Mulher no futebol é aquele gol sofrido, que custa um jogo inteiro para sair

Rafaela De Oliveira

Acadêmica em Jornalismo pela Universidade Presbiteriana Mackenzie e de olho na base do Corinthians.

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Mulher no futebol é aquele gol sofrido, que custa um jogo inteiro para sair

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Mulher no futebol é aquele gol sofrido, que custa um jogo inteiro para sair

Em entrevista pós-jogo com o técnico Marcos Soares, do Sub-17 do Timão

Foto: Arquivo pessoal

Anos atrás, pensando qual caminho profissional seguir, nunca cogitei precisar de algo que não minha vontade e paixão pelo meu trabalho. Quando me decidi pelo futebol, me vi obrigada a repensar essa certeza. Sabia que teria de me esforçar mais que qualquer homem para conseguir uma oportunidade.

Felizmente, dentro de casa, onde, na maioria das vezes, nos tornamos quem somos, tive apoio. Meu pai, ainda que receoso, vira e mexe me perguntava: 'Como tá o Timão, Rafa?', só para me motivar. Minha mãe, protetora que era, não escondia a preocupação quando eu me despedia e partia para aos jogos do Sub-20 do Corinthians, em Barueri. No lugar dela, sentiria o mesmo.

Será que um homem passaria por isso?

Superados os primeiros obstáculos, comecei a cursar jornalismo e, mais que depressa, entrei para a rádio da faculdade. No programa esportivo Arquibancada Mack, em que fui a única garota no meio de, no mínimo, dez rapazes, tive de me impor.

Enquanto os meninos faziam piadas futebolísticas e comentavam os assuntos com tranquilidade e familiaridade, já que, comumente, são apresentados ao mundo da bola nos minutos inicias de vida, eu precisava manter a postura: 'Voltando ao tema, o Carille...'. Não podia 'estragar' tudo com brincadeirinhas.

Será que um homem passaria por isso?

Conquistei o respeito dos meus companheiros de rádio depois de dedicar inúmeras horas, todos os dias, estudando dobrado antes de ligar o microfone. Com o passar do tempo, já como apresentadora do Arquibancada - a primeira da história do programa, diga-se de passagem -, me arriscava a fazer um comentário mais descontraído, um trocadilho. Mas sempre muito breve, para não comprometer.

Programa especial com participação de Juca Kfouri

Programa com participação de Juca Kfouri e que, como disse, fui a única mulher

Arquivo pessoal

Cheguei ao Meu Timão há cerca de sete meses, depois de enviar um e-mail pedindo espaço no portal. Para tanto, tratei de anexar dois textos que havia escrito sobre a renovação de jogadores da base corinthiana. Como mulher, não posso apenas demonstrar interesse, tenho de mostrar trabalho - e triplicado.

Quando recebi a resposta do fundador do site, o Danilo Augusto, me surpreendi por dois motivos. Primeiro porque, sim, ia rolar ter uma coluna aqui. E, o mais importante deles: a justificativa para a parceria se dava pelo fato do portal, assim como o futebol, ainda contar com pouca representatividade feminina. Hoje a redação é equilibrada: cinco mulheres e cinco homens.

Já como estagiária do Meu Timão, batalhei pela oportunidade de cobrir a base do Corinthians. E consegui. Com o 'poder', a responsabilidade. E sabia que não precisaria me esforçar apenas para fazer um bom trabalho, mas para saber lidar com o que viria junto: comentários nos estádios, nas coletivas, olhares, julgamentos. 'Será que ela entende mesmo de futebol? É tão novinha.'...

Será que um homem passaria por isso?

Preciso dizer que jamais fui desrespeitada no exercer da minha função. Nunca fui intimidada diretamente por colegas de profissão, jogadores, técnicos, assessores. Só que a intimidação não precisa acontecer para nós, mulheres, nos sentirmos mal. Já sabemos, quando nos preparamos para ir TRABALHAR, que teremos de nos provar, de nos impor, de nos superar. E isso cansa.

Falando com o goleiro Filipe, na minha primeira entrevista como setorista da base

Com o goleiro Filipe, na minha primeira entrevista como setorista da base

Arquivo pessoal

Sei que para desempenhar qualquer função profissional temos de ter capacitação. ponto. Porém, no momento em que se aponta uma pessoa, tão apta ou mais, como inferior diante de outra só por causa do seu sexo, nós não podemos ficar calados.

Ser mulher no futebol é como ser aquele gol sofrido, que custa um jogo inteiro para sair. Mas que, quando sai, a gente passa uma semana inteira comemorando.

Aproveito a oportunidade para parabenizar o Corinthians pela campanha contra o assédio e violência contra a mulher que rolou ontem, na Arena, antes da bola rolar no duelo com o Mirassol. Aproveito, também, para congratular todas as mulheres neste 8 de março. Vocês são fodas!

E que as flores sejam substituídas por respeito, incentivo e igualdade. Não só nesta ocasião, simbólica, é verdade. Mas em todos os dias. Como tem de ser. Sempre.

Veja mais em: Base do Corinthians e Corinthians Sub-20.

Coluna da Rafaela De Oliveira

Por Rafaela De Oliveira

Acadêmica em Jornalismo pela Universidade Presbiteriana Mackenzie e de olho na base do Corinthians.

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