Corinthians e Cássio se tornam peça-chave para tratamento de autismo de torcedor

Corinthians e Cássio se tornam peça-chave para tratamento de autismo de torcedor

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Caco, Cássio e Ana viveram dia especial no CT do Corinthians na última sexta-feira

Caco, Cássio e Ana viveram dia especial no CT do Corinthians na última sexta-feira

Foto: Lucas Faraldo / Meu Timão

"Nunca imaginei que meu filho um dia fosse gostar de um time de futebol ou querer conhecer um jogador. Ele não expressava isso. A gente da família nunca imaginava isso e muito menos que fôssemos conseguir. Estou muito emocionada, muito agradecida por tudo isso estar acontecendo."

A fala acima foi pronunciada por Ana Lúcia Félix, mãe de Caco e uma das fundadoras do grupo Acolhe Autismo, da Baixada Santista, durante visita do Meu Timão à casa da família, em Santos. O "tudo isso" citado por ela tem bastante relação com o Corinthians – e com o goleiro Cássio. E você já já entenderá o porquê.

Há exatos dez anos, 2 de abril se tornou o Dia Mundial de Conscientização do Autismo, conforme instituído pela ONU. Este domingo, portanto, é uma data especial para cerca de 2 milhões de brasileiros – dados do CDC (Centro de Controle e Prevenção de Doenças), órgão ligado ao governo dos Estados Unidos, apontam a existência de um caso de autismo a cada 110 pessoas no mundo atualmente.

Parte dessa grande parcela da população brasileira gosta de futebol. Um nicho um pouco mais específico, do Corinthians. O jovem Carlos Alberto Júnior, o Caco, de 19 anos, é um exemplo.

Caco foi diagnosticado com Transtorno do Espectro Autista (TEA ou simplesmente autismo) aos 8 anos de idade. Entre os muitos sintomas que uma criança autista pode apresentar (dificuldade de comunicação, dificuldade com interações sociais, interesses obsessivos, comportamentos repetitivos, entre outros), o ainda pequeno Carlos Alberto tinha aversão a comida e, consequentemente, problemas relacionados a alimentação.

Caco, quando criança, de vermelho, junto com a família

Caco, quando criança, de vermelho, junto com a família

Arquivo pessoal

"Procuramos cinco pediatras e oito psicólogas, sempre morrendo na praia. Todos os médicos tinham dificuldade em diagnosticar, porque ele fala. 'Então não era autista', o que é uma ideia errada. O autismo nem sempre é o clássico, do autista que não te olha nos olhos, que se bate, que grita, emite sons, não fala...", lamentou Ana, haja vista que, quanto mais cedo o autismo for diagnosticado, maior a probabilidade de o tratamento ser efetivo.

Enfim diagnosticado, Caco iniciou tratamento de autismo com uma psiquiatra que o acompanha até os dias de hoje – atualmente, porém, não há mais necessidade de medicação. As fases de infância e adolescência não foram fáceis: a escola era um grande terror na vida do jovem que ainda não se entendia como torcedor do Corinthians. Se relacionar com futebol, aliás, passava longe de suas aspirações.

"Ele era uma criança aparentemente tímida, mas não era timidez: não queria se socializar. Ele tinha muita aversão à escola, e o futebol das crianças costumava ser sempre depois da aula, né? Eu queria muito que ele participasse, mas nem que a vaca tossisse, porque ele detestava escola. Até os 11 anos foi um problema cruel, ele não suportava, chorava muito, gritava, não queria ir, não se enturmava", recordou Ana.

Aos poucos, contudo, Caco foi expandindo seus interesses. Além de assistir a desenhos animados na televisão e brincar com jogos virtuais no computador, ele se descobriu torcedor do Corinthians – em princípio, apenas para agradar e puxar assunto com a corinthiana diretora da escola onde estudava. Isso em um improvável cenário: avó e bisavó santistas, melhor amigo santista e cidade majoritariamente santista.

Jogar Euro Truck Simulator 2 é um dos passatempos preferidos de Caco

Jogar 'Euro Truck Simulator 2' é um dos passatempos preferidos de Caco

Lucas Faraldo / Meu Timão

Ciente do repentino interesse do garoto por futebol, a ala corinthiana da família passou a levá-lo às arquibancadas – de Pacaembu e Arena Corinthians. O passeio tem alguns entraves relacionados à dificuldade de Caco em se concentrar por muito tempo em uma mesma atividade – explosão de rojões, batuque de instrumentos e os próprios detalhes de infraestrutura dos estádios o distraem muito facilmente.

"Eu gosto muito de ir ao estádio para ver tudo de perto, a proximidade dos jogadores. Fico muito feliz de ver tudo de pertinho. Ver na televisão também não tem problema, mas é melhor ver de perto. É que acabo me distraindo às vezes", explicou Caco.

