Por uma divisão das receitas astronômicas da CBF

Roberto Piccelli

Roberto Piccelli é advogado atuante em direito público e escreve sobre temas jurídicos e institucionais relacionados ao Corinthians.

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Por uma divisão das receitas astronômicas da CBF

Marco Polo Del Nero, novo presidente da CBF, defende regulação das cotas televisivas, mas não quer dividir o bolo.

Foto: Rafael Ribeiro / CBF

Saiu na imprensa há alguns dias uma informação da mais alta relevância.

Ao longo do ano de 2014, a CBF, sozinha, arrecadou nada menos que R$ 359 milhões só com patrocínios . O Corinthians, vice-líder entre os clubes nas receitas com publicidade, angariou míseros R$ 64 milhões, ou seja, cinco vezes menos do que recebeu a confederação. O Flamengo, que circunstancialmente lidera o ranking, não fez muito melhor e foi pouco além da marca de um quinto. O mais chocante é que, segundo o levantamento, a soma dos treze maiores clubes do Brasil em termos de patrocínio não chega ao total dos contratos da CBF. Mais ainda: nenhuma seleção do mundo chega perto das receitas da nossa. A da Espanha faturou R$ 113 milhões, muito menos do que o Real Madrid, que conseguiu R$ 686 milhões.

Não há dúvida de que a seleção brasileira é uma marca única, reconhecida no mundo inteiro por conta da sua tradição no futebol. Associar o nome de uma empresa a uma instituição desse porte tem mesmo que ter o seu preço. Além disso, especificamente nos últimos anos, a Copa do Mundo, realizada aqui, ajudou a valorizar ainda mais a marca. Não é surpresa nenhuma, portanto, que a CBF venha conseguindo muito dinheiro com patrocínios.

Do outro lado da balança, em relação aos clubes brasileiros, também não é difícil encontrar a razão para os baixos valores arrecadados. Infelizmente, nossos clubes não têm a mesma projeção dos europeus. Os jogos dos nossos campeonatos não são acompanhados mundo afora como são os do Velho Mundo – cada vez mais assistidos no próprio Brasil. Sem tanta exposição, fica difícil fazer frente ao faturamento dos clubes de lá.

Será, porém, que uma coisa - a seleção - pode ser separada da outra - os clubes brasileiros? Será que a seleção brasileira representaria tudo o que representa se não fossem os clubes? Será que a CBF não tem um dever de usar esse dinheiro para o bem das nossas equipes?

A época mais gloriosa da amarelinha coincidiu exatamente com os áureos tempos do futebol jogado aqui dentro. Não fosse o Botafogo da década de 50 e não haveria um Garrincha, um Nilton Santos; não fosse o Cruzeiro da década seguinte, não haveria um Tostão; não fosse o Corinthians da Democracia, não haveria um Sócrates. Por aí vai. É raro que grandes jogadores despontem em times de fora – Messi talvez seja uma exceção notória -, mas ainda mais raro é que ligas fracas contem com grandes seleções.

Clubes fortes disputando uma liga robusta são vitais para a existência de uma cultura de futebol. As últimas duas campeãs do mundo são uma evidência. Espanha e Alemanha têm grandes equipes disputando os campeonatos locais.

Aliás, ainda hoje, com o nosso futebol esfacelado, a enorme maioria dos jogadores do time titular que deve disputar a Copa América teve os primeiros anos como profissionais nos clubes daqui: Jefferson (Cruzeiro), Danilo (América; Santos), Thiago Silva (Fluminense), Elias (Ponte Preta; Corinthians), Neymar (Santos), Tardelli (São Paulo; Flamengo). Outros tiveram breves passagens, como os nossos Willian e Marquinhos, e, se não fosse exatamente por conta da pressão financeira, teriam sido incubados por mais tempo.

A CBF, no entanto, apesar de tanto dinheiro, sente como se estivesse completamente livre da obrigação de auxiliar os clubes que tanto contribuíram - e ainda contribuem - para que a seleção seja o que é. Como não tem muito com o que gastar, a entidade chegou a destinar 70 milhões recentemente para sua nova sede na Barra da Tijuca. Seus gastos, em geral, são muito pouco transparentes. E, além de não ajudar, ainda faz questão de atrapalhar. Há alguns dias, por exemplo, teve a audácia de mandar tampar parte do nome do estádio do Palmeiras.

Aos que se preocupam com uma distribuição mais equânime dos recursos entre os clubes, como parece ser o caso do novo presidente da CBF, Marco Polo Del Nero: não seria mais inteligente um rateio igualitário de uma parcela de tudo o que a confederação arrecada? Seria uma forma de distribuir dinheiro inclusive entre os clubes menores sem que necessariamente se dê um abraço de afogado nas equipes que lideram as receitas de TV. Que nos unamos para nivelar o futebol brasileiro por cima, e não por baixo!

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Por Roberto Piccelli

Roberto Piccelli é advogado atuante em direito público e escreve sobre temas jurídicos e institucionais relacionados ao Corinthians.

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