Rosana Rsn
Valeu
em Bate-Papo da Torcida > A arte ainda se mostra primeiro
Em resposta ao tópico:
Nem todos sabem apreciar a arte — e talvez por isso ela precise, às vezes, começar com insolência.
O gol de Memphis Depay não nasce de um passe.
Nasce de um desaforo.
Uma bola entre as pernas do adversário, como quem diz:
“me perdoe, mas eu preciso ir além de você.”
É o tipo de gesto que não cabe em estatística.
É traço improvisado, pincel molhado de atrevimento.
Ali, antes mesmo do gol existir, já há pintura.
Já há a assinatura do artista.
A bola passa entre as pernas e, junto com ela, passa também a dúvida:
quem é que está jogando aqui? Um atacante?
Ou um ilustrador do impossível?
Depay segue, como quem desliza o pincel por uma tela relutante.
Cada passo é um risco.
Cada toque, um detalhe escondido.
E quando ele arma o chute, não é força: é composição.
É o instante em que o movimento precisa virar memória.
O gol acontece — mas a verdade é que ele já tinha começado muito antes.
No túnel, no drible, na ironia respeitosa do craque que sabe que arte também pode humilhar um pouco, se for para revelar beleza.
O adversário fica para trás;
a bola, não.
Ela segue fiel, cúmplice, testemunha.
E nós ficamos com a sensação de que acabamos de ver algo raro:
uma obra que começou num gesto proibido, quase um pecado,
e terminou consagrada na rede, absolvida pela beleza.
Porque arte é isso:
quando o mundo tenta te fechar as pernas,
e você passa por dentro mesmo assim.