Compromisso com a história do futebol feminino

Victor Farinelli

Victor Farinelli é um jornalista brasileiro e corinthiano residente no Chile, colabora como correspondente de meios brasileiros como Opera Mundi, Carta Capital, Revista Fórum e Carta Maior.

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Compromisso com a história do futebol feminino

A torcida do Corinthians lotou a Neo Química Arena na final do Paulistão Feminino de 2019 e não poderá repetir o feito em 2021

Foto: Bruno Teixeira/Ag. Corinthians

A desculpa oficial para não permitir a final do Paulistão Feminino na Neo Química Arena é que o dia 8 de dezembro já estaria reservado a um compromisso comercial que teoricamente é inadiável. Mas será tão inadiável assim?

O futebol feminino está a um passo do momento crucial da sua história no Brasil. A modalidade chegou a ser proibida durante décadas, engatinhou nos últimos anos depois de voltar a ser permitida, e hoje conquista cada vez mais espaço na mídia e entre os torcedores.

Mas ainda falta o último salto, que é se tornar um fenômeno de massas. E está em disputa hoje, sem dúvidas, um compromisso com a história: quem será responsável por consolidar essa conquista. Clubes e empresas que entenderem como estabelecer seu nome nessa façanha ganharão muito, por muitos anos, em termos de marketing, imagem, etc.

O favorito pra isso é o Corinthians, não só pelo timaço que nós temos, pelos muitos títulos e pelo gigantesco tamanho do clube, mas sim porque grande parte, a parte mais importante, já está encaminhada: a Fiel Torcida já abraçou o time.

Há vários indícios disso, e não só os mais distantes, como aquela final do Paulistão de 2019 com recorde de público. Há também duas situações recentes que mostram essa tendência bem claramente.

A primeira delas é a festa incrível que fizeram no hotel de concentração no dia da final do Brasileirão, contra o Palmeiras. Sem poder participar da final, que seria sem público porque ainda não havia sido liberado, a Fiel realizou um manifesto especial pras meninas com batucada, bandeiras e fogos de artifício, lembrando o treino aberto da véspera da final do Paulistão masculino de 2018, ou a despedida do elenco em Guarulhos, no embarque pro Japão em 2012.

O segundo indício foi a caravana da Gaviões da Fiel, que viajou 42 horas por terra até Montevidéu, pra ver a final da Libertadores e o tricampeonato corinthiano. Jamais uma torcida fez um gesto de tamanho fanatismo em nome de um time de futebol feminino na história do Brasil, e talvez no mundo inteiro.

Isso sem contar o fato de que as jogadoras do Corinthians já são ídolos do clube. A torcida conhece e reverencia atletas como Grazi, Gabi Zanotti, Tamires, Vic Albuquerque, Érika e muitas outras, e até mesmo aquelas que já saíram do clube, como Lelê, Crivelari, Gabi Nunes e também muitas outras, que são lembradas com carinho.

E se tudo isso já não é suficiente, vejam os recordes de audiência que as transmissões dos jogos do Corinthians Feminino estão marcando em todos os canais, especialmente em jogos decisivos.

O amor da Fiel pelo time já está consolidado. O que falta, então? Falta encher o estádio. O Corinthians tem um belo slogan: “Respeita as Minas”, mas na prática foi o time feminino que menos jogou em 2021 no principal estádio que o seu clube possui: apenas 1 vez.

Muitas desculpas podem ser dadas pra essa situação. Inclusive, quando a Fiel se organizou nas redes sociais pra pedir fortemente pra que a semifinal desse mesmo Paulistão fosse na Neo Química Arena, o presidente do clube se negou a mudar, mas em contrapartida assegurou que a final sim seria no estádio de Itaquera. Uma desculpa que já naquele momento tinha tom de “na volta a gente compra”, e agora fica ainda mais evidente.

Cumprir aquela promessa seria fortalecer a ideia de que o “Respeita as Minas” não é só um slogan e sim uma filosofia. Todas essas demonstrações de amor da Fiel pelo time feminino são prova de que a torcida está esperando o clube e as federações darem a ela a chance de demonstrar que o Corinthians é o clube que vai popularizar o futebol feminino no Brasil.

Voltamos à pergunta do tal evento inadiável: é mesmo tão inadiável assim? Faltando mais de dez dias para reagendar, quão difícil é empurrá-lo pra dois ou três dias depois?

Devemos supor que a empresa Neo Química entende a importância do futebol feminino e do público feminino de uma forma geral, já que nomeou Marta, uma mulher corinthiana e a maior jogadora de todos os tempos, como sua embaixadora. Por isso, também podemos supor que entenderá que só tem a ganhar mostrando que é uma empresa capaz de fazer esse esforço de adiar o seu evento, ou adaptá-lo a esta situação. Seria conhecida como a empresa que colocou o interesse das mulheres e do futebol feminino em primeiro lugar. Pode até perder alguma coisa num primeiro momento, com esse adiamento, mas o que tem a ganhar no futuro, com a repercussão do compromisso com as mulheres e com a história, é muito maior e com consequências a serem percebidas durante anos.

A outra opção é o Corinthians e a Neo Química insistirem nesse erro do jogo em Barueri, fazer um jogo com público reduzido e incipiente, e deixar que outro clube e outra empresa fiquem com a glória de popularizar o futebol feminino no Brasil. A lista de administradores que entraram pra história por sua falta de visão não é pequena. O próprio Corinthians já rejeitou a contratação de Pelé nos anos 50 e deu no que deu. Nos anos 80, em compensação, foi graças à visão de um diretor (que inclusive é pai do atual presidente) que o clube embarcou na Democracia Corinthiana, criando uma marca que está vigente até hoje.

Até mesmo pra apontar os erros e o descaso pra com o futebol feminino por parte da FPF – que prioriza um torneio amistoso à final do seu principal campeonato feminino – e da CBF – criar um torneio amistoso da Seleção e anunciá-lo com somente um mês de antecipação é realmente uma vergonha – é preciso dar o exemplo. O calendário da modalidade precisa ser melhor organizado e por mais que a Seleção seja importante, se ela atrapalha o crescimento dos clubes isso não ajuda em nada a evolução do futebol feminino no Brasil. As duas coisas devem se desenvolver juntas, senão não dá.

Ainda há esperança de que os dirigentes corinthianos e empresários ligados a este tema tenham um pouco de bom senso, visão de futuro e vontade de quebrar paradigmas em nome de um bem maior. O resultado disso pode ser, simplesmente, o de transformar o Corinthians num clube capaz de encher a Neo Química Arena em jogos tanto do masculino quanto do feminino, em um futuro muito breve. Todos os envolvidos nessa decisão só tem a ganhar, e muito a perder se desperdiçarem essa oportunidade.

Veja mais em: Corinthians Feminino, Campeonato Paulista, Torcida do Corinthians e Neo Química Arena.

Este texto é de responsabilidade do autor e não reflete, necessariamente, a opinião do Meu Timão.

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Victor Farinelli é um jornalista brasileiro e corinthiano residente no Chile, colabora como correspondente de meios brasileiros como Opera Mundi, Carta Capital, Revista Fórum e Carta Maior.

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