Do choro de crianças aos problemas financeiros: o drama das famílias dos inocentes presos no Rio

Do choro de crianças aos problemas financeiros: o drama das famílias dos inocentes presos no Rio

Por Lucas Faraldo e Vinicius Souza

Meu Timão ouviu familiares de André Tavares e Gustavo Inocêncio

Meu Timão ouviu familiares de André Tavares e Gustavo Inocêncio

Passados 21 dias da prisão dos 31 torcedores do Corinthians acusados de envolvimento na agressão contra policiais militares no Maracanã, ainda não há boas notícias para as famílias dos inocentes. Em meio aos abusos de autoridade a que os corinthianos foram submetidos, dois pais de família estão presos injustamente em Bangu. A história deles já foi mostrada pelo Meu Timão: parentes e amigos de André Tavares e Gustavo Inocêncio apresentaram provas documentais de que ambos não estavam envolvidos no episódio, mas continuam tendo os pedidos de habeas corpus negados.

Além do sofrimento imposto aos dois inocente, quem também sofre nessas três semanas são os familiares das vítimas. Abaixo, o Meu Timão relata o drama das famílias de André e Gustavo, que vai desde choro e perguntas de filhos e afilhados a dificuldades financeiras.

Nem André nem Gustavo participaram da briga no Maracanã

Nem André nem Gustavo participaram da briga no Maracanã

Foto: Reprodução/TV

André Tavares

A injusta prisão de André Luis Tavares da Silva, de 39 anos, está trazendo consequências muito negativas aos familiares do corinthiano. Desde a dificuldade financeira em pagar contas da casa e honorários e viagens do advogado à angústia de não saber quando e nem como o então alegre pai de família retornará para casa, em Santo André.

O caso de André se tornou emblemático pois ele nem mesmo estava no Maracanã no momento da briga entre torcedores e policiais militares. Fotos de seu celular provam que, no horário da confusão, o corinthiano ainda estava do lado de fora do estádio com seu enteado e alguns amigos.

"Saí 5h30 da manhã do trabalho, o André me pegou de carro e fomos para o Rio, onde encontraríamos alguns amigos. Deixamos o carro num estacionamento perto do Shopping Rio Sul. Depois do almoço, resolvemos ir de metrô para o estádio. Antes, eu, o André e mais um amigo nosso ficamos numa lanchonete em frente ao metrô esperando amigos nossos, o André lá deixou o celular carregando lá até", lembra Maurício, enteado de André.

"Aí seguimos de metrô. Então o André lembrou que tinha esquecido o celular carregando lá. Aí ele teve que voltar pra pegar, e nisso perdemos um metrô. Atrasados, o que inclusive nos salvou de entrar no estádio e ter presenciado a briga, entramos no metrô, tirando fotos no metrô, do lado de fora do Maracanã e tal. São nossas provas, sabe? O André sempre comigo, do meu lado a gente conversando..." completa, pausando a fala em meio ao inevitável choro.

André durante encontro com o atacante Ángel Romero

André durante encontro com o atacante Ángel Romero

Foto: Arquivo pessoal

Fato é que, mesmo tendo provas de que não participou da briga, André não conseguiu, passadas três semanas, deixar a prisão no Rio de Janeiro. Os pedidos de habeas corpus são negados um atrás do outro. O próximo passo da família é solicitar, junto ao advogado de defesa, um recurso no Supremo Tribunal Federal, em Brasília.

"Para isso precisamos de R$ 5 mil, que é o custo de viagem, de honorários do advogado e tudo o mais. Estamos contando com ajuda de amigos, porque não temos esse dinheiro disponível assim", conta Ana Cristina, esposa de André.

