A confusão na votação do anteprojeto da reforma do Estatuto do Corinthians , realizada no último dia 9 de março, segue gerando desdobramentos no Parque São Jorge. Na última quarta-feira, o presidente do clube, Osmar Stabile, convocou uma reunião extraordinária do Conselho Deliberativo (CD) para deliberar sobre o afastamento provisório de Romeu Tuma Júnior da presidência do órgão.
De acordo com edital publicado no site oficial, a sessão está marcada para o dia 23 de março, próxima segunda-feira, no Teatro do Parque São Jorge, com primeira chamada às 18h e segunda às 19h. A convocação tem como base o artigo 112, item 6, do atual Estatuto do Corinthians que, segundo o presidente, permite a realização de reuniões extraordinárias em casos considerados urgentes e relevantes.
No documento, Stabile sustenta a necessidade de análise imediata diante de denúncias de conduta irregular, da existência de processo disciplinar em andamento e dos desdobramentos da reunião do último dia 9, dando respaldo para o tema ser levado diretamente ao plenário do Conselho.
O pedido de afastamento provisório se apoia em uma série de fatos considerados graves pelo presidente. Segundo o edital, há denúncia formal contra Romeu Tuma Júnior por ameaças, assédio e atitudes que teriam interferido no andamento dos trabalhos da diretoria executiva, com base em provas testemunhais e documentais, pontos já mencionados por Stabile na reunião anterior.
O documento também relembra os episódios da sessão do dia 9, quando, após a apresentação das denúncias, a reunião foi interrompida e a votação da reforma do Estatuto acabou encerrada sob uma justificativa considerada “inverídica” pelo presidente, com o tema sendo posteriormente encaminhado à Assembleia Geral dos associados.
Há ainda o registro de uma representação disciplinar protocolada na Comissão de Ética e Disciplina (CE), acompanhada de boletim de ocorrência e pedido de suspensão liminar do cargo, todos apresentados por Stabile. Diante disso, o edital ressalta a gravidade do cenário e aponta a necessidade de apuração imediata pelo próprio Conselho Deliberativo, órgão competente para julgar seus membros.
Como já havia sido publicado no Meu Timão, Osmar Stabile protocolou inicialmente o pedido de afastamento na Comissão de Ética, presidida por Leonardo Pantaleão . Pelo rito tradicional, caberia à comissão conduzir a apuração, com coleta de provas, oitivas e elaboração de parecer a ser encaminhado ao Conselho, responsável pela decisão final. Com a convocação extraordinária, no entanto, a deliberação passa a ser direta no plenário do Conselho.
O Estatuto do Corinthians ainda prevê suspensão em casos como reincidência em infrações, prestação de informações falsas, cessão indevida de carteira social ou prática de atos condenáveis, como agressões ou danos ao patrimônio. Já o desligamento é reservado para situações mais graves, como reincidência após suspensão, inadimplência, condenações relevantes ou condutas que atinjam a imagem do clube.
A convocação também menciona possíveis infrações ao Estatuto e ao Regimento Interno do Conselho. São citados os artigos 27, letra D, e 28, letra D, que tratam de condutas irregulares e das penalidades cabíveis, que podem ir de suspensão à perda de mandato, além de dispositivos do regimento, como os artigos 3º, 6º, inciso XIII, 18 e 30, relacionados ao funcionamento do órgão, deveres dos conselheiros e procedimentos disciplinares.
Dessa forma, Osmar Stabile entende que houve quebra de decoro e de rito nas sessões recentes, especialmente na reunião do último dia 9, fundamentando a discussão sobre o afastamento provisório.
Outro ponto destacado é o impedimento de Romeu Tuma Júnior de conduzir o processo, já que figura como investigado. Com isso, a sessão deverá ser presidida pelo vice-presidente do Conselho Deliberativo, Leonardo Pantaleão, conforme indicado por Stabile.
Em nota enviada à reportagem, o vice-presidente do Conselho Deliberativo afirmou ter sido surpreendido com a convocação da reunião, destacando que não teve conhecimento prévio nem participou da definição da pauta. Ele apontou vício formal no ato, citando o artigo 82, inciso II, alínea b, e alegando que o Estatuto atribui exclusivamente ao presidente do CD a competência para convocar o colegiado.
