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Voz Corinthiana
Democratizar para profissionalizar: coletivo convoca torcida para reformar estatuto do Corinthians
Por Victor Godoy
Já há algum tempo, a forma como o Corinthians vem sendo administrado gera revolta na Fiel. Os mesmos cartolas de 30 anos atrás, a dívida ultrapassando a casa dos R$ 2 bilhões e a política dando as cartas no Parque São Jorge são alguns motivos que vêm fazendo a torcida pensar em soluções para o clube. Alguns apontam que a única solução é virar uma sociedade anônima - uma SAF -, enquanto outros vão no caminho de uma reforma do antiquado estatuto alvinegro. É assim que surge o Coletivo Voz Corinthiana, que busca unir os mais de 35 milhões para formular um projeto viável de reforma do documento para profissionalizar e guiar o Timão para um futuro mais próspero.
O Meu Timão conversou com Fabio, Philippe e Augusto, três dos 12 integrantes do coletivo, que explicaram como surgiu o movimento e as ideias para mudar a situação do Corinthians.
Movimento pelo Corinthians, acima de tudo
"Eu (Fabio) e o Philippe conversávamos muito sobre a política interna do clube, a falta de responsabilização, governança, enfim... E a gente começou a observar pessoas na internet reclamando da estrutura e reivindicando a reforma do estatuto. Mas era tudo muito genérico, pouco concreto. Aí pensamos o que daria para ser feito. Vamos tentar falar com o pessoal de várias áreas, como economia, administração, direito e marketing e pensar nos parâmetros para uma reforma do Estatuto. O grupo é muito diverso não só de formação, mas na questão de ser sócio ou não. Começamos a pensar de fora para dentro (do Parque São Jorge). Pensamos muito em impessoalidade, profissionalização, transparência, governança e órgãos de controle", contou Fabio durante a entrevista.
Ao longo da conversa, foi deixado claro que a ideia não é promover nenhum membro do coletivo, mas sim a ideia em prol do Corinthians - por mais que entendam que em algum momento alguém terá que assumir o posto de porta-voz. Até por isso, foi pedido à reportagem que não utilizasse os nomes completos dos entrevistados. Os 12 membros do Coletivo Voz Corinthiana se dividem entre advogados, economistas, engenheiros e especialistas em marketing.
"Um cuidado que a gente tem no nosso projeto é tentar trazer uma abordagem geral, porque tudo está interligado. A gente precisa se questionar e ir atrás de tudo que vemos como problema. Falamos sobre o estatuto do clube e também de mudanças no futebol. Estamos pensando em um projeto bem amplo", apontou Philippe.
"Ao mesmo tempo que é um projeto geral, é específico. Que não há transparência e fiscalização (no Corinthians), todo mundo sabe. Nossa preocupação nesse primeiro momento é que não é uma coisa que vai solucionar. Não adianta aumentar o colégio eleitoral por aumentar e não questionar a estrutura política. Quais artigos estão equivocados e por que talvez não funcionem. É um processo de fora para dentro e até debaixo para cima. É um pouco utópico, mas é algo que a gente acredita: uma opinião popular e embasada, que consiga fugir do senso comum", complementou Augusto.
Lançado há cerca de uma semana, o coletivo vem reunindo respostas da Fiel em um formulário do que o Corinthians deveria fazer para melhorar - é possível acessar clicando aqui. Depois, será feito um documento concreto para pessoas dentro do clube e para as torcidas organizadas, que possuem maior contato com a administração e com os órgãos responsáveis pela reforma estatutária. Neste momento, Romeu Tuma Júnior, presidente do Conselho Deliberativo, já se mostrou aberto a conversar com o Coletivo Voz Corinthiana.
Ontem recebemos várias propostas importantes pelo formulário!
— Coletivo Voz Corinthiana (@coletivovozsccp) June 6, 2025
Se ainda não mandou a sua ou quer conferir o projeto, segue o link para acesso ao:
📝 Formulário para Participação;
📄 Doc. com os Capítulos 1 a 4 do Sumário;
📌 Apresentação do Projeto.
⬇ https://t.co/zCjKa2dUZz
Mudanças no estatuto para despolitizar o Corinthians
O estatuto do Corinthians foi formulado em 2008. De lá para cá, a legislação brasileira, as dimensões do futebol e até a língua portuguesa mudaram bastante. O principal norte do Coletivo Voz Corinthiana é a Lei Geral do Esporte, sancionada em junho de 2023, que traz diversos tópicos de gestão esportiva tanto para SAFs quanto para associações, como o caso do Timão.
"Os princípios gerais da gestão. A Lei Geral do Esporte elenca responsabilidade corporativa, que é esse processo de responsabilização interna, a transparência, a prestação de contas, a equidade, a participação e a integridade. A gente está se ancorando na legislação que impõe o dever ao clube de atualizar o estatuto. Para além disso, ela não impede formas mais robustas de controle. A gente pode partir dela e construir algo mais concreto que proteja mais o clube, como os deveres dos gestores esportivos, que também não estão no estatuto. São os deveres de diligência, lealdade, informação - que também se relaciona à transparência", explicou Fabio ao Meu Timão.
