13 coisas: as mulheres no universo corinthianista

Walter Falceta

Walter Falceta Jr. é paulistano, jornalista, neto de Michelle Antonio Falcetta, pintor e músico do Bom Retiro que aderiu ao Time do Povo em 1910. É membro do Núcleo de Estudos do Corinthians (NECO).

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13 coisas: as mulheres no universo corinthianista

Semana do Centenário, em 2010, no Museu do Futebol: luta por reconhecimento e direitos

Foto: Walter F. Jr.

Sei que é mexer em vespeiro, mas neste momento é preciso coragem. Afinal, em 19 de março, no Parque São Jorge, o Núcleo de Estudos do Corinthians (NECO) realizará um importante evento sobre as mulheres e o universo do futebol.

Convém avaliar a realidade. Somos todos criados em uma sociedade machista, nós homens, e também as mulheres. O machismo se estabeleceu historicamente em parceria orgânica com outros processos de discriminação, segregação e controle social, como o racismo, a xenofobia e a homofobia.

Mesmo os mais avançados homens vão reproduzir, aqui e ali, comportamentos machistas, alguns inconscientes, incorporados aos hábitos, aos costumes e à própria língua. Seguem aqui 13 pitacos sobre a questão.

1) Muitas vezes, o homem bom assume-se como protetor da mulher. É seu jeito de apresentar-se como "gente de bem". Normalmente, porém, essa guarda se transforma em restricionismo. "Olha, não deve ir lá porque não é lugar para você", diz um. "Deixa que eu vou, porque isso é coisa para homem", emenda outro. Ora, as mulheres devem ser (e são) conscientes o bastante para decidirem onde querem ir, quando e como. Devem pesar riscos e facilidades e fazerem seus próprios caminhos, no futebol e na vida. O protecionismo masculino normalmente mascara um desejo de controle.

2) Esqueça esse papo de que o homem é o chefe da família. Família é chefiada pelo casal. Mas muitas vezes, em nosso país, o homem é simplesmente figura ausente ou inexistente. Hoje, 39,8% das famílias são chefiadas (sustentadas) por mulheres, ou seja, 27,7 milhões de lares. Naqueles casos de famílias sem cônjuge e com filhos, as mulheres seguram a barra em 87% dos casos. Portanto, os tempos mudaram. Respeito é preciso.

3) O número de mulheres que trabalham fora de casa também cresceu tremendamente em anos recentes. Em 2014, já eram 42,4 milhões. Nunca foi tão pequena a diferença. Os homens empregados eram 55,7 milhões. Detalhe: de 2004 a 2014, 9 milhões de mulheres obtiveram um emprego com carteira assinada.

4) Caramba, mas as mulheres ainda recebem menos no mercado de trabalho, mesmo executando as mesmas funções destinadas aos homens. Em postos formais, o rendimento da mulher é, na média, R$ 530 menor do que o dos trabalhadores homens.

5) Entre as pessoas que trabalham fora de casa, as mulheres ainda são, de longe, mais sobrecarregadas com as atividades domésticas. 38,5 milhões de mulheres fazem a dupla jornada. Os homens nesta condição são 28,6 milhões. Há uma diferença entre os dois grupos. As mulheres gastam 21 horas semanais cuidando da casa. Os homens na mesma situação empregam somente 10 de suas horas.

6) Ah, mas isso não tem nada a ver com futebol, dirá um, torcendo o nariz. Tem sim, pois são estas mulheres, guerreiras e lutadoras, que também necessitam do esporte para compor suas vidas, seja como prática de saúde, divertimento ou atividade de natureza educativa e cultural.

7) Dia desses, um poema publicado neste Meu Timão saudava a mulher corinthiana como "rainha do lar". Belo escrito foi aquele. E merecem todo o respeito e consideração aquelas esposas, mães e irmãs que executam as tarefas da casa. Mas será que o termo "rainha do lar" é mesmo apropriado? Não estaria estabelecendo um território de exclusão para a mulher? Não consolidaria a ideia de que suas virtudes se limitam a fazer comida, lavar roupas e cuidar de crianças?

8) A beleza existe, mas o conceito de belo é muito mais complexo do que aquele definido pela moda, pelas academias, pelas novelas e pela mídia monopolista. Beleza é padrão definido pelo poder, normalmente pelo poder econômico. Portanto, que beleza é essa eleita em concursos do tipo "musas da torcida"? O que afere? E para quê? Na verdade, estabelecem as mulheres como objetos sexualizados, como produtos de consumo sonhado. Participa quem quer. Mas será que ajuda no processo civilizatório?

9) No estádio ou diante da TV, a atenção didática pode ser gentil, mas precisa de medidas e modos. Há homens que, ao falar de futebol para uma mulher, a tratam como uma criança pequena ou uma deficiente mental. Primeiramente, você, homem, nem sempre precisa explicar nada. Elas aprendem sozinhas. Segundo, se você foi perguntado, responda de maneira séria, como responderia para o seu igual masculino.

10) Se o homem se capacitou para o resumo, para o grande mapa, para a obra geral, a mulher construiu a percepção do caso, do fato, da textura e do detalhe. Ela pode, no olhar, sacar logo o porquê da boa atuação do Luciano ou das falhas eventuais do Edílson. Isso não é regra, porque homens também podem ter essa capacidade. Mas muitas mulheres têm lupa na mão; outras, microscópio. Não as subestime.

11) Quem foi que inventou a teoria de que mulher não toca no bandeirão? Quem foi que definiu que, nos agrupamentos de torcedores, mulher só serve para levar café aos poderosos homens das diretorias e conselhos? Isso não é tradição. É reinvenção de um sistema de discriminação e opressão. Hora de mudar.

12) A mulher veste-se conforme sua visão estética, sua comodidade e seu jeito de ser e pensar. Se usa uma minissaia, por exemplo, é direito dela, dentro ou fora do estádio. E essa escolha não justifica o assédio ou o abuso.

13) A mulher, no estádio, é torcedora. Ela não é objeto do predador masculino, tampouco a figura do objeto idílico da conquista. Respeite-a, viva com ela as maravilhas do futebol.

Quer saber mais? Quer debater mais? Compareça ao evento do dia 19, a partir das 10h00, no Teatro Omni Corinthians, no Parque São Jorge. E, vai, Corinthians!

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Por Walter Falceta

Walter Falceta Jr. é paulistano, jornalista, neto de Michelle Antonio Falcetta, pintor e músico do Bom Retiro que aderiu ao Time do Povo em 1910. É membro do Núcleo de Estudos do Corinthians (NECO).

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