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Dinheiro travado
Corinthians tenta resolver imbróglio com a Caixa por premiação bloqueada da Copa do Brasil
Por Felipe Sales e Rodrigo Vessoni
Em dezembro de 2025, o Corinthians conquistou o seu quarto título da Copa do Brasil ao vencer o Vasco por 2 a 1, no Maracanã . Dias após a conquista, porém, o clube do Parque São Jorge teve cerca de 50% da premiação bloqueada pela Caixa Econômica Federal, como parte das garantias oferecidas na repactuação da dívida da Neo Química Arena, assinada em 2023 durante a gestão de Duilio Monteiro Alves.
A informação foi divulgada inicialmente pelo UOL Esporte e confirmada pelo Meu Timão. Com o título, o Corinthians garantiu uma premiação de R$ 77.175.000, valor já depositado nos cofres alvinegros pela Confederação Brasileira de Futebol (CBF), segundo a reportagem. Do montante, houve a dedução de cerca de R$ 8 milhões referentes a tributos e impostos, além da retenção de aproximadamente metade do valor pela Caixa.
O portal teve acesso ao acordo assinado em 2023, com aval da então diretoria liderada por Duilio, que estabelece como garantias não apenas para o principal valor da dívida, mas também juros futuros, encargos e correções, independentemente do período em que venham a vencer. No contrato, o Corinthians cedeu ao banco receitas presentes e futuras, como bilheteria, aluguéis e outros recebíveis, como forma de assegurar o cumprimento das obrigações financeiras.
Osmar Stabile tenta liberar a premiação da Copa do Brasil com a Caixa
Ainda de acordo com o UOL Esporte, do total da premiação, a atual gestão do Corinthians, presidida por Osmar Stabile, pretendia destinar aproximadamente R$ 34 milhões como premiação ao elenco e aos funcionários pela conquista da Copa do Brasil. O valor restante estava reservado para o pagamento de dívidas que hoje colocam o clube sob transfer ban e outras restrições administrativas.
Diante desse cenário, Stabile tenta reverter junto à Caixa Econômica Federal o bloqueio dos recursos. O presidente se reuniu com Carlos Vieira, dirigente máximo da instituição financeira, na tentativa de destravar valores que eram considerados estratégicos para aliviar o fluxo de caixa do clube neste início de ano.
Na negociação, o Corinthians sustenta que o banco estaria utilizando uma receita de 2025 para abater juros com vencimento previsto apenas para 2026. A Caixa, por sua vez, se apoia nos contratos de cessão fiduciária firmados com o clube para justificar a retenção.
Pelos termos do acordo, a instituição financeira tem respaldo para reter qualquer valor recebível enquadrado no contrato como forma de se proteger contra eventual inadimplência, mesmo que o vencimento da obrigação esteja projetado para anos futuros. Assim, sob a ótica contratual, o argumento corinthiano encontra pouca margem de sustentação.
A principal pendência do Timão no início deste ano são os transfer bans. Desde 12 de agosto, o clube do Parque São Jorge está impedido de registrar novos jogadores por determinação da Fifa, em razão de uma dívida estimada em cerca de R$ 40 milhões referente ao não pagamento da contratação do zagueiro Félix Torres junto ao Santos Laguna. Stabile prometeu quitar o débito até a abertura da janela de transferências, no dia 5 de janeiro de 2026 .
Além disso, o Corinthians também sofre uma sanção imposta pela Câmara Nacional de Resolução de Disputas (CNRD) , órgão da Confederação Brasileira de Futebol (CBF), em razão do atraso no pagamento das primeiras parcelas de um acordo que totaliza R$ 76 milhões. A próxima parcela vence no dia 17 de janeiro, e o clube entende que, com a regularização do pagamento, a punição será automaticamente retirada.
Relembre a negociação do Corinthians com a Caixa
Ainda em 2022, o clube do Parque São Jorge firmou um acordo com a Caixa para a renegociação da dívida relacionada ao seu estádio . O financiamento foi consolidado em R$ 611 milhões — sem considerar juros e encargos — com prazo de quitação até 2041.
Nos dois primeiros anos do novo contrato, em 2023 e 2024, o Corinthians arcou apenas com parcelas referentes aos juros do período em que deixou de pagar o financiamento durante uma disputa judicial que se estendeu por cerca de cinco anos. Ao todo, foram quitadas oito parcelas trimestrais nesse intervalo.
A partir do início de 2025, a amortização do valor principal da dívida passou a ser efetivamente iniciada. Até o momento, está confirmado que o Timão desembolsou cerca de R$ 60 milhões no último ano, referentes às parcelas com vencimento em março e junho de 2025. Ainda assim, permanece a indefinição sobre o pagamento das parcelas de setembro e dezembro.
No balanço financeiro divulgado pelo Corinthians em outubro, o clube não detalhou a situação atualizada da dívida da Arena. Dessa forma, não há confirmação oficial sobre a quitação da parcela de setembro, tampouco da de dezembro. A equipe alvinegra costuma publicar seus balancetes com um intervalo de dois a três meses após o encerramento de cada período, em razão de procedimentos e registros contábeis. O último demonstrativo com dados consolidados sobre a dívida junto à Caixa referente à Neo Química Arena é o de setembro, quando o montante estava registrado em R$ 653,1 milhões.