"Tem também o impedimento para gestão esportiva, que é que quem tem decisão penal contra não pode exercer cargos de gestão esportiva. Tem também a regulamentação da gestão temerária. Tem no estatuto, mas é tudo muito genérico. Por exemplo, na Comissão de Ética eles falam de 'denegrir a imagem do clube' - que também é um termo que precisa ser atualizado -, então são punições muito genéricas que na hora de aplicar a politização sobressai em detrimento da responsabilização", complementou.

O impeachment de Augusto Melo, inclusive, vem sendo votado por denegrir e prejudicar a imagem do Corinthians, por isso a politização do caso tanto pelo presidente afastado quanto pelos conselheiros envolvidos
José Manoel Idalgo / Agência Corinthians
"A Lei Geral do Esporte de 2023 também coloca alguns pré-requisitos que estão totalmente em consonância com o que colocamos: transparência, responsabilização, possibilidade de um presidente responder com o próprio CPF por alguma irregularidade ou gestão temerária. Construímos esses princípios e agora vamos escutar a torcida. A solução não pode vir só de um grupo pequeno e fechado, como é no Parque São Jorge, tem que vir de fora para dentro, com base legal e moral", finalizou Fabio, sempre destacando a necessidade da participação da torcida.
Em paralelo à mudança do estatuto, o Coletivo também propõe reformulações de órgãos internos, como o Conselho Deliberativo e o Conselho de Orientação (Cori), se baseando na participação de ex-presidentes nesses grupos.
"No Cori, o ex-presidente do Conselho e da diretoria vira automaticamente membro nato. De controlado, ele vai para controlador dentro do Cori. É algo que prejudica muito a engrenagem de uma governança que a gente sonha ser técnica, independente da política", comentou Fabio, citando o caso do ex-presidente Duilio Monteiro Alves, que confessou uma série de dívidas no final de seu mandato e atualmente é um membro nato do Cori e um conselheiro vitalício, como determina o estatuto.
"Hoje, os ex-presidentes - se tem ali Andrés, Duilio e até o Jaça - compõem o grupo de membros natos do Cori, então essas gestões temerárias, invés de serem penalizadas, acabam sendo agraciadas em fazer parte de um órgão muito importante para o Corinthians", apontou na sequência Augusto.
O Coletivo Voz Corinthiana divulgou um documento de 20 páginas apontando alguns pontos do atual estatuto que precisam ser atualizados - leia clicando aqui . Um ponto destacado pelo trio durante a conversa foi que, internamente no clube, não há nenhuma exigência de pré-requisitos para que diretores exerçam os cargos.
"A politização para a nomeação de determinados cargos estratégicos do clube destrói o potencial que o clube tem de, por exemplo, ter êxito nas categorias de base. Isso destrói a gestão do clube, porque você tira o requisito técnico e coloca a politização pura. Construir parâmetros, critérios e controle sobre isso é um jeito de fortalecer a governança", destacou Fabio.
"Não é proibido pelo estatuto ter profissionais no clube, tanto que a gente tem o Fabinho Soldado (executivo de futebol do elenco profissional). Mas, dependendo do nível do profissional, ele vai ter sérias dificuldades por conta da política", disse Philippe na sequência.
Enquanto ainda estava na presidência, Augusto Melo chegou a dizer publicamente que sofreu pressão devido à contratação de Fabinho Soldado. Paradoxalmente, Fred Luz, inicialmente anunciado como CEO, hierarquicamente ficava abaixo dos diretores estatutários dentro do Corinthians e em menos de um ano deixou o clube.
Em relação ao Conselho Deliberativo, o Coletivo Voz Corinthiana destacou que a torcida deve tomar decisões em relação ao que vai constar no documento. Contudo, há um projeto para que os conselheiros vitalícios deixem de tomar decisões e passem a ser um órgão consultivo.
"Hoje dentro do Conselho Deliberativo existem 100 vitalícios e 200 trienais. Ainda não sabemos o que a torcida pensa sobre o número de conselheiros. Mas vamos supor que eles entendam que tem que ficar os 200 conselheiros trienais. A ideia é que os vitalícios fossem convertidos em um órgão consultivo. Esses 100 vão integrar um órgão consultivo. Irão decidir alguma coisa? Não. Eles irão emitir um parecer para dar a opinião deles e quem tem a caneta - no caso, os trienais - irão avaliar se vão acompanhar ou não. Quem vai decidir são os trienais", declarou Fabio, que complementou na sequência: "No Cori, a mesma coisa. Os membros natos virariam consultivos e os eleitos iriam seguir ou não o parecer deles. Não seriam votos, seriam pareceres para os eleitos votarem."
Fim da demonização do clube social e possibilidade de SAF

Meu Timão
Além das críticas aos conselheiros, o clube social geralmente também é apontado pela torcida como algo negativo para o clube, ainda mais quando Miguel Marques e Silva, presidente do Cori, disse que "o clube não é da torcida. O clube é dos associados" . O ponto destacado pela Fiel é geralmente o prejuízo que o Parque São Jorge geralmente gera. Em 2023, por exemplo, foram R$ 62 milhões em receitas contra R$ 100 milhões em despesas e mais juros de R$ 80 milhões, culminando em um déficit de R$ 119 milhões.
