Notícia sobre Cassini expõe imediatismo crônico na gestão do futebol do Corinthians

Roberto Piccelli

Roberto Piccelli é advogado atuante em direito público e escreve sobre temas jurídicos e institucionais relacionados ao Corinthians.

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Notícia sobre Cassini expõe imediatismo crônico na gestão do futebol do Corinthians

Prata da casa, Ronaldo encarnava como ninguém o espírito corintiano

Esteve nos jornais da Europa a notícia de que nosso jovem mais promissor, Matheus Cassini, poderia estar a caminho do Palermo, clube do segundo escalão do futebol italiano. O valor da suposta negociação não se compara com o que qualquer entendido consideraria razoável por um jogador com tanto potencial. Essa especulação, apesar de improvável, põe em evidência mais uma vez uma abordagem da diretoria na condução da equipe profissional que merece ser repensada.

É possível administrar qualquer projeto com foco no curto prazo ou no longo prazo. Tudo depende das prioridades. Isso vale para empresas, vale para governos, vale para times de futebol. Só que, se o objetivo é tentar conseguir tudo no menor tempo possível, provavelmente será necessário despender um grande volume de recursos rapidamente, e uma hora, se os resultados não forem excelentes, a conta deixará de fechar. Muita energia terá sido gasta de uma só vez. E então, tempos difíceis virão. É a ideia de ciclos, de que tanto se fala por aí. Por outro lado, se a ideia é construir algo mais duradouro, os frutos podem demorar, mas uma hora serão colhidos e, com sabedoria, nunca deixarão de aparecer. A trajetória tende a ser mais estável.

No caso específico do futebol, é claro que o gestor pode ou montar um grande time com todos o dinheiro à disposição, ou reservar uma parte dele para investimentos futuros. Essa é a face mais óbvia do problema a ser equacionado. Mas existem outras decisões que podem impactar nesse equilíbrio entre o curto e o longo prazo além do dinheiro. O uso de jogadores da base no profissional é uma delas.

Olhemos para o nosso banco de reservas. Tudo bem, não há muito como negar que jogadores como Uendel, Danilo e Love hoje ainda podem ser mais efetivos do que Arana, Cassini e Gabriel Vasconcelos. Ao menos poderiam fazer mais diferença em um jogo decisivo. Será, porém, que devemos pensar só no hoje? Será que não vale a pena investir paciência em jogadores que têm potencial para no futuro superar com sobras esses medalhões?

A ansiedade tradicional da torcida gera na comissão técnica, normalmente vinculada por contratos curtos e fáceis de romper, uma pressão por resultados imediatos. Todo e qualquer título acaba virando obrigação. Por isso, a iniciativa de ter prudência e pensar mais pra frente teria que ser da diretoria. É a ela que caberia ter a ousadia de apostar nos jovens talentos e exigir a sua presença ao menos no banco, mesmo que os resultados não fossem inicialmente os melhores. Afinal, não necessariamente eles vão fazer bonito logo de cara, mas os benefícios de longo prazo podem compensar. Certamente serão mais estáveis.

Da forma como as coisas estão, a verdade é que não faz muito sentido investir tanto na base. Como se cada título fosse irrenunciável, gastamos o que não temos para rechear nosso segundo time de jogadores medianos mais ou menos experientes e outros melhores, mas já de mais idade. Os pratas da casa ficam sem oportunidade e acabam emprestados ou esquecidos no CT. Quando o Corinthians é eliminado de uma competição, ficam de herança jogadores envelhecidos, com salários milionários e jovens ainda inexperientes.

Seguimos, porém, com a mesma postura de concentrar grandes energias em competições pontuais, sem planejamento para a renovação do plantel pela via natural. Esse modo de operar, com a contratação reiterada de medalhões, dá margem até para uma certa desconfiança, já que negócios com jogadores (seja venda, seja compra, seja acerto de salários) costumam ser uma veia apetitosa para sanguessugas de plantão.

Então por que não mudar? Com uma mudança na mentalidade, ainda que pudéssemos imaginar uma perda de competitividade em um primeiro momento. algumas das vantagens também poderiam vir imediatamente. O salário, para os que estão começando, normalmente é mais baixo, por exemplo. Essa diferença na folha salarial até poderia ser usada para reforçar com mais qualidade um ou outro setor específico do time titular.

A maior vantagem, porém, na minha opinião, é outra e pode demorar a se confirmar: os jogadores vindos do aspirante têm um entrosamento incomparável entre eles mesmos e, mais do que isso, têm uma identificação muito forte com o clube. Esse time que ganhou a última Copa SP é talvez o melhor já visto na base do Corinthians, mas o que, sem dúvidas, mais chamou a atenção de quem assistiu ao torneio foi o jeito corintiano de jogar desses garotos. Quem é que nunca parou pra imaginar do que seriam capazes no time principal daqui a alguns anos?

Enfim, será que não é o caso de abrir mão de um pouco de experiência no banco em troca de algum nível economia desde já e, principalmente, de um futuro mais promissor? Já somos campeões da Libertadores. Não há mais razão para grandes loucuras. Talvez valha a pena começarmos a ter prudência e pensar em um projeto mais sólido no longo prazo.

É hora de uma reflexão dentro da torcida a esse respeito. Se ela não se mobilizar, as coisas continuarão sempre assim.

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Roberto Piccelli é advogado atuante em direito público e escreve sobre temas jurídicos e institucionais relacionados ao Corinthians.

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