Diante disso, considerou inadequado participar da reunião, por entender que sua legitimidade está comprometida desde a origem. Por fim, ressaltou a importância do cumprimento das normas estatutárias para garantir a segurança jurídica e a estabilidade institucional do clube — veja abaixo na íntegra.
Conforme apuração do Meu Timão, o pedido de Osmar Stabile sequer foi protocolado no Conselho Deliberativo. Além disso, a avaliação interna é de que a reunião não foi oficialmente convocada, apesar do edital publicado pelo presidente.
Mudanças na estrutura do Conselho Deliberativo em caso de afastamento de Romeu Tuma Júnior
Em maio de 2025, Maria Angela Ocampos, aliada de Augusto Melo, se anunciou presidente do Conselho e tentou anular impeachment no Corinthians
Divulgação
Em caso de afastamento de Romeu Tuma Júnior, haverá impacto direto na estrutura dos órgãos internos. Leonardo Pantaleão, atual vice-presidente do Conselho Deliberativo, assumiria a presidência do órgão, enquanto Maria Angela Ocampos, hoje secretária da Comissão de Ética, passaria a comandar o colegiado.
O nome da conselheira, inclusive, remete a um episódio anterior de tensão política no Parque São Jorge. Em 31 de maio de 2025, ao lado de aliados de Augusto Melo, Maria Angela tentou afastar Romeu Tuma Júnior do cargo .
Na ocasião, com o então presidente da Comissão de Ética, Roberson Medeiros, o Dunga, afastado por questões de saúde, ela se apresentou como presidente do Conselho Deliberativo, anunciou o afastamento de Tuma e tentou reverter decisões do órgão, incluindo o processo de impeachment de Augusto Melo, movimento que poderia reconduzir o dirigente à presidência no lugar de Osmar Stabile. A manobra, porém, não avançou e não houve mudanças nos cargos.
Atualmente, a Comissão de Ética analisa o caso. Em um eventual cenário de mudança na estrutura do órgão, caberia a Maria Angela emitir parecer sobre a investigação interna, na qual ela própria é apontada como uma das envolvidas, antes da deliberação do Conselho Deliberativo.
Relembre a confusão na votação do anteprojeto da reforma do Estatuto
Confusão na votação do anteprojeto da reforma do Estatuto do Corinthians
Fábio Marinho / Meu Timão
Antes da votação do anteprojeto de reforma do Estatuto do Corinthians, Osmar Stabile pediu a palavra no Conselho Deliberativo e afirmou estar sendo ameaçado e coagido por Romeu Tuma Júnior . Segundo o presidente da diretoria, Tuma teria tentado interferir na gestão do clube.
“Na sexta-feira, enquanto eu jantava, ele (Tuma) disse assim: ‘ou você faz o que eu quero ou eu vou te f**er’. Não posso administrar o Corinthians com pessoas me tratando dessa forma. Tenho testemunhas aqui sobre isso, além de outras interferências”, declarou Stabile, afirmando ainda possuir documentos que comprovariam pedidos de atualização sobre suas ações na gestão.
A pedido do dirigente, o diretor de negócios jurídicos, Pedro Luis Soares, também foi ao púlpito e confirmou o relato, dizendo que o episódio ocorreu durante um jantar informal no Parque São Jorge.
Na sequência, Tuma rebateu e acusou a atual gestão de recontratar Aldair Borges, segurança citado em depoimentos na Polícia Civil por permitir a invasão de torcedores no clube em janeiro de 2025. O conselheiro afirmou que levaria o caso à imprensa caso nenhuma providência fosse tomada.
As falas provocaram reação entre os conselheiros e geraram um princípio de tumulto, que interrompeu a reunião por cerca de dez minutos. Depois disso, a presidência do Conselho decidiu aplicar o artigo 45 do Estatuto e encaminhar a votação do anteprojeto diretamente para a Assembleia Geral (AG) dos sócios, alegando que o CD não desejaria deliberar sobre o tema. A AG, inclusive, foi agendada para o dia 18 de abril e rendeu duras críticas do Conselho de Orientação (Cori) .