João Pedro no Corinthians

Lucas Faraldo

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João Pedro no Corinthians

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João Pedro no Corinthians

João Pedro tem 17 anos de idade e já acumula dez gols pela equipe profissional do Fluminense

Foto: Mailson Santana/Divulgação/Fluminense

João Pedro é a sensação do futebol brasileiro em 2019. Com apenas 17 anos de idade, já é o protagonista da equipe profissional do Fluminense com incrível média de um gol marcado a cada 74 minutos jogados – já são nove no total (seria vice-artilheiro no Corinthians de 2019).

Na última quarta-feira, em noite de Copa do Brasil, quando o cronômetro do Mineirão apontava 51 minutos do segundo tempo, o adolescente acertou uma perfeita bicicleta contra o Cruzeiro de Mano Menezes para levar a decisão às penalidades. No jogo de ida, também havia sido ele o autor do gol do Fluminense contra os mineiros no Maracanã.

Para fins de ilustração do que João Pedro fez: na mesma fase oitavas de final, o Corinthians não balançou as redes em 180 minutos contra o Flamengo. Diante do mesmo Cruzeiro no último sábado, mas em duelo pelo Brasileirão, o ataque alvinegro também passou em branco.

Diante disso, me pergunto: e se João Pedro tivesse sido revelado nas categorias de base do Corinthians? Certamente seria hoje artilheiro também. Mas de uma Taça BH da vida. Um Campeonato Paulista Sub-17. Ou até o recém-criado Brasileiro da categoria.

A cultura medrosa do Corinthians no tratamento para com seus jovens talentos mina praticamente qualquer chance de um garoto realmente brilhar por aqui. Pedrinho, com 21 anos de idade, está enfim ganhando sequência – e daí não demorou para ser convocado à Seleção Olímpica. Desde os 17 anos, porém, já estava no radar de olheiros de Barcelona, Atlético de Madrid e Chelsea. Aqui no Corinthians, o próprio técnico Fábio Carille (então auxiliar) admite não tê-lo observado como meia centralizado nos tempos de base.

Pedrinho é um dos destaques da Seleção Brasileira no Torneio de Toulon

Pedrinho é um dos destaques da Seleção Brasileira no Torneio de Toulon

Reprodução/TV

A impressão que me passa é que falta gente para apostar em garotos de 17 anos no Timão. E apostar é botar pra jogar. Integrar ao elenco principal. Utilizar jogos de Campeonato Paulista e até Brasileiro para testar de verdade. Fabrício Oya, por exemplo: de que adianta pintar como maior promessa da década, estipularem multa de quase R$ 200 milhões e... emprestá-lo para o São Bento tendo jogado apenas 21 minutos pela equipe profissional?!

Guilherme Arana, com 18 anos, já tendo chamado atenção de todo mundo que acompanha a base do Corinthians, foi emprestado por Tite ao Atlético-PR. Só voltou para a campanha do hexa de 2015 porque Fábio Santos havia sido negociado. E, mesmo tendo substituído Uendel à altura quando necessário naquele Brasileiro, só foi engatar como protagonista da ala esquerda em 2017, com 20 anos de idade. E acabou vendido na mesma temporada.

Maycon passou por situação semelhante ao ser emprestado para a Ponte Preta em 2016, mesmo já tendo sido multicampeão pelo Sub-20 do Corinthians em 2014 e 2015. Daí brilhou em 2017 e já estava pré-vendido ao Shakhtar Donetsk no início de 2018.

Especificamente sobre vendas, o caso de João Pedro não é o melhor exemplo a ser seguido – o garoto foi vendido ao Watford (ING) num negócio que pode chegar a R$ 45 milhões dependendo de algumas variáveis (como bônus). Mas e Vinicius Júnior e Rodrygo vendidos por 45 milhões de euros cada após brilharem minimamente por Flamengo e Santos?

A alta cúpula do Corinthians, seja no corpo técnico ou diretivo, precisa fazer uma auto-crítica urgente. Cada temporada que passa sob essa cultura de mil dedos no tratamento aos jovens da base significa, provavelmente, ao menos um talento jogado ralo abaixo tanto no que diz respeito ao retorno financeiro quanto nos ganhos futebolísticos. Em troca de quê? Dos quase 100 jogadores vinculados profissionalmente ao clube emprestados Brasil afora?!

Observação – Depois da publicação dessa coluna, um colega que trabalha no Corinthians e mais especificamente ligado às categorias de base me chamou pra conversar sobre alguns pontos. E acho bacana ressaltar itens citados por ele:

  • a "promoção relâmpago" de João Pedro ao profissional do Fluminense (salto do Sub-17 sem passagem pelo Sub-20) está diretamente ligada à crise financeira do clube carioca e sua consequente dificuldade em contratar reforços;
  • casos recentes de jovens talentos que subiram relativamente cedo ao profissional, Malcom e Léo Jabá foram "queimados" por boa parte da imprensa e da torcida. O primeiro (hoje no Barcelona) foi titular do hexacampeonato brasileiro com Tite e mesmo assim era contestado.

Veja mais em: Base do Corinthians, Fábio Carille, Corinthians Sub-20 e Corinthians Sub-17.

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Por Lucas Faraldo Knopf

Jornalista pela ECA-USP e ex-Esporte Interativo, Jovem Pan e Lance!. Hoje trabalha no Meu Timão. Autor do livro 'Impedimento - Machismo, racismo, homofobia e elitização como opressões no futebol'.

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