Apesar de depender da torcida, o Coletivo Voz Corinthiana entende que o clube social é parte importante dessas reformas. "Uma reforma que também considere o clube social, que é colocado como o grande impeditivo para mudanças mais significativas no colégio eleitoral. É também colocar o clube social no centro do debate é fundamental para que essa reforma seja viabilizada, senão não tem como. Você não consegue reformar o colégio eleitoral se não discutir como isso vai ser feito junto da estrutura do clube social", comentou Augusto.
"A gente pensa em como criar mecanismos de sustentabilidade para o clube social. De repente projetos incentivados com a valorização dos esportes olímpicos. Existem diversos projetos. Existem saídas. Há propostas e há a necessidade de se aprofundar. Não existem respostas simples para o problema do Corinthians", complementou Fabio.
Outra possibilidade levantada é o clube se tornar uma sociedade anônima. A diretoria da Gaviões da Fiel, principal torcida organizada do Corinthians, disse ser contra o clube se tornar SAF . Contudo, a torcida alvinegra tem olhado com curiosidade o projeto da SAFiel, que não envolve vender o Timão para um dono, mas sim para a torcida mirando em uma melhora na administração. O Coletivo Voz Corinthiana disse conversar sobre, mas Philippe resumiu em um ponto: "Se vai ser SAF ou não, tudo passa pela reforma do estatuto." Afinal, depende dessa alteração para ocorrer essa mudança estrutural.

Nesta semana, o Parque São Jorge foi palco de um protesto da Gaviões da Fiel, que ocupou o clube e colocou a faixa "Luto. Fechado por má administração"
Meu Timão
"Não é 'vai virar SAF e pronto'. Para virar SAF, precisa mudar o estatuto, tem uma discussão interna. O que é concreto hoje que a gente possa fazer para profissionalizar e garantir uma gestão independente da politicagem de dentro do Corinthians", deu sequência Fabio.
"Tem vários modelos (de SAF) por aí. Alguns que deram errado e outros que deram certo. O Corinthians teria que pensar um projeto que seja dele, mas acho que não tem como pensar sem passar pela torcida. Nossa contribuição seria justamente essa", encerrou Augusto.
Participação da torcida do Corinthians
Junto dessa reforma do estatuto, para o grupo seria interessante garantir que a torcida do Corinthians tenha maior participação política ao mesmo tempo, de criarem mecanismos de uma maior fiscalização da Fiel.
"O colégio eleitoral hoje é algo muito ínfimo com relação ao tamanho do Corinthians. Vamos escutar e debater ideias para aumentar o colégio eleitoral de alguma maneira. É necessária uma maior participação do torcedor. Todo torcedor quer isso, mas não sabe como fazer no estatuto. Nossa ideia é materializar isso nessa reforma", comentou Fabio. "A participação da torcida está no DNA do Corinthians, não tem como tirar isso. Nos recentes anos acabamos esquecendo que o clube é nosso. Precisamos resgatar isso. A gente busca o apoio da torcida porque somos pequenos, precisamos do apoio da torcida mandando ideias porque só assim vamos fazer com que essas reivindicações cheguem mais a fundo", também destacou Philippe.
O grupo destacou diversas possibilidades de aumentar esse contato, como a criação de um "Portal da Transparência". "É elementar para um mecanismo de governança que tenha participação. A partir da divulgação de dados, temos controle, seja da torcida ou do próprio clube. É fundamental. A Lei Geral do Esporte e o Profut falam disso", comentou Fabio, que usou o Fluminense como exemplo.
"Estamos tentando entender como a torcida se sentiria representada na fiscalização. Algum canal que poderia ser aberto para escutar denúncias. É uma via que a gente poderia construir via estatuto. É uma possibilidade, principalmente tendo o desenho de um órgão de controle independente, com autonomia, para exercer a função. Canais de denúncia teriam efetividade nesse sentido. E não é difícil fazer. Tem o portal da transparência do Fluminense que tem um PDF de todos os jogadores, a porcentagem especificada de direito do jogador e isso ajuda na fiscalização. O Corinthians tem quanto porcento de cada jogador? A gente não faz ideia. É uma coisa simples que ajuda no controle", apontou.
A ideia do Coletivo Voz Corinthiana é reunir as ideias quanto antes, uma vez que a reforma do estatuto é uma pauta quente dentro do clube e a tendência é que o façam logo.
"Às vezes falam que o projeto não é factível, mas desde que a gente consiga pensar num projeto para o Corinthians, longe da politização, com profissionalização, já vai ser um ganho. Ter um norte desenhado, dialogado, debatido pensando na profissionalização tem sempre a ganhar. A nossa ideia é provocar com argumentos e ideias concretas respaldadas legal e academicamente para o Corinthians sair desse limbo político", encerrou Fabio.