"Às vezes começa a dar um desespero na gente, porque a sensação é que ninguém quer ouvir o que a gente quer dizer. Não sei em que momento que vão individualizar esse processo. Sempre que negam habeas corpus, falam no grupo, no todo, confirmam a prisão preventiva com base em serem pessoas perigosas. Fica difícil, estamos com advogado particular, tentando a liberdade do André. Punição a gente quer para quem fez aquilo, futebol tem que ser divertido, não é para ser perigoso", acrescenta.

Em meio a tal desespero, problemas vão se acumulando nas costas de Ana Cristina, Maurício e o resto da família. Na última terça, a esposa de André teve de viajar ao Rio de Janeiro apenas para tirar o carro que estava havia mais de 15 dias no estacionamento - foram cobrados mais de R$ 1 mil.

"Não dá para deixar um pai de família lá dentro, a família sem eira nem beira aqui. O André é autônomo: trabalhou ganha, não trabalhou não ganha. Estou aqui nos trancos e barrancos me virando pra tentar pagar parte das contas", argumenta Ana Cristina.

André ao lado da esposa Ana Cristina, da filha e de uma enteada

André ao lado da esposa Ana Cristina, da filha e de uma enteada

Foto: Arquivo pessoal

Com relação ao enteado, as lembranças dos dias em que permaneceu na cidade carioca tentando em vão a liberdade do padrasto ainda lhe perturbam diariamente.

"Minhas coisas, roupas, estavam tudo no carro. Minha medicação estava dentro do carro, minha insulina. Sou diabético e estava passando muito mal. Aí comprei insulina lá, porque não pode ficar muito tempo fora da geladeira, e deixei no frigobar do hotel. Fiz um acordo com um cara lá para apenas dormir. Aí ficou mais barato. E passava os dias vagando nas ruas do Rio, comprando insulina, passando perigo nas ruas, com a mesma roupa do corpo por uns quatro dias. E sem saber da situação do André, sempre esperando pelo amanhã, perdendo dias de trabalho, prejudicando demais minha saúde", recorda.

"Chegou uma hora que não resisti mais, minha mãe chorando muito porque o marido estava preso e o filho largado nas ruas do Rio de Janeiro. Voltei arrasado por não estar com meu padrasto", diz, novamente entre soluços.

Mesmo agora estando em casa, Mauricio segue a triste rotina de só pensar em André e em sua situação na penitenciária de Bangu. Ele e o restante da família. A filha de André, de apenas dez anos, e os enteados mais novos não conseguem entender a dimensão nem os motivos do problema.

"A filha dele está muito abatida, triste pelos cantos. Meus filhos pego eles chorando pelos cantos escondidos, porque não querem chorar perto de mim para não piorar minha tristeza. E fico muito triste com essa situação de que juízes e desembargadores não pensam na família desses seres humanos. Se existe uma chance de eles não serem culpados, em que momento isso vai ser revisto? Isso me assusta demais", lamenta Ana Cristina.

André, à esquerda, durante batizado da filha

André, à esquerda, durante batizado da filha

Foto: Arquivo pessoal

Pai de família, corretor de seguros e dono de uma empresa em Itaquera, alegre e torcedor apaixonado pelo Corinthians. Este é o resumo de André Tavares da Silva. A questão é: passados os próximos dias e, provavelmente, André tendo conseguido a liberdade, o pesadelo estará encerrado?

"Quando pegaram o André [durante a revista feita nas arquibancadas], o André até falou que não é de torcida organizada, que tinha ido de metrô, com os amigos e tal. Aí o policial ironizou ele e falou 'você não vai me comover'. Eu fiquei tranquilo porque pensei que levariam para a delegacia e identificariam que o André não estava lá. Mas foi aí que começou nosso pesadelo, porque ele não foi solto", relata Maurício.

"O que eu mais temo nisso tudo é o André voltar diferente de lá. É a primeira coisa que veio na minha cabeça, ele deixar de ser essa cara feliz, alegre, sempre para cima. Isso me preocupa muito. É muito triste isso. Só o que eu desejo é que ele saia logo e mantenha esse espírito de moleque, de alegria. É uma pessoa muito importante para a gente", finaliza.

