagar o valor negociado.

Cheguei triunfante à frente do senhorzinho. Tinha um sorriso muito largo no rosto. Algo que eu não podia controlar, nem se eu quisesse.

Acho que ele percebeu minha felicidade. Foi cúmplice dela. Ainda que, certamente, aquela fosse uma das vendas mais sofridas e choradas que ele já havia realizado em sua importante carreira. Me acompanhou solenemente até um guichê bem rústico e simples.

Dentro de uma janelinha escura, um senhor, ainda mais velho e arruinado, conferia meus documentos. Depois passou a contar as cédulas sem supor por onde elas tinham passado.
Depois de se certificar que estava tudo dentro dos conformes, buscou uma máquina de escrever bem pesada que deve ter sido usada para firmar o contrato do Cláudio, do Luizinho ou do Baltazar.

Tudo bem que eu estou ficando velho, mas não vamos exagerar. No começo dos anos 90, os computadores e impressoras já faziam parte do cotidiano das grandes empresas. Mas não do Corinthians. Nem sempre este clube teve essa obsessão louca pela modernidade. As coisas no Corinthians eram do arco da velha. Pensando bem, creio que essa sanha modernizadora do Corinthians atual e esse desespero pelas novidades e por se inserir no mercado global do futebol contenha algum nível de complexo pelos anos de atraso que de alguma maneira se refletia nos resultados dentro de campo.

Essa falta de gosto pelo novo que o Corinthians tinha, a falta de compostura, a ausência do esteticamente aceitável, a breguice que se projetava em times de futebol meio grossos e uma torcida mais simples e menos "pop". Tudo isso apenas ressaltava o encanto do nosso clube do coração. Significava mais um elemento de identidade com a vida da gente. A gente era esse Corinthians meio desengonçado no cotidiano. Que ganhava uma grande conquista depois de suar como condenado e logo tomava tantas outras na cabeça. Inevitáveis desilusões e decepções. Mas era assim mesmo. Segue o jogo.

Igualmente, com essa vida sofrida que vivíamos, dávamos sem saber a cara daquele Corinthians de outros tempos.

Muitos amigos, entre os quais eu me incluo, sentem alguma nostalgia desse Corinthians que de algum modo parece que se foi para nunca mais voltar. Um Corinthians que vive agora em algum lugar dentro da gente. Na melhor das memórias afetivas.

Mas não é só o Corinthians que mudou. A sociedade mudou, e este clube, como a mais bela de suas expressões, mudou junto com ela.

A molecada não esconde mais dinheiro pra ser sócia de nenhum clube, ela quer celulares, video games, tênis e roupas de marca. Não usa a camiseta dada de presente pela tia.

Agora, experimentam uma vaidade exacerbada que a gente não tinha. Não querem brincar no clube, querem visitar lugares mais espetaculares. Também não aceitam "viver sofrendo" como os corinthianos de antigamente. Querem se dar bem. Precisam ser os melhores na vida e na bola. Vivemos em uma sociedade que nunca foi tão baseada no prestígio pessoal.

Sendo assim, todo mundo tem uma obsessão louca por ser o maioral. A galerinha quer ver o Corinthians campeão todo ano. Mal sabem eles o que a gente já passou...

Quando eu vi o meu nome completo estampado no título patrimonial do Corinthians fiquei muito feliz. Na viagem de volta, ocasionalmente tirava a certidão do envelope e olhava para ela satisfeito e sem me importar que os outros passageiros vissem aquilo que eu havia adquirido.

Foram tempos felizes. Jogava bola no terrão aos sábados com os veteranos. Uns senhores bem mais velhos que eram espetacularmente bons de bola. E adorava jogar basquete, o esporte em que me dava melhor na escola.

Certo dia convidei um amigo que era filho de um cliente do meu pai para conhecer o clube. Ele também jogava basquete e gostou da ideia. Decidiu-se por comprar um título do Corinthians para me acompanhar nos jogos. Algo que ele faria sem o mesmo esforço que eu tive, pois a família dele tinha dinheiro e esbanjava status.

No dia seguinte fui ao encontro dele para irmos juntos ao clube. Ele falou meio sem jeito que não mais iria frequentar o Corinthians.

Seu pai gritou bem alto para que eu escutasse. Que o Corinthians era clube de pobre. De gentalha. Mal frequentado. Que de presente lhe daria um título do Espéria ou do Sírio que esses sim eram clubes de verdade com gente decente.

Tinha me matado tanto para comprar o título do Corinthians e descobrira de uma maneira cruel que minha nova aquisição era para alguns algo desprezível. Pior, nem era por rivalidade futebolística, mas efetivamente por preconceito social.

Adorei aquela sensação de ser "má influência". Gostei de saber que o Corinthians era um lugar potencialmente perigoso. Me senti muito mais atraído por aquela atmosfera.

Como a vida dá muitas voltas, fiquei sabendo que a família do rapaz foi à falência e que eles vivem hoje arruinados com muita dificuldade financeira. Eu continuo me virando, dando um passo de cada vez e feliz por estar conquistando o meu espaço. Mantendo sempre a humildade porque esse lance de arrogância dá um azar desgraçado, tanto na vida da gente como também não serve pra corinthiano.

Como eu amo o Corinthians!

Vinte e tantos anos depois vou poder fazer um trabalho por esse clube. Um projeto que acredito. É como se tivesse novamente entrando pela primeira vez naquela terra santa.

Veja mais em: Parque São Jorge.

Coluna do Rafael Castilho

Por Rafael Castilho

Rafael Castilho é sociólogo, especializado em Política e Relações Internacionais e coordenador do NECO - Núcleo de Estudos do Corinthians

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