Pensando nisso, aliás, já há clubes mundo afora tornando seus campos de jogo acessíveis a torcedores autistas: o Sunderland, da Inglaterra, criou uma sala sensorial (com isolamento acústico, entre outras características) em um dos espaços de camarotes de seu estádio destinada justamente a pessoas com TEA. Tal ideia ainda não chegou ao Brasil.

Sem frequentar a Arena assiduamente, então, Caco tem como principais formas de acompanhar o Corinthians a televisão e o computador. Na visão da família, isso já é um grande passo no tratamento de autismo do jovem.

"Mexe com a linguagem. Hoje em dia ele assiste aos jogos, se programa... Demorou muito tempo para saber em qual lado do campo cada time tinha de fazer gol. E hoje, com esse carinho que ele pegou pelo Corinthians, ajudou a estimular mais, a fazê-lo se envolver, compreender melhor. Primeiro começou querendo saber os resultados para usar isso para interagir. É muito interessante isso", comentou Ana.

Quando assiste a um jogo na Arena, Caco costuma ir com o irmão André

Quando assiste a um jogo na Arena, Caco costuma ir com o irmão André

Arquivo pessoal

"Agora ele assiste aos jogos, sabe o horário, acompanha as tabelas de classificação. Esse avanço foi ativando a linguagem, o processamento mental dele. Mesmo ele não praticando esporte, o esporte tem esse papel na formação de estímulos sociais", completou.

Idolatria por Cássio

É bem verdade que a escolha pelo Corinthians como time de coração passou pela vontade de interagir com a diretora da escola onde estudava, conforme a própria mãe já havia contado. Entretanto, um fator extra – e até os últimos dias não conhecido por ninguém – que pesou a favor do Timão no coração de Caco foi a idolatria pelo goleiro Cássio.

"Meu grande sonho? Óbvio, eu queria conhecer o Cássio", contou, com a maior naturalidade do mundo.

"O quê?! Eu não sabia disso, Caco!", interrompeu Ana, se surpreendendo com a fala do filho.

"É isso, mãe. Ué. Gosto muito também do Romero e do Jô. Mas o Cássio é demais. Eu queria muito conhecer. Vi ele jogando bem, gosto muito dele. O Cássio é da hora mesmo. Gosto muito do jeito como os narradores gritam "Cáaassio" na hora das defesas. Desde que comecei a me interessar mais pelo Corinthians, por futebol, é sempre o Cássio lá no gol. É muito legal para mim. Minha irmã, que é mais velha, gostava muito do Dida. E eu gosto muito do Cássio, principalmente quando ele está vestindo a cor azul", discorreu Caco.

Ciente do sonho de Caco, o Meu Timão, em contato com Ana, o Corinthians e o próprio Cássio, armou um encontro surpresa do jovem com o goleiro na última sexta-feira, no CT Joaquim Grava.

"Oi, Cássio. Sou o Carlos Alberto, o Caco. Sou muito seu fã. Prazer", balbuciou Caco, claramente atônito por estar frente a frente com o grande ídolo.

No centro de treinamento alvinegro, Caco não apenas conheceu Cássio, como também teve oportunidade de tirar fotos ao lado de outros jogadores, receber autógrafos e conversar com aqueles por quem também tem um carinho especial, como Ángel Romero e Jô.

Caco viveu dia especial no CT: conheceu Cássio, Romero, Jô e outros

Caco viveu dia especial no CT: conheceu Cássio, Romero, Jô e outros

Lucas Faraldo / Meu Timão

"Caramba! É tudo muito grande aqui. Os campos, a sala de entrevista, o Cássio... Foi um dia muito legal, uma surpresa muito especial", resumiu Caco.

Conscientização

O motivo da criação do Dia Mundial de Conscientização do Autismo, que tem como principal característica a iluminação de monumentos Brasil e mundo afora com a cor azul (símbolo do TEA), é justamente conscientizar a população acerca das peculiaridades dos autistas e da importância de integrá-los à sociedade. É esse o objetivo do grupo Acolhe Autismo, liderado pela mãe de Caco.

"O que eu costumo falar é que, para ajudar, precisamos entender. E para entender precisamos conhecer. Esse é nosso jargão. As atitudes erradas, inadequadas e preconceituosas provêm da ignorância, da falta de informação", declarou Ana.

"É algo muito complexo, há um mistério muito grande por trás do autismo ainda. É uma turma que veio para mexer com todo mundo: desde os cientistas até as pessoas mais humildes. Infelizmente as informações ainda são descompassadas. A conscientização vem daí. Precisamos de mobilização", finalizou.

Monumentos Brasil e mundo afora são iluminados anualmente com a cor azul para chamar atenção para a conscientização do autismo

Monumentos como o Cristo Redentor são iluminados em 2 de abril

Reprodução

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