Gustavo Inocêncio

A situação dos familiares de André Tavares é semelhante ao momento vivido pela esposa e pelos filhos do corinthiano Gustavo Inocêncio Meira Rosário, de 24 anos, outro detido injustamente na Cadeia Pública José Frederico Marques, em Bangu, no Rio de Janeiro.

Natural de Avaré, interior de São Paulo, Gustavo tem uma filha e um enteado, tratado carinhosamente como filho. Torcedor fanático pelo Timão, ele trabalhava como garçom em um restaurante na cidade onde mora. “Meu filho mais velho pede bastante pelo pai, porque ele já entende. A minha pequena, conforme você vai falando, ela fica chamando o pai, mas ela só sabe falar ‘pai, pai, pai...’. Ela tem um ano e dois meses, não entende muito”, conta Bethania Pereira, esposa de Rosário.

Gustavo, ao lado do enteado e da filha

Gustavo, ao lado do enteado e da filha

Foto: Arquivo pessoal

De acordo com a companheira de Gustavo, o garoto mais velho, de apenas dez anos, tem o discernimento do drama atravessado pela família. “Ele fala pra mim: ‘Mãe, mas meu pai não é bandido para estar preso. Por que o policial prendeu meu pai?’. A gente explicou pra ele: ‘Teve uma briga, confundiram seu pai com alguém, arrumaram características para todos’. Ele fala: ‘Mãe, isso é muito injusto’”, relata a mulher, que segura a emoção ao descrever a saudade do filho.

Ele passa perfume do pai dele pela casa. Eu pergunto o porquê, daí ele fala: ‘Mãe, porque eu fico mais perto do meu pai’. São 20 dias longe”.

Por conta da prisão de Gustavo, que sustentava o lar, a família tem recebido ajuda financeira de amigos próximos ao casal. “Eu estou dependendo da ajuda de amigos, do meu pai, da minha mãe. Dos amigos nossos da subsede [da Camisa 12, de Avaré], que são torcedores do Corinthians, mas amigos antes disso. A gente vai se virando, pegando um pouco lá, um pouco cá. A gente vai se virando, porque está difícil”, lamenta.

A defesa de Gustavo tinha a esperança de obter o habeas corpus após o julgamento da liminar, o que não ocorreu. “Infelizmente a desembargadora não analisou os vídeos, a perícia juntada, as provas, simplesmente disse que não caberia a ela investigar o que foi ocorrido, caberia à primeira instância, e que era pra aguardar”, diz o advogado João Drummond Freitas, responsável pelo caso.

Gustavo (em destaque) não participou de confusão com a PM no Maracanã

Gustavo (em destaque) não participou de confusão com a PM no Maracanã

Mesmo sem quaisquer relações com o confronto no Maracanã, Gustavo foi apontado como culpado por um dos agentes e conduzido à Cidade da Polícia pelo Grupamento Especial de Policiamento em Estádios (Gepe) da PM do Rio após o apito final. O processo judicial não conta com material recolhido da transmissão do jogo, o que facilitaria a identificação de cada um dos envolvidos.

“Agora vamos ingressar no STJ (Superior Tribunal de Justiça), uma pedida também liminar, e o processo agora corre aqui. Ocorre que, no mérito do habeas corpus, eles vão ter que fundamentar a decisão e logicamente analisar as nossas provas”, projeta o especialista, que revelou o cenário desumano a que Gustavo tem sido submetido.

“A situação lá no presídio está bem precária. Eu conversei com o Gustavo ontem (quinta-feira), ele reclamou que nem papel higiênico tem. Está bem deficitária a situação, nem papel higiênico os meninos têm lá”, completa.

Gustavo e Bethania são torcedores do Timão

Gustavo e Bethania são torcedores do Timão

Veja mais em: Corinthianos presos no Rio.

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