Atualmente, o clube conta com receitas geradas pelo estádio para realizar o pagamento das parcelas, como a bilheteria, aluguéis e outros recebíveis, além do contrato de naming rights firmado com a Hypera Pharma. O acordo, válido de 2020 até 2040, rende cerca de R$ 15 milhões anuais, com valores corrigidos pela inflação, e garante à empresa o direito de batizar a Neo Química Arena.
Outra iniciativa para auxiliar no pagamento do financiamento foi a campanha de arrecadação organizada pela Gaviões da Fiel. Após um ano no ar, o projeto foi encerrado em novembro, com R$ 41,4 milhões arrecadados — o equivalente a 5,9% da meta de R$ 700 milhões .
Ao longo de 365 dias, a campanha contabilizou 908.704 doações e permitiu a quitação de mais de 200 boletos do financiamento, abatendo juros e encargos. Com isso, a dívida da Arena caiu de R$ 688,9 milhões para cerca de R$ 653,1 milhões, segundo o balancete de setembro.
Ainda em setembro do último ano, o Corinthians iniciou tratativas para uma nova renegociação da dívida da Neo Química Arena com a Caixa . De acordo com o Meu Timão, o presidente Osmar Stabile se reuniu com representantes do banco após sinalização de abertura para rediscutir os termos do acordo. A principal intenção do clube era reduzir os juros atuais, hoje fixados em Selic mais 2% — o que representa cerca de 18% ao ano — e migrar para um modelo atrelado ao IPCA, o que poderia diminuir o custo da dívida para algo próximo de 9% ao ano. Porém, até o momento, a negociação ainda não teve nenhum desfecho.
Também há uma negociação em andamento envolvendo o clube, a Caixa Econômica Federal e a Hypera Pharma com o objetivo de viabilizar a quitação da dívida da Arena . A informação foi divulgada pelo jornalista Lauro Jardim, em sua coluna no O Globo.
Segundo o colunista, a proposta em estudo pelo Corinthians passa pela venda dos naming rights do estádio para a Caixa, tendo como referência o valor total da dívida.
O que diz Duilio Monteiro Alves?
Após a repercussão do caso, Duilio Monteiro Alves, presidente do Corinthians entre 2021 e 2023, divulgou um comunicado à imprensa para esclarecer os termos do acordo firmado com a Caixa Econômica Federal. Segundo o ex-dirigente, a retenção da receita da Copa do Brasil pelo banco só ocorre quando há parcelas vencidas em aberto.
Em sua mensagem, Duilio destacou que a renegociação da dívida da Neo Química Arena representou uma redução expressiva da contingência financeira do clube.
“Durante a minha gestão, celebramos um acordo muito saudável entre o Corinthians e a Caixa Econômica, que reduziu de R$ 3 bilhões para R$ 700 milhões uma contingência que o clube tinha a respeito da Neo Química Arena”, afirmou — confira a nota na íntegra abaixo.
O ex-presidente também ressaltou que, no último ano de sua administração, o clube quitou R$ 80 milhões relativos ao acordo e que a prioridade de pagamento deveria ter sido mantida após sua saída.
“No nosso último ano de gestão, quitamos R$ 80 milhões referentes a esse acordo. Esse pagamento deveria continuar sendo priorizado nos anos seguintes à minha saída. Se alguma receita listada como garantia foi bloqueada, isso lamentavelmente significa que alguma parcela vencida está em aberto”, escreveu Duilio, em nota.
Em 2023, o Corinthians arcou com quatro parcelas trimestrais de R$ 25 milhões referentes ao acordo firmado com a Caixa Econômica Federal, totalizando R$ 100 milhões pagos exclusivamente a título de juros. A última parcela do ano, com vencimento em dezembro, no entanto, foi quitada apenas de forma parcial.
Na ocasião, o clube pagou R$ 12,5 milhões, deixando um saldo remanescente do mesmo valor em aberto. Essa quantia foi posteriormente quitada em fevereiro de 2024, já sob a gestão de Augusto Melo, encerrando a pendência referente ao exercício anterior .
Nota de Duilio
“Durante a minha gestão, celebramos um acordo muito saudável entre o Corinthians e a Caixa Econômica, que reduziu de R$ 3 bilhões para R$ 700 milhões uma contingência que o clube tinha a respeito da Neo Química Arena.
No nosso último ano de gestão, quitamos R$ 80 milhões referentes a esse acordo. Esse pagamento deveria continuar sendo priorizado nos anos seguintes à minha saída.
Se alguma receita listada como garantia foi bloqueada, isso lamentavelmente significa que alguma parcela vencida está em aberto.
Sobre nossa gestão, cabe apenas mencionar que reduzi a dívida com a Caixa – que não foi contraída por mim – e que pagamos a primeira parcela, mostrando, em 2023, que o acordo era factível. Fizemos uma transição pacífica ao fim de 2023 com o presidente então eleito e tudo isso foi explicado.
A Neo Química Arena é um dos maiores orgulhos da Fiel e sempre será. Por isso, é preciso fiscalizar e combater a tática mesquinha de demonizar e descumprir os acordos que viabilizaram a quitação do nosso estádio, especialmente quando ela é empregada para justificar as irresponsabilidades administrativas que se seguiram, rasgando acordos como se não fossem positivos, além de piorar sensivelmente a saúde financeira de um clube que, de 2021 a 2023, apresentou três superávits!
Atenciosamente,
Duilio Monteiro